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Viking

por Fulano de Tal, em 21.07.12

Só me apercebi daqueles estranhos símbolos gravados no tabuado do estrado que conduz ao areal, quando inadvertidamente fiquei com o chinelo preso naquilo que me pareceu ser um símbolo de um barco com a popa engalanada com a figura de um grifo. Adiante outro, e depois outro, e mais um na viga seguinte. Pareciam contar uma história.

Demorei um pedaço até reconhecer os símbolos como runas, elementos de um alfabeto que há muito desapareceu. Afinal de contas, não é todos os dias que tropeçamos num alfabeto extinto. O símbolo do barco era apenas um pequeno nódulo na madeira, percebo agora, uma vez que o alfabeto rúnico não comporta logogramas ou ideogramas.

Já sei que estão a pensar: "Impossível! O alfabeto rúnico era usado por civilizações que nada sabiam de grifos ou outras criaturas da mitologia grega." Acontece que sabemos muito pouco destas civilizações. Eu pelo menos, sabia pouco, até me encontrar com Erik, Do Baldinho Vermelho. Este gigante nórdico, extraordinária criatura que comigo se cruza há vários dias, na maré baixa, enquanto enchemos baldes de plástico, de brincar, com quantidades obscenas de conquilhas da Ria Formosa. Filho de Olaf, do Ancinho Azul e Sigurddottir, a Matulona. Temente a Odin e à esposa, uma Dinamarquesa que, cansado de violar e matar, arrancou dos braços do marido numa praia de Uppsala tomando-a por 5ª esposa, feito de que se arrepende hoje amargamente apesar de lhe ter granjeado grande prestígio entre a tripulação do Knarr em que se fazia transportar e que agora se encontra alí, ancorado uma dúzia de metros dentro do mar, com os seus pedais reluzentes, e uma pequena bandeirinha da Olá. Cabelos longos que lhe cobrem as tatuagens technicolor, de motivos guerreiros, e um chapéu que se assemelha a um elmo antigo, com dois bicos, que tento adivinhar serem do mesmo grifo representado no tabuado, a simularem cornos, e uma t-shirt de alças, com a inscrição "Jeg elsker min by Kopingsvik" denunciam-no como Viking.

No entanto, enquanto o observo de soslaio, pressinto-lhe um coração de mãe. Não sei o que me leva a tirar esta conclusão, mas não sinto qualquer receio quando ele se aproxima. Não creio que me vá rachar o crânio com o pequeno machado de brincar, em plástico, que carrega consigo, juntamente com o ancinho e o pequeno balde verde e vermelho. Ou que me vá pilhar as conquilhas enquanto viola selvaticamente a octagenária que acaba de ser deixada pelos filhos à beira-mar para, segundo eles "apanhar um bocado de sol". Não transporta consigo qualquer arma em material proveniente da forja de Ulberth, no vale do Ruhr, pelo que sinto a tranquilidade necessária para estabelecer com ele diálogo.

Estendo-lhe a mão, cautelosamente e digo: "Sérgio, Filho de Manuel e Rosa". Não sei porque adicionei a filiação ao cumprimento, mas Erik pareceu cómodo com o formato embora a sua expressão revelasse alguma surpresa. Não estará habituado a que com ele entabulem conversa. Vejo-o a levar a mão peluda ao baldinho, como que garantindo que está suficientemente seguro aos seus calções de pele de leão marinho. Agarra a minha mão num grip próprio de um Normando.

Dirigiu-se a mim em Old Norse, "Så mand, u r porreirinho?". Obviamente a palavra "porreirinho" não tem representação fonética em Old Norse, pelo que presumo que a terá aprendido algures entre Cacela Velha e Altura, enquanto beberricava uma Carlsberg servida no crâneo de um filipino. Desde anteontem que me encontro com Erik todos os dias. Reune-me a mim, à Catarina e ao Simão, dispostos em semi-círculo à sua volta, juntamente com meia dúzia de outros petizes, dois idosos que visivelmente padecem de transtorno de despersonalização e um casal de elfos que habitam um pequeno arbusto, juniperus phoenicea, junto à duna estacionária que se avista apenas do posto de praia na zona de apoio balnear. Tem-nos contado histórias assombrosas sobre a Grande Batalha dos Grifos, O Mito de Beowulf, e a mítica história Styrbjarnar þáttr Svíakappa. Em tudo o mais, a vida decorre com grande tranquilidade.

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