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Uma tarde ociosa no Porto

por Fulano de Tal, em 08.09.15

É óbvio que no Porto existe de tudo, tal e qual como em qualquer outra cidade do país. Existem centros comerciais, lojas de cadeias de marca, e o diabo a quatro. Mas quem anda ali na periferia da Avenida dos Aliados, por aquelas ruazinhas estreitas parece ser transportado 30 anos atrás no DeLorean do Marty McFly. Sapatarias, frutarias, mercearias, alfarrabistas, lojas que apenas vendem lâmpadas, ou tecidos, ou botões. A maior parte ostenta o nome do proprietário ou da zona. Como Sapataria Gonzaga, ou Mercearia da Trindade. Nem vislumbre de Forevas ou outras cadeias. A única coisa que nos lembra o século presente são os cafés e restaurantes a lembrar Paris.

Nas montras, cada merda tem um preço. Se estiverem vinte miniaturas de garrafas de Porto na montra, todas têm um cartaz “12,5 Euros”, “12,5 Euros”, “12,5 Euros”, “12,5 Euros”, “12,5 Euros”, “12,5 Euros”, “12,5 Euros”, “12,5 Euros”, “12,5 Euros”, “12,5 Euros”….

Imagino que seja atenção ao cliente. Nem todos perceberão de imediato que duas merdas iguais na mesma montra provavelmente terão o mesmo preço. Ou então é estrito cumprimento da legislação em vigor. Se há 50 amêndoas de páscoa numa malga, cada uma tem o seu papelinho, que por sinal dá o preço de um kg de amêndoas de páscoa, e não de cada amêndoa individualmente comercializada.

Talvez eu esteja a exagerar e fossem ovos kinder, e o preço fosse de cada um, até porque a páscoa ainda vem longe. No maravilhoso mundo que existe apenas na minha cabeça, os ovos kinder são apenas amêndoas de páscoa gigantes. Sem amêndoa.

Eu cá, andava à anos para ir à Livraria Lello. Fui impelido pelo excelente marketing do local, e impedido várias vezes pelas filas intermináveis à porta. Mas hoje enchi-me de coragem, comprei o bilhetezinho de 3 euros (excelente ideia, já agora), e lá entrei ao fim de vinte minutos. Sei que me ficaria bem tecer loas ao local, e antes fui bem besuntado com vaselina, tendo-me sido entregue um frontispício que supostamente me auxiliaria na visita. Um guia, com dizeres de grandes figuras da literatura, como que a avisar-me de que eles gostaram, então quem és tu? Só que eu sou o guardião do meu maravilhoso mundo, e confesso que não me encheu as medidas. Está certo que tem uma escadaria bonita, e talvez fosse um local sossegado para ficar a ler umas horas, não fossem as enchentes de turistas armados com selfie sticks. Mas assim, apinhado, ficou a impressão de não ter livros especiais, diferentes dos outros, e ter umas estantes maltratadas pelas térmitas e pelo tempo. Nem troquei os 3 euros pelo desconto, porque quem gosta de livros não encontra ali nada que não possua já.

3 euros por 3 euros, mais vale a visita à Torre dos Clérigos, pelo mesmo dinheiro mas que oferece muito mais valor, uma igreja bonita, uma escadaria claustrofóbica, uma exposição permanente, uma vista sobre a cidade.

Resolvi passar o fim de tarde na esplanada da Marina do Freixo. Este sim um lugar especial.

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