Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Uma borracheira descomunal

por Fulano de Tal, em 07.01.16

Não sei bem explicar o que aconteceu ao Austríaco de anteontem durante as… vamos lá, 2 horas em que eu e um par de colegas estivemos à conversa no bar do hotel. O que sei é que quando chegámos ele estava são como um pero e duas horas depois estava a ser arrastado para o quarto por dois baristas sorridentes, enquanto balbuciava algo de ininteligível, tal era a borracheira que levava naqueles cornos.

Sei lá que horas eram. Talvez umas 9 da noite quando chegámos ao hotel depois de uma reunião tramada cujo resultado trará consequências para nós, e decidimos discutir os eventos do dia enquanto bebíamos uma cerveja. Na mesa ao lado acabava de se sentar, sozinho, um fulano de ar atinadinho. Recordo que olhei distraidamente para ele quando nos sentámos, ao que desviou imediatamente o olhar, com alguma timidez.

Eu pedi a minha Westmalle tripple trappist que é servida num copo especial, tipo terrina, e conterá talvez os 33 cl da praxe que contém qualquer vasilhame. O tal gajo ao lado mandou vir qualquer outra cerveja, que se distinguia da minha porque era servida numa caneca de litro. Até comentei com os meus colegas que o fulano era relativamente franzino, e aquela quantidade de cerveja não tardaria a fazer efeito, ao que me foi respondido, por outras palavras que me preocupasse era mais com a minha que era uma tripple e que pelo nome, não se desse o caso de eu ter problemas com aritmética básica, permitia tirar conclusões relativamente ao álcool.

Como em tantas ocasiões, o tempo veio a dar-me razão.

Eu sou um fraco bebedor de cerveja. E se não gosto por aí além, como é o caso destas pesadas belgas, sou capaz de ficar ali a fazer sala e não passar do meio copo. Já o austríaco, estava eu nestas cogitações, havia mandado abaixo a primeira e fazia sinal para a recarga ao funcionário.

Deviam ter passado uns 45 minutos quando saí para fumar um cigarro. O austríaco, outrora tímido, parecia agora mais relaxado e seguiu-me. Estava claro que queria conversa.
“Zvere are ziu frrom?”
“Portugal”
“Ziu spik verry guod Zinglish! Congrratzulazionz”

Eu como tenho jeito para bêbados, lá fui conversando com o gajo e assim descobri que era Austríaco, de Salzburgo e naquele hotel passava uma a duas semanas por mês, em trabalho numa fábrica situada na povoação seguinte de Sint Job. Apresentações feitas, conversa da corda havida, cigarro acabado, paciência para bêbados esgotada, e ala p’ra dentro. Vou eu, e atrás segue o bebedolas, muito satisfeito consigo mesmo pela facilidade com que, na sua turva visão dos acontecimentos, a sua personalidade lhe granjeava grandes e novas amizades.

Ora aqui chegados, já eu o tinha catalogado como bêbado, mas ainda o meu novo amigo tinha a camisa para dentro das calças, articulava frases de razoável coerência, mantinha-se ordeiramente sentado na mesa que lhe havia sido destinada, e não havia urinado nas calças de caqui.

Pequei por antecipação no diagnóstico se é como digo, dir-me-ão vocês, com alguma razão. Não serei um Nostradamus dos bares e tabernas, mas já vi este filme por mais de uma vez. Nalguns casos, longínquos, terei estrelado.
Devo ter permanecido uns minutos absorvido pela conversa. Quando olhei para a mesa, já ele tinha desaparecido. Da mesa, mas não do alcance da vista. Estava agora ao balcão, agarrado aos dois empregados, a ensinar-lhes os fundamentos daquilo que penso serem canções tradicionais da sua região natal. Este olhavam alternadamente para ele e para nós, os outros habitantes deste estranho mundo em Sint Antonius. Quando nos calhava a vez de sermos observados riam como quem diz “Para o que lhe havia de dar…”.

E o triste fim do babarruxo já vocês conhecem porque comecei por aí arruinando a surpresa: uns minutos depois, já esfrangalhado, devidamente urinado e desprovido de qualquer honorabilidade, saiu em braços, não como um vencedor, aplaudido e laureado, mas como um reles bardazinas, alheio aos olhares de comiseração com que optámos por guardar uma última recordação sua.

PS: peço desculpa pela utilização de palavras inventadas por mim mais para o fim do texto, mas tinha esgotado todos os sinônimos de “bêbado” de que me recordava, e não queria parar o curso da história uma vez que ia embalado.

Autoria e outros dados (tags, etc)



Mais sobre mim

foto do autor


Deixe o seu comentário caso tenha gostado de passar por aqui