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Um cliente meu é muito engraçado

por Fulano de Tal, em 08.07.15

J. é um cliente meu. Gosto particularmente dele, mas não deixo que perceba. Faço sempre uma carranca quando o vejo, porque sei que aos seus olhos essa carranca é vista como autoridade. Afinal de contas eu sou um consultor.

Estou convencido que ele espera à janela nos dias em que eu o visito, ansiando por que eu apareça de fato e gravata, e não com os meus jeans e o blazer. Nunca mo disse mas sinto que ele preferia que eu fosse assim. Desta forma a carranca era a condizer com fatiota.

“Fechava-se o ciclo” pensaria ele, mentalmente repetindo a frase que sempre usa para me fazer crer que duas coisas sem qualquer nexo, têm afinal causalidade entre elas. “Fazemos ao contrário, porque sexta é feriado, e assim fechamos o ciclo”. Tá bem, J.

Por dentro apetece-me abraçá-lo efusivamente quando o vejo. Afinal já o conheço há bastante tempo, mas contenho-me e sai-me um “Então J.?”. Frio.

J. tem alguma dificuldade em manter uma linha de raciocínio. Se deixo que se distraia a meio de uma conversa de alhos, quando dou por mim estou a discutir bogalhos. Nunca chegamos a tratar definitivamente dos alhos, o que me aborrece. Notem que não é ele que me aborrece, mas sim o facto de eu ter de me manter muito alerta para que os temas se fechem.

Estou convencido que na cabeça dele todos os temas do universo estão intimamente ligados, pelo que se torna impossível abordar qualquer um sem que todos os outros se atropelem para entrar na conversa. Então digo:

“J. acho que estamos a divergir. Desculpe insistir, mas passaremos a esse tema quando esgotarmos o primeiro”. Faço-o rispidamente porque sei que é o tom que melhor o impressiona. Se eu o dissesse sorrindo, ele tentaria justificar a importância do segundo tema. “Mas é importante que perceba isto para compreender que…”. À minha rispidez reage respeitosamente.

“Tem razão. Onde é que íamos?”. Outra coisa que ele faz é deixar frases a meio, e arregala-me os olhos como que a querer que eu as complete.

“Se não fazemos isto é porque, é porque…”

“Porque não querem?”

“Sim, porque não queremos” diz sorrindo. Afinal eu estava atento ao que ele dizia, e soube completar a frase com grande precisão. Estar atento ao que ele diz é o único esforço que me imponho, porque sei que ninguém faz isso com J. É difícil, com tanta tergiversação, raciocínios incompletos, frases balbuciadas, e a maior parte dos interlocutores de J. perdem a paciência e desistem dele. Preferem falar com os colegas de J., os subordinados de J., ou os chefes de J. Ficou ali, aprisionado no meio de uma cadeia hierárquica em que todos se expressam melhor que ele. Mas eu completo-lhe as frases, tenho uma carranca e presto atenção ao que diz. Por isso quando o repreendo pelos bogalhos, ele sabe que eu estava atento aos alhos.

Mas J. também é bastante divertido. Por vezes temos de reunir com uns colegas de fora, e usamos o inglês. Ele não fala muito bem inglês, então vira-se para mim e diz: “eu entendo tudo mas não tenho vocabulário”, e espera que eu traduza para ele o que os outros dizem, e que traduza para os outros o que ele diz. O que é engraçado é que quando os outros falam, ele vai olhando para mim e assentindo com a cabeça, como que a concordar com o que está a ser dito, e não precisasse da minha tradução. Só que eu compreendo J., faço a minha carranca, que ele toma como assentimento pelo seu súbito entendimento de línguas estrangeiras, e traduzo tudo tim tim por tim tim. Para cimentar a ideia de que “entende tudo” e “só lhe falta vocabulário”, nos 40 minutos seguintes à reunião mete umas palavras em inglês no meio do que me vai dizendo. “Isto podia ser assim ou assado, Sérgio… uoréva”. Como eu decifro o “whatever” sem necessidade do seu esclarecimento, sente que marcou pontos. Pointes.

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