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Tozé, o filho da Teresinha

por Fulano de Tal, em 17.08.15

Se há história que merece ser contada é a do Tozé, o filho da Teresinha. Lembrei-me dele hoje ao vê-lo na festa da minha aldeia, com uma T-Shirt com os dizeres “Vencedor da Taça da Liga 2013/2014”.

Conheci-o bem a certa altura, porque é mais ou menos da minha idade. A ele e ao irmão mais novo, cujo nome não lembro. Eram os filhos da Teresinha e isso era tudo quanto precisávamos de saber.

Se na altura tivesse que apostar em qual deles morreria de overdose, punha as fichas todas no Tozé. Mas quis o destino que fosse o irmão. Começava a vê-lo ao longe e já lhe adivinhava a frase:

“Não pagas nada?” dizia ele em voz alta e pensava eu sincronamente para comigo. Normalmente pagava.

Acho que nunca o vi, ou raramente o fiz, que não estivesse de muletas, engessado, e numa certa altura da vida dele e da minha, com uns ferros enfiados na perna, que saiam por fora acima do joelho, e voltavam a entrar um pouco mais abaixo.

Semana sim, semana não, o Tozé espetava-se na motorizada. E não era por ser especialmente mau condutor, mas o Tozé tinha uma relação com a bebida que desaconselhava a condução. À intensidade desse vício correspondia o apetite do Tozé pelas festas de verão. Era quando eu o via, e era quando ele mais se espetava na motorizada, precisamente porque era verão e as festas não são sempre no mesmo sítio e obrigam à locomoção.

No início os ossos do Tozé regeneravam-se como os de qualquer outra pessoa, mas ele partia-os teimosamente no mesmo sítio sem os deixar sarar, e eles começaram a negar-se a colaborar. Daí os ferros, que para o Tozé funcionavam como auxiliar na cura, mas também como aquelas coleiras que se colocam aos cães com sarna, que os impedem de se coçar. Ao Tozé era incómodo para conduzir.

Depois ouvi que começaram a cortar-lhe pedaços do osso e o que é certo é que ele agora tem uma perna mais curta que a outra e manca. Nunca conheci o pai da Tozé, mas ouvi dizer que morreu da bebida, e com o braço dorido da pancada que aviava na Teresinha. A Teresinha sobreviveu-lhe pouco tempo. O irmão desgraçou-se, e o Tozé, que era o mais maluco dos quatro sobrevive até hoje, sabe Deus como.

E isto a propósito de o ter visto hoje, com a sua nova esposa, bastante apaixonado. Contaram-me que uma associação que há em Fátima foi lá reconstruir a casa em que vivem, e o que é certo é que ele me pareceu muito bem. Superbock numa mão, cigarro noutra, dançando tão desenvoltamente quanto a sua perna curta lhe permitia. Quando nos habituamos a ver uma pessoa a caminhar sempre por uma ladeira abaixo, nunca nos ocorre que ele possa subir a ladeira. Boa, Tozé!

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