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Activo / Passivo

por Fulano de Tal, em 12.09.16

urinol.jpg

 
Hoje precisei de usar um WC em plena A1. Não um urinol, mas sim uma daquelas divisões dotadas de alguma privacidade. Quando isto acontece sinto sempre estar em presença de um momento com potencial interesse para um post de grande profundidade.

E assim foi.

 

Escolhi criteriosamente a Mealhada. Uma estação mais antiga, onde as portas de pladur até ao chão conferem uma ambiência mais intimista, que aqueles materiais modernos, onde se conseguem ver os pés e pressentir a prostração dos utilizadores.

 

Na porta há muitos dizeres, e foram estes que captaram a minha atenção, porque são reveladores de uma das maiores deficiências do povo Português.

 

Selecionei dois para ilustrar isto:

“Jovem mulato ativo: 91 xxx xx xx. Zona de Coimbra”
“Jovem passivo. Guloso. 91 xxx xx xx. Leiria”

 

Um destes jovens foi o último a escrever a mensagem e é isso que me importa analisar. Porque não ligou ele para o outro, cuja mensagem já lá estava? Em vez de se anunciar. Leiria não é muito longe de Coimbra. Serão 60 km um óbice de tal ordem para, quem sabe, um grande amor?

 

Esta é uma das características dos Portugueses. Falta-lhes iniciativa. Preferem expor a sua ambição esperando que alguém a venha satisfazer, ao invés de se porem a caminho e perseguirem o seu sonho. Provavelmente aqueles dois jovens ainda hoje estão sozinhos.

 

Absorto nestes pensamentos, ainda assim procurei não perder a oportunidade e escrevi eu próprio uma mensagem: “Jovem empresário ativo, vende software de gestão: 93 422 xx xx”. Conto lá passar no dia 18 de Setembro, para ver se algum Empresário passivo colocou alguma mensagem procurando serviços idênticos aos que forneço. Quem sabe até lá, recebo alguma chamada de um empresário ativo ?

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Uma borracheira descomunal

por Fulano de Tal, em 07.01.16

Não sei bem explicar o que aconteceu ao Austríaco de anteontem durante as… vamos lá, 2 horas em que eu e um par de colegas estivemos à conversa no bar do hotel. O que sei é que quando chegámos ele estava são como um pero e duas horas depois estava a ser arrastado para o quarto por dois baristas sorridentes, enquanto balbuciava algo de ininteligível, tal era a borracheira que levava naqueles cornos.

Sei lá que horas eram. Talvez umas 9 da noite quando chegámos ao hotel depois de uma reunião tramada cujo resultado trará consequências para nós, e decidimos discutir os eventos do dia enquanto bebíamos uma cerveja. Na mesa ao lado acabava de se sentar, sozinho, um fulano de ar atinadinho. Recordo que olhei distraidamente para ele quando nos sentámos, ao que desviou imediatamente o olhar, com alguma timidez.

Eu pedi a minha Westmalle tripple trappist que é servida num copo especial, tipo terrina, e conterá talvez os 33 cl da praxe que contém qualquer vasilhame. O tal gajo ao lado mandou vir qualquer outra cerveja, que se distinguia da minha porque era servida numa caneca de litro. Até comentei com os meus colegas que o fulano era relativamente franzino, e aquela quantidade de cerveja não tardaria a fazer efeito, ao que me foi respondido, por outras palavras que me preocupasse era mais com a minha que era uma tripple e que pelo nome, não se desse o caso de eu ter problemas com aritmética básica, permitia tirar conclusões relativamente ao álcool.

Como em tantas ocasiões, o tempo veio a dar-me razão.

Eu sou um fraco bebedor de cerveja. E se não gosto por aí além, como é o caso destas pesadas belgas, sou capaz de ficar ali a fazer sala e não passar do meio copo. Já o austríaco, estava eu nestas cogitações, havia mandado abaixo a primeira e fazia sinal para a recarga ao funcionário.

Deviam ter passado uns 45 minutos quando saí para fumar um cigarro. O austríaco, outrora tímido, parecia agora mais relaxado e seguiu-me. Estava claro que queria conversa.
“Zvere are ziu frrom?”
“Portugal”
“Ziu spik verry guod Zinglish! Congrratzulazionz”

Eu como tenho jeito para bêbados, lá fui conversando com o gajo e assim descobri que era Austríaco, de Salzburgo e naquele hotel passava uma a duas semanas por mês, em trabalho numa fábrica situada na povoação seguinte de Sint Job. Apresentações feitas, conversa da corda havida, cigarro acabado, paciência para bêbados esgotada, e ala p’ra dentro. Vou eu, e atrás segue o bebedolas, muito satisfeito consigo mesmo pela facilidade com que, na sua turva visão dos acontecimentos, a sua personalidade lhe granjeava grandes e novas amizades.

Ora aqui chegados, já eu o tinha catalogado como bêbado, mas ainda o meu novo amigo tinha a camisa para dentro das calças, articulava frases de razoável coerência, mantinha-se ordeiramente sentado na mesa que lhe havia sido destinada, e não havia urinado nas calças de caqui.

Pequei por antecipação no diagnóstico se é como digo, dir-me-ão vocês, com alguma razão. Não serei um Nostradamus dos bares e tabernas, mas já vi este filme por mais de uma vez. Nalguns casos, longínquos, terei estrelado.
Devo ter permanecido uns minutos absorvido pela conversa. Quando olhei para a mesa, já ele tinha desaparecido. Da mesa, mas não do alcance da vista. Estava agora ao balcão, agarrado aos dois empregados, a ensinar-lhes os fundamentos daquilo que penso serem canções tradicionais da sua região natal. Este olhavam alternadamente para ele e para nós, os outros habitantes deste estranho mundo em Sint Antonius. Quando nos calhava a vez de sermos observados riam como quem diz “Para o que lhe havia de dar…”.

E o triste fim do babarruxo já vocês conhecem porque comecei por aí arruinando a surpresa: uns minutos depois, já esfrangalhado, devidamente urinado e desprovido de qualquer honorabilidade, saiu em braços, não como um vencedor, aplaudido e laureado, mas como um reles bardazinas, alheio aos olhares de comiseração com que optámos por guardar uma última recordação sua.

PS: peço desculpa pela utilização de palavras inventadas por mim mais para o fim do texto, mas tinha esgotado todos os sinônimos de “bêbado” de que me recordava, e não queria parar o curso da história uma vez que ia embalado.

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Os tomates do gorducho da SATA

por Fulano de Tal, em 12.12.15

Imaginem que precisam de ir a Antequera. E até têm um amigo que mora em Sevilha e está disposto a dar-vos uma boleia caso consigam ir pelos próprios meios até à Andaluzia. Têm duas opções:

1. Voam para Sevilha e vão com o vosso amigo de carro. 1 horita e meia.
2. Voam para Málaga e dali a Antequera é rápido.

...

Também existem duas opções de vôos convenientes, tanto para Sevilha como para a Málaga. A primeira opção é ir e vir com a TAP, por 300 Euros. Nada mau. inclui a bucha e com sorte uma edição nova da revista com mais uma crónica do Gonçalo M. Tavares. A segunda opção é ir com a TAP e vir com a SATA, ou ir com a SATA e vir com a TAP.

Os voos da TAP são exatamente os mesmos, o que muda é o da SATA. As opções com a SATA custam 1900 Eur e 2400 Eur, caso seleccionem a ida ou a vinda com eles, respectivamente.

Eu repito: 300 Eur. vs. 1900 Eur (na melhor das hipóteses). Mudando apenas um dos vôos.

A SATA pertence ao Governo Regional dos Açores. Percebo-lhes sagacidade na construção do preço. Perdem anualmente 30 Milhões de Euros (sim, dei-me ao trabalho de ir ver o relatório e contas), e a cada ano perdem mais 40% que no anterior. Mas lá cagança não lhes falta, é só certificações e acção social, e coiso. O desplante de pedir 2400 Euros por um bilhete de avião num percurso de 600 quilómetros é d'homem!

Vou mandar uma carta ao gorducho que serve de presidente de CA àquela chafarica a dar-lhe os parabéns pelo excelente par de tomates que apresenta.

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Maggie, a pequena octópode de 8 mm

por Fulano de Tal, em 22.10.15

Maggie é uma pequena aranha que há dois dias não faz outra coisa senão tecer finos fios de seda entre o volante do meu carro e as minhas orelhas. Se a pudesse dispor, totalmente espalmada e com as suas patitas estendidas sem a aleijar, o que apenas é possível em abstrato, não mediria mais que 8 mm, de ponta a ponta. Mas a sua capacidade para tecer e equilibrar-se na sua obra é incrível.

 

Há dois dias que ando em viagem e lá anda ela, do volante para a minha orelha e depois par...a o volante. Nunca percebi como é que ela faz o primeiro percurso até à minha orelha. Ou se sempre esteve na minha orelha e apenas se desloca para o volante quando finalmente chego ao carro. Quando dou por mim, estou na portagem dos Carvalhos e o fio já está tecido e Maggie encavalitada nele. Não creio que tenha a pretensão de caçar quaisquer insetos no meu inóspito automóvel. Espero estar enganado, não vá aquilo ser afinal o Tromba Rija dos pulgões e outros afídios.

 

Sei que é um octópode, porque hoje entre Antuã e a Mealhada se deixou balançar indolentemente no fio que ela própria teceu e pude contar-lhe as patas. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8. 8 patas. Octópode. E é tudo quanto sei sobre ela. Na realidade nem sei se é uma ela. É apenas um desejo que formulo porque sei que no mundo dos artrópodes é frequente as fêmeas em algum momento devorarem os machos. Que desperdício de sensibilidade teria sido eu poupar esta boa aranha durante dois dias para acabar devorada por uma amante.

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O que tem Tavira que seja absolutamente único?

por Fulano de Tal, em 26.07.15

O que tem Tavira que seja absolutamente único?

Tem José Serôdio. José Serôdio está presente a cada passo, com a sua cara sorridente. Todos os espaços comercializáveis em outdoor estão tomados por José Serôdio. José Serôdio ombreia com o LIDL e com o Continente. José Serôdio patrocina as corridas que por cá se fazem. É aliás o único patrocinador (ver foto). Admito mesmo que inscreva a equipa José Serôdio, que ostenta para além dos números dos dorsais o número de telemóvel de José Serôdio. A equipa de José Serôdio é candidata a ganhar, ou não fosse José Serôdio o vencedor que a sua foto manifesta.

À entrada da cidade um cartaz afirma "José Serôdio dá-lhe as boas vindas". Do outro lado da estrada, e em sentido inverso, "Gostei de o ver por cá. Ass. José Serôdio".

 

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A única razão para voar TAP

por Fulano de Tal, em 11.06.15

Os textos do Gonçalo M. Tavares são, atualmente, a única razão para voar TAP.

Não existe fator mais relevante, não existe destino, horário, ardor patriótico, não será por causa da refeição (que recusei mais uma vez), não será pela beleza latina das aeromoças (a quem puseram uma tromba de todo o tamanho). Nada. Eu voo TAP pelos textos dele.

Sento-me e lá vou direto à revista UP do mês. Passo a correr o editorial do brasileiro, folheio rapidamente o pretensiosismo campestre do José Luis Peixoto, passo por cima de roteiros, perfumes e roupas, atropelo as viajantes que nos sugerem destinos e só paro no Gonçalo M. Tavares.

Penso que nem ele tem a noção da importância que tem na continuidade desta companhia.

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Pela Catalunha

por Fulano de Tal, em 10.06.15

Ontem à noite tornei-me um independentista catalão moderado. Nem sabia que tal coisa podia existir. Para mim os independentistas nunca são moderados. Se um dos sete anões fosse independentista seria o Zangado.

Mas aqui a independência não se gritará, declarar-se-á. Tranquilamente, de um dia para o outro.

Seria quase irónico que Felipe V tivesse conquistado a Catalunha, e Felipe VI a deixasse escapar entre os dedos. Pelo meio 300 anos sem Felipes.

Os Catalães gostam dos Espanhóis. Isso surpreende-me. Só não gostam de ser Espanha. Vai custar um bocadinho, dizem-me.

“Mas nós gostamos quando as coisas custam um bocadinho. É por isso que diarreia não é uma coisa boa”. Demoro a perceber a analogia, e quando percebo já é tarde. Tinha levado o copo de vinho branco à boca e o riso explode-me diretamente no recipiente.

Não existe povo com expressões mais engraçadas que o Catalão. Um Catalão não diz que a torneira goteja. Diz que se assemelha à próstata de um reformado. E não se limita a fazer analogias simples. Complica-as, conferindo-lhes uma espécie de cifra risível. Não diz que algo tem duas cores. Diz que é como os olhos de David Bowie: um azul e dois castanhos. Só por isto merecem um país. Que será do tamanho da Dinamarca, mas muito mais engraçado.

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A comovente história do Emanuel

por Fulano de Tal, em 30.05.15

Estive quase uma hora com o Emanuel, a quem ouvi tocar na rua o “Povo que lavas no rio”. Olhos cerrados, sorriso de orelha a orelha. Não cantava particularmente bem, mas não lho disse. O que lhe falta em talento sobra-lhe em sentimento.

“Sabes o que vou fazer com o dinheiro que me deste? Vou comprar pão e queijo e vou sentar-me ali no parque onde tenho a minha mochila”.

Puta de história de vida. Emanuel Bettencourt, açoriano, tio de um tal Luis Bettencourt, que pela maneira como ele mo contou deve ser conhecido.

Tinha uma empresa de construções, tetos falsos. Fez os tetos do Dolce Vita de Coimbra. Trabalhou de Braga ao Algarve. Construiu uma casa nos Pousos em Leiria, bem perto de onde vive a minha mãe.

Ninguém lhe pagava e um dia chegou a carta dos filhos da puta da caixa geral de depósitos. Faltavam-lhe 5 anos para pagar o empréstimo mas iam ficar-lhe com a casa. No terreno tinha uma retroescavadora, um bobcat e uma sprinter.

Foi à judiciária dos Pousos, onde tinha amigos e disse-lhes que durante o dia ia beber (era monitor nos Alcoólicos Anónimos) e ia destruir a casa. Assim fez. Duas garrafas de Johnny Walker depois tinha a casa em ruínas.

“Não consegui deitar tudo abaixo porque aquilo era betão armado. Fui eu que a fiz”.

Pegou na sprinter e tinha a intenção de chegar a Lisboa. Mas ali quando a A1 se cruza com a A23 teve dúvidas. “Vou pela A23 ou A1? A23? A1? A23…”. Quando deu por ele tinha-se espetado contra o separador.

Não se lembra de nada. Esteve 2 semanas em coma. Puseram-lhe platina na perna e sararam-lhe as feridas. “Aqui e aqui” apontou para duas cicatrizes que tinha na testa, enquanto puxava do passaporte para me mostrar a fotografia dele antes destes eventos.

“Tás a ver? Esse é que é o Emanuel”.

Resolveu emigrar. Canadá. América Latina. França. Alemanha. Bélgica.

“O que eu quero é trabalhar. É o que eu gosto” diz-me enquanto me mostra as mãos calejadas. A música permite-me ganhar algum para comer. Ontem estive aqui o dia todo. Fiz 15 Euros.”.

“Toco músicas que nem os maiores maestros tocam”. Sorrio com a falta de modéstia, atendendo à sua frágil condição, mas ainda assim disse-lhe que ficaria mais um pouco para o ouvir tocar o Frank Sinatra.

“Em espanhol, mas da América do Sul que é mais doce”. Fiquei a ouvir o espanhol arranhado do Emanuel. Quis deixar-lhe mais algum e os meus cigarros. Não aceitou o dinheiro adicional. “Não preciso mais por hoje.”

Saímos os dois dali, cada um para o seu lado, eu a caminho da catedral de Nossa Senhora, ele a caminho do parque Platentuin, em Leopoldstraat. 5 minutos depois choveu torrencialmente.

Dois portugueses cheios de sorte.

 

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Faits D’Anvers. Centro comercial Stadsfeestzaal, na Meir, rua fechada ao trânsito no centro de Antuérpia.

Vim aqui porque o café é razoável e a wifi é gratuita. Eis os dois critérios que me conduzem quando estou fora de Portugal. Café e Wifi. Não me venham cá com arquiteturas medievais e esculturas únicas de Michelangelo.

Bebe-se lá uma boa bica? Então podem meter a Madona e o menino num sítio que eu cá sei.

Há net? Então podem sentar o traseiro no topo da torre gótica.

E é disso que falo aos camones que me pedem explicações sobre Portugal. Temos uma bica do caraças e wifi por todo o lado.

Mas há boas ondas e sol? Isso eu não sei. Mas podes ir ao Google.

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Mistério do pastel de nata

por Fulano de Tal, em 07.05.15

No início tinha alguma graça. Quando cheguei ao Hotel em Munique tinha à minha espera um pastel de nata e uma maçã. Até pensei que era o hotel a armar-se ao pingarelho: o gajo vem de Portugal, vamos colocar aqui um pastel de nata. Achei bem.

Os hotéis foram aliás das primeiras organizações a tratar os seus clientes com estes cuidados.

Acontece que dormi essa noite como um justo, acordei no dia seguinte e fui à minha vida e quando voltei, no final da tarde do dia seguinte, tinha à minha espera um pastel de nata e uma maçã. E não posso jurar mas pela disposição das manchas de queimado em cima, é o mesmo pastel de nata.

E aqui estou, há três dias, a travar esta batalha de nervos com a camareira: ela não remove o pastel, e eu não o como. Aposto que chega de manhã para trocar as toalhas e a primeira coisa que faz é verificar o pastel. Eu é o que faço quando chego à noite. Assim que abro a porta, lá está ele, ao lado da escrivaninha bávara. Entreolhamo-nos, o pastel e eu.

Ontem fiz uma pequena marca no pastel, impercetível e única. Até estou um pouco ansioso para que o dia passe rápido, para finalmente ter a certeza de que se trata do mesmo pastel e não um pastel em tudo idêntico, talvez fruto de um impecável processo de produção.

 

 

 

 

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