Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Quando o tema é racismo todos sem excepção alardeiam uma estupidez que não lhes é natural. Há temas assim, se calhar, onde ninguém se sente confortável e acaba a comportar-se como um anormal.

 

O comportamento daqueles 4 ou 5 moradores do bairro da Jamaica é deplorável e estúpido.
Generalizar o comportamento daqueles 4 ou 5 moradores para todos os moradores do Bairro da Jamaica e de outros bairros é estupido.
A reacção daqueles 4 ou 5 policias é inaceitável e estúpida.
Generalizar a reação daqueles 4 ou 5 polícias para todos os polícias é estúpido.
Os atos subsequentes de vandalismo são condenáveis e estúpidos.
As reações que se foram conhecendo de alegados agentes na redes sociais são estúpidas.
As palavras do Mamadou Ba são estúpidas.
As explicações para as palavras dadas pelo próprio Mamadou Ba são patéticas e ligeiramente estúpidas.
A espera dos estúpidos do PNR ao Mamadou Ba é um caso de polícia.
O General que pede extradição de Mamadou Ba só pode ser senil. Há uma condição médica em que a senilidade pode ser desculpa para estupidez e isto é uma excepção neste post.
A pergunta da Assunção Cristas é absurda e estúpida.
A resposta do António Costa é extemporânea e estúpida.

 

Toda a gente reage estupidamente a isto e a razão é a de sempre: entenderem que a escolha de um lado os impede reconhecer méritos ao outro e deméritos ao seu.
A vertigem de ser diferente (quantas vezes ouvimos a expressão “politicamente correcto” por estes dias) criou dois estereótipos de gente igual e extremada nas suas posições radicais e mesquinhas.

 

Ataca-se o Mamadou Ba defendendo as cargas policiais.

Atacam-se as cargas policiais desculpando as atitudes dos 4 ou 5 moradores do Bairro da Jamaica.

Ataca-se a Assunção Cristas defendendo a indesculpável recção de Costa.

Ataca-se Costa sem estranhar e condenar a pergunta de Assunção Cristas.

 

A única coisa que é verdadeiramente estúpida é existirem racistas, em qualquer dos lados da barricada, e ninguém, mesmo os reconhecidamente não racistas, conseguirem agir com normalidade perante tudo isto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Consoada Perfeita!

por Fulano de Tal, em 27.12.18

Este ano à mesa da consoada dei comigo a comparar aquele cenário que perante mim se desenrolava com as imagens publicadas pelos meus amigos ou pessoas que sigo no Facebook.

A Ana Moura por exemplo, publicou uma foto em que umas seis pessoas impecavelmente vestidas e sorridentes bebem o que parece ser vinho branco. Os copos todos iguais, com um líquido amarelo que parece ter saído de uma única garrafa, os pratos do mesmo serviço, os talheres reluzentes.

Na minha consoada somos muitos mais. Não há pratos de um único serviço. Há alguns azuis, meios transparentes, outros de cor branca com uns motivos florais. Há de certeza ali pratos de 3 ou 4 serviços diferentes. Os copos também são muito heterogéneos. Há os de serviço, mas coexistem pacificamente com os oferecidos pela BP numa ida qualquer a abastecer. Uns bebem branco, outros bebem tinto, outros sumo do pacote que também está em cima da mesa, água, coca-cola, etc. Ninguém se recorda, quando toca a tirar a foto, a tirar também os pacotes da mesa. Estão ali por mérito próprio.

Um brinde da minha família não se parece nada com um brinde da família da Ana Moura. É um patchwork de líquidos e alguns de nós podem apresentar um bigode imaginário resultado do gole feito antes do brinde. E os talheres que estejam à vista podem estar castanhos da mousse e ainda assim serem repescados para a foto como se estivessem muito bem e reluzentes.

As pessoas também não estão impecavelmente vestidas. Estão bem vestidas, bem entendido, mas isso compreende um vasto conjunto de indumentárias que vão da calça de fato treino à sweat da Nike. Uma foto da minha consoada não se parece nada com a foto da consoada da Barbie ou da Ana Moura, mas todos aparentam estar muito confortáveis.

Pode acontecer que na foto alguns dos comensais apareçam com uma peruca de cor grená ou uma bandana de pirata. Foi preciso para o teatro e ninguém se lembrou de as tirar para a foto, antes parecem exibi-las com orgulho, como se dissessem “vejam como me estou a divertir na consoada, e basta olhar para a minha cabeça para perceber que tive um papel bem importante na peça de teatro”.

Umas das coisas de que mais gosto na consoada da nossa família é precisamente a existência destas imperfeições. Eu seria provavelmente um fulano muito infeliz na consoada da Ana Moura.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Web Summit: o ultimo reduto do homem branco

por Fulano de Tal, em 07.11.18

websummit.jpg

Eu não fui à WebSummit. Mas sou um enorme fã da Web Summit. Tem promovido internacionalmente uma imagem do país que é aquela que queremos ter: moderno, acolhedor e sofisticado. Tem transformado a cena das tecnologias e continuará a fazê-lo por muitos anos.

Mas fui surpreendido por esta foto da cerimónia de abertura. Uma centena de pessoas em palco e nem uma mulher. Um cenário que nem sequer é representativo daquilo que é o panorama das tecnológicas Portuguesas, que padece de subrepresentação feminina mas está longe de ser zero.

Só tenho duas palavras para descrever um cenário onde não há uma única mulher. Fucking Embarrassing.

Embaraçoso para os organizadores.
Embaraçoso para os politicos.
Embaraçoso para os figurantes nesta foto.
Embaraçoso para a indústria em geral.
Embaraçoso para mim.

Nota: Somos um dos poucos países onde mais mulheres que homens se licenciam em cursos STEM (Science, Technology, Engineering & Mathematics). Fonte OCDE.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Amor Maternal não tem limites

por Fulano de Tal, em 06.11.18

20181105_232251.jpg

 

No Mundo Maravilhoso de Fulano de Tal existem muitas manifestações de amor maternal.

Hoje por exemplo assou e descascou-me castanhas nas brasas da lareira. Não descasquei uma. Ela descascava e eu comia-as. Quentes e boas. Torradinhas como eu gosto.

 

Como não quero que facilite, que pense que isto dos afectos são favas contadas, ia-a mantendo em sentido com frases como:

 

“Isto não está bem descascado”

E ela: “Já não vejo bem filho”.

“Caraças, pá!”

 

E mais adiante

 

“Gosto delas mais tostadinhas”

E ela: “Queres que as ponha mais um bocadinho a assar?”

“Caraças, pá!”

 

E assim sucessivamente até à ultima castanha.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ora bem, falemos de Judo

por Fulano de Tal, em 05.11.18

Ora bem, o Judo.

Nunca diria isto ao Fulanito de Tal que continua a afirmar gostar daquilo, apesar de eu sentir que não é genuíno, mas o Judo é das maiores fatelices a que ele se dedica.

Esperem, esperem, amantes do Judo. Leiam até ao fim e garanto-vos muitos mais motivos para ficarem indignados e virem aqui vomitar o vosso haikido. Ou será ogoshi-ban?

O Judo é aquela arte marcial que é escolhida pelas mães, ou pelos filhos que querem “andar à bulha” mas sem se magoarem. Não há um único campeão de MMA que tenha por formação base o Judo. E eu disse “à bulha” propositadamente, porque aquilo não é bem porrada. Deduzo portanto que seja “bulha”. Ou yakamashi. Ou mamadojo.

Eu admito que aquilo tem duas ou três características de que gosto: o facto de se progredir (as cores do cinto), ... espera, era mesmo só uma característica.

Mas enfim, enquanto o pequeno quiser dar uns empurrõezinhos e puxar uns colarinhos, lá irei sem qualquer problema. Espero que lhe passe rápido, para se focar em coisas realmente importantes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Beijos de Avós

por Fulano de Tal, em 23.10.18

Só conheci um dos meus 4 avós. O meu avô paterno não gostava cá de beijos. Eu chegava todo lampeiro e ele estendia-me logo a mão para me manter à distância. Dava-lhe o passou-bem forçado e ele dizia “Deus o abençoe”. E era este o nível de carinho que trocávamos. Istou durou durante toda a minha infância até ao pré-operatório e boa parte do operatório concreto (para quem não conhece as fases do desenvolvimento infantil postuladas por Jean Piaget, eu ajudo: até por volta dos 11 anos. Embrulhem intelectuais!).

 

Quando eu tinha para aí 11 ou 12 anos, ele ia suavizando os modos, precisava mais de nós. Ele achava que eu o ajudaria a passar álcool nas pernas se abrisse mão da bochecha. Era um trade off que o obrigava a abdicar da sua rabujice, para ter algum conforto nos gémeos. Comigo passava-se o oposto: se o via a chegar acenava-lhe de longe, o mais longe possível. Tinha beijos de sobra para a minha mãe e escusava de os gastar em quem não os apreciava por aí além.

 

É aqui, neste momento, que alguém poderia ter-me obrigado a beijar o meu avô, e eu seria neste momento objeto de estudo
de professores palermas que desenvolvem teorias sobre isto.

 

Ora, eu acho que este exemplo que acabo de vos dar, diz mais do meu avô do que de mim, ou da minha educação.

 

Dou-vos o exemplo contrário. O Fulanito de Tal se se apanha ao pé da avó, traça um perímetro de... vá, metro e meio, e dali não sai. Trocam-se beijos e abraços. E isto durará para sempre, não há volta a dar.

 

Moral da história: os avós, e todos nós, recebemos o que projectamos. E desse ponto de vista o professor palerma tem alguma razão. Não se deve, porque não deveria ser preciso, obrigar ninguém a beijar os avós. Se temos de o fazer, convinha verificar novamente o comportamento destes parentes, porque em matéria de afectos eu ponho as minhas fichas todas na criança.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Já não ouvia a TSF desde os tempos depressivos de Passos Coelho. Agora que tudo está maravilhoso outra vez voltei a ouvir e devo dizer que já tinha saudades da curiosidade jornalística sobre coisas irrelevantes de Fernando Alves e outras coisas que agora não me lembro.

Hoje vim a ouvir sobre o Congresso que vai haver no Algarve para apresentar o Pão de Medronho. Trata-se de um trabalho de investigação de um tal Rui Lopes que começou há 10 anos e consiste na produção de pão que contém na sua receita o ingrediente medronho.

Impossível não pensar que se há 10 anos tivessem dado uma sacada de medronhos à Srª Carminda, lá da Barreira, e não passasse das 11:00 horas, ela apareceria com pão de medronho ainda a tempo do lanche. É óbvio que não saberia defender, em palco de congresso, e perante intelectuais, as "propriedades organoléticas únicas" do medronho, ou explicar "de forma científica as características da crocância" do pão. Mas traria uma talha com manteiga e quem sabe umas fatias de entremeada e não tinhamos de esperar tanto tempo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mário não tem horário

por Fulano de Tal, em 11.08.18

Tenho vindo a reparar que o Mário não tem horário. O Mário tem um café em frente a nossa casa. A bica não é má, tem uma esplanada, só que ao contrário de qualquer outro estabelecimento comercial, o do Mário tanto pode abrir como estar fechado a qualquer hora e a qualquer dia da semana.

Penso que depende da hora e disposição com que o Mário acorda.

 

A melhor forma de perceber se posso ir tomar café é espreitar pela janela. Ele pode lá estar, e nesse caso está aberto, ou não, e nesse caso encerrado.

 

Já procurei um padrão, como por exemplo, "O Mário encerra aos Domingos". Mas também já acordei a um domingo, desci as escadas e tomei um café no Mário que estava aberto. Já me aconteceu descer a um sábado e estar fechado, e nessa altura pensar que ele talvez fosse fiel de uma daquelas religiões que privilegiam os sábados como dia de descanso. Só que no sábado seguinte ele abre. Ou noutro sábado qualquer. E ele também não fecha nem abre, digamos, no "3º sábado de cada mês". Nada disso. Ele abre ou fecha quando lhe apetece.

 

Hoje por exemplo, uma normal quarta feira. O Mário esteve fechado até perto das 11. Eu pensei que não ia abrir, e como todos os outros fecham em Agosto, pensei que não teria café. Só que às 11 o Mário abriu. Pronto, foi a hora a que ele chegou. Como eu ainda queria o café que me apetecia desde as 8:00, lá desci.

 

Num estabelecimento comercial desconcerta não haver um horário.

 

O Mário também serve refeições, mas ninguém pode planear "Amanhã almoçamos no Mário", porque ele pode não aparecer. Ou aparecer às 14:00. E especulando um pouco, porque de facto não sei, talvez apareça às 11:00 mas naquele dia não lhe apetece servir refeições. Eu sei lá o que vai na cabeça do Mário. Talvez lhe apeteça servir as refeições todo nu, e nesse caso a malta talvez não queira almoçar, o que ao Mário tanto dá, como se lhe deu.

 

Só sei que admiro o estilo de vida do Mário. Ao Mário ninguém manda fazer nada, nem mesmo abrir ou fechar o estabelecimento comercial. O Mário é dono e senhor da sua vida.

 

Mais abaixo há outro café. Chama-se "A Leitaria". A Leitaria abre religiosamente às 6:00 da manhã com 4 empregados. E fecham escrupulosamente às 19:00. Ao sábado fecham às 16:00 e ao domingo encerram. Até às 9 têm uns croissants de chocolate que a essa hora, mais minuto menos minuto, acabam. Servem refeições que publicam semanalmente. Qualquer um de vós pode dizer "Amanhã vou almoçar à Leitaria e comer o Bacalhau à Minhota" e terá a segurança de que caso seja essa a vossa vontade conseguem concretizar isso como se se tratasse de uma profecia.

O Mário desdenha da Leitaria.

Autoria e outros dados (tags, etc)

cinterpretacao.jpg

 

Em época de autárquicas cumpre-me o dever de oferecer aos novos edis e aos que revalidem os seus mandatos o meu parecer sobre esta aberração que são os Centros de Interpretação. Tudo isto grátis! (julgo que tenho a vossa atenção edis e potenciais edis).

"Se não tens nada de interessante na tua vilaroca mas tens um barracão municipal para o qual faltem ideias, reúne umas pedras, protege-as com acrí­lico e faz um centro de interpretação" diz uma voz interior ao edil.

O nome é apelativo, alude a um certo vanguardismo na preservação da identidade. O problema é que essa identidade não existe. Por mais pedras que exponham a dizer que eram usadas pelos agricultores etc, asseguro que nada daquilo tem qualquer diferença dos pedregulhos usados por outros agricultores no concelho ao lado que não se põe com estas caganças. Os utensí­lios usados para recolher a água do rio. O mesmo rio que corre um quilómetro mais acima e onde os mesmos utensilios eram usados para recolher a mesmíssima água.

Podes dar como certo edil que não são precisos três sociólogos, dois antropólogos e um historiador para interpretar nada daquilo. Não há aliás nada para interpretar. Havia um rio, por ele passavam pessoas que queriam água, eis um utensílio. Fazer historietas para lá disto é parvoí­ce.

Cuida do rio. Limpa-o, e faz dele um espaçoo aprazível. Esquece o centro de interpretação.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ouço vozes e só me dá para fazer asneira

por Fulano de Tal, em 06.06.17

"Desde quando ouve vozes?"

"Desde sempre..."

 

 

Ouvir vozes é uma das características da esquizofrenia, e frequentemente estas vozes são apontadas como a principal razão para os crimes perpetrados pelos esquizofrénicos. Nunca nenhum esquizofrénico refere ouvir apenas UMA voz. São sempre vozes. Várias.

 

 

 

A esquizofrenia afeta cerca de 0.5% da população o que para Portugal equivale a dizer que existem pr’ái uns 50 mil esquizofrénicos, e provavelmente muitos mais milhares que procurando uma saída para o seu crime alegam sê-lo. Basta que cada um deles oiça 3 vozes distintas para estarmos logo nas centenas de milhar de personas com quem dialogam. E há relatos dos que ouvem para cima de 10 vozes. Isto são, senhores, milhares e milhares de vozes.

 

 
Pois nem uma única destas vozes, nem uma, alguma vez foi reportada como tendo dito:

 

 
“Olha, porque não vais fazer uma sopa”

 

ou algo assim inofensivo.

 

“E se fosses roçar aquele mato ali do pinhal?”. Ou assim.

 

“Olha lá, Orlando, vai caiar aquele muro até lá abaixo”.

 

 
É muito estranho. Mas eu não sou especialista em saúde mental.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Deixe o seu comentário caso tenha gostado de passar por aqui