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Julgo que já vos falei do Miroslav (“Miro”) fiel arrumador ucraniano da minha rua, de vistas descompensadas pelas espirituosas do Lidl e exageros com vinho embalado em cartão. O que talvez não vos tenha dito é que o Miro tem um raciocínio cristalino, como um bom copázio de vodka.

 

“Miro muito estranhar portugueses em jogos olímpicos” disse-me ele hoje, assim do nada.
“Ah sim, Miro? Esperavas talvez melhores resultados?”
“Sim, Miro esperar melhor resultados”...
“Isso é porque não tens cultura desportiva Miro. És um analfabeto que provavelmente não pôs os pés numa escola”
“Não, Miro licenciatura em Desporto em Lviv. Mas Ucrania pouco trabalho então Miro vir Portugal”
“Certo, Miro, mas que sabes tu. Vens lá de Leningrado, sabes lá o que é levantar às 7 da manhã no inverno e ir para dentro de água, treinar”.
“Leningrado Russia. Miro, Ucrania. E Miro levantar sempre 6 da manhã. Muito frio na rua inverno, e Miro dormir em rua. Mas Miro esperar mais de atleta portugueses”.
“Não queiras comparar as dificuldades por que passas Miro, com as dificuldades por que passa um atleta como o Pimenta ou o Silva”.
“Atletas em Portugal passar dificuldades? Pessoas não gostar de atletas?”
“Nós gostamos. Idolatramos até, Miro. Passamos serões a partilhar fotos deles no Facebook, temos hashtags de apoio e vamos recebê-los ao aeroporto aos milhares quando eles chegam. A única coisa que não podemos fazer é dizer que esperávamos mais deles, Miro. E foi por aí que tu começaste. Como bem disse o Emanuel Silva, que direito tens tu de criticar”
“Não poder esperar melhor de atletas portugueses? Em Ucrânia nós sempre esperar melhor”.
“Isso não faz sentido nenhum, Miro. Uma vez um atleta alcance um bom resultado na vida, não se deve esperar que ele o repita nunca mais, ou sequer melhore. É como o sexo, para quê estar sempre a fazê-lo? Uma vez feito, está feito”.
“Mas… Miro não entender…”
“Olha a Sara Moreira, Miro: ela foi campeã Europeia, e nós esperávamos um bom resultado nos olímpicos certo?”
“Certo”
“Errado, Miro. Quem o fazia está em clara violação do código de adoração do atleta.”
“Código adoração…”
“Sim… do atleta. Aliás a Sara desistiu e deu-nos logo uma reprimenda. Nós sabemos lá o que é estar longe do filho para treinar”
“Miro estar longe dos filhos. Três filhos Miro em Ucrânia”.
“Sim, mas tu não estás a treinar Miro. És impossível, que diabos! Que faço eu a debater com um bêbado analfabeto de vistas descompensadas?...”
“Então portugueses poder apoiar mas não poder criticar?”
“Evidente Miro. Quem estraga isto tudo são os atletas que melhoram continuamente e cumprem ou excedem expectativas que eles próprios criam. Olha a Telma!! Ou a Patrícia ou o Nélson ou o Alexis. Esses estragam tudo com os seus feitos inusitados”

O Miro tem tanto para aprender connosco, meu Deus.

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Devaneio CyberPunk

por Fulano de Tal, em 25.07.16

Manta Rota. 28 de Maio de 2094.

Tenho que ser breve, pelo que vou resumir a história ao essencial. Em 2004, um laboratório da Repsol, conhecido apenas por Anton...io Brufau e um conjunto muito pequeno de executivos da companhia, dedicou-se secretamente à liquefação de gases como Nitrogéneo, Hélio ou Oxigénio, arrefecidos a temperaturas apenas mensuráveis pela escala de Rankine, e que se supunha serem alternativas viáveis à escassez de combustíveis fósseis prevista para 2024.

A partir desse ano e nos seguintes, a Repsol ganhou a concessão de todas as áreas de serviço da Via do Infante, em Portugal, pagando preços verdadeiramente absurdos em face de qualquer potencial retorno. O plano consistia em fazer destes postos de abastecimento a base experimental para este novo tipo de combustível, assim estivesse ele disponível.

O Projecto Helygen, ou Élirren, como era pronunciado nas cúpulas castelhanas da Repsol, reunidas no número 278 no Paseo de la Castellana, em Madrid, produziu um memorando altamente secreto e que circulou apenas no 18º piso: as conclusões apontavam para a destilação de ar atmosférico como a alternativa mais vantajosa quer do ponto de vista económico quer do ponto de vista energético. Este processo liquefaria o oxigénio. "Combustible desde el aire que respiramos! De puta madre!", regozijou-se Antonio Brufau.
O líquido seria posteriormente armazenado em Mega-Dewars (ou Megadévars, no castelhano), assim chamadas por serem versões gigantescas dos frascos de Dewar usados na altura para abastecimento de oxigénio líquido a hospitais.

Em 2012, finais de Julho, algo correu terrivelmente mal, justamente após o processo de destilação do ar atmosférico no posto de abastecimento de Olhão, o último antes da fronteira com Espanha. Seis Mega-Dewars foram violentamente derrubados por um automobilista embriagado de nacionalidade inglesa, que adormeceu ao volante do seu Suzuki Maruti, de aluguer, e que provocou longas fissuras nos compartimentos, libertando o líquido do seu interior.

Em 28 minutos o líquido escorreu pela encosta até às praias de Manta Rota e Lota, eliminando todas as formas de vida, incluindo a de 2.830 banhistas que ali se encontravam a veranear. Ou pelo menos assim se supôs nesse momento.

A última recordação que tenho é a de estar sentado à beira-mar observando o mar cálido de finais de Junho. Lembro-me de ter olhado para trás, surpreendido pela selecção musical do DJ da barraca dos gelados: Autobhan, dos Kraftwerk. Depois, um imenso frio e o vazio.

Na realidade as formas de vida foram criogenizadas pelos gases líquidos de baíxissimas temperaturas, não existindo naquela data tecnologia capaz de os devolver à vida.

Em Fevereiro de 2090 rebenta aquela que ficou conhecida como a "Guerra dos 2 dias", por ter sido esse o tempo necessário à massiva destruição que teve lugar. Áreas gigantescas do Globo Terrestre ficam inabitáveis, são abolidas todas as fronteiras, e perdem-se todas as fontes de conhecimento, inclusive sobre geografia. Milhões morreram. Hordas de assaltantes, malfeitores e assassinos impiedosos percorrem a terra, sem outros valores que não sejam os impostos por força, perante a ausência de qualquer normativa legal ou de uma força da ordem capaz de a impor.

Em Janeiro de 2094, um obscuro ginecologista de Altura, exibe perante a comunidade científica, composta por ele próprio, duas técnicas de higiene oral, e um pequeno eremita de longas barbas brancas a quem chamavam de Bernardo, provas contundentes de que havia descoberto tecnologia que deitava por terra o conceito de "Morte Teórica de Informação", e sugere ser capaz de não apenas soprar vida em corpos criogenizados sem lhes afectar desastrosamente as células, como preservar, e restaurar, toda a informação e estruturas cognitivas destes sujeitos. Artigos foram publicados ao longo desse ano, com evidências do achado nos poucos periódicos que eram distribuídos pelas populações, como o "Voz de Altura" e o "Sotavento ou Barlavento". A nanotecnologia molecular usada experimentalmente pelo especialista em pequenas reparações cirúrgicas de zonas erógenas, revelava-se a descoberta mais significativa neste período distópico.

Alguém se lembrou então dos 2.830 banhistas criopreservados acidentalmente em 2012, e que ainda se encontravam na região, acomodados em velhas arcas de gelados, abundantes naquela região mas completamente inúteis no pós-holocausto, uma vez que ninguém se dedicava mais ao fabrico de alimentos e muito menos de guloseimas espúrias. A expressão "Corneto", soube-o agora, aplicava-se simplesmente a uma peça em liga metálica que era usada na ignição dos potentes veículos usados pelos "First Responders", grupos de vigilantes que batiam diariamente as poucas zonas habitadas no sentido de aniquilar pequenos robots capazes de suster durante 2 minutos uma bandeja com seis copos daquilo que me parece ser um refrigerante de cor azulada, e cuja integridade havia sido comprometida pelos eventos de há precisamente 4 anos. Não existia já ninguém que associasse o termo a um simples rajá.

Eis-me aqui.

Acordei hoje, às 12:23h. Senti primeiro aquilo que me pareceu uma mão gelada a esbofetear-me uma, duas vezes. Um líquido gelatinoso escorria-me da face quando abri os olhos. Vultos indistintos pareciam pairar à minha frente, e uma luz irritante penetrava-me a retina.

Foi-me explicado que partes inteiras do meu cérebro foram melhoradas por uma técnica de fusão cibernética e molecular. Por alguma razão que desconheço sou incapaz de me emocionar, pelo que saio da estrutura sinusóidal em que estava instalado este estranho hospital e dou comigo a contemplar um cenário de absoluta destruição. A areia da praia era negra, coberta por uma fuligem que percebo ser produto das enormes nuvems negras Observo enquanto grupos de homens de aparência rude celebram aquilo que parece ser um estranho sacríficio efectuado em cima de um veículo, do qual sobressai um enorme motor V8. Os minúsculos circuitos que agora são a estrutura do meu sistema límbico, nomeadamente os cuidadosamente implantados no meu córtex frontal, responsável pela função cognitiva, respondem ao meu desejo de saber de quem se tratam com a informação: "Interceptores". Dizem-me ainda que se trata de uma casta de individuos, descritos como de grande ambiguidade moral, e incapazes se reproduzirem devido à forte exposição a átomos de hélio empacotados em estruturas cúbicas centradas.
A função destes interceptores nesta... "sociedade", é a criarem uma barreira entre a rebentação tóxica e as pequenas comunidades de humanos e ciborgues que habitam a orla da antiga praia. Paramentam-se com vestes de cabedal negro, e executam estranhas danças guerreiras nos longos momentos de ócio de que dispõem, uma vez que ninguém já tenta banhar-se, sendo essa uma prática que tinha caído em desuso há vários meses.

Sou acordado do meu devaneio cyberpunk, por um balde de água fria despejada em cima do meu peito pelo Fulanito de Tal.

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Nigga

por Fulano de Tal, em 15.04.16

Desde miúdo que me chamam Cajica. Colou-se-me ao corpo esta alcunha que já nem olho quando alguém grita do lado de lá estrada “Carlos Jorge! Carlos Jorge!”.

Desde que saí da Babilónia que ando de costas ao alto, a vadiar por Lisboa. Foi para aí a oitava vez que me apanharam na rua porque era suspeito de alguma coisa. Devo ter uma cara comum, ou então é por andar à futrica. Ao fim de uns dias parecemos todos iguais.

Aplicam-me um corretivo e depois deixam-me ir embora. Abientô, filhos da puta.

“Agora livra-te de ir contar isto aos teus colegas”. Colegas são as putas, oh Fabiano. Ou nunca foste à tropa? A malta do carocho são meus camaradas. Confio mais no Oliva que nestes besuntas fardados.

“Carlos Jorge!! Carlos Jorge!!”

Mas o que é que esta gaja quer? Andou a noite inteira a desmanchar cabritos e agora está aqui com esta bolina toda aos gritos no meio da estrada. Que queres?

“Os cacafelhos desapareceram”.

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Impossível fingir sanidade

por Fulano de Tal, em 04.01.16

Um homem comete um pequeno crime. Pode estar perante 3 a 5 anos de prisão. Decide então alegar insanidade, na esperança de ser enviado para um hospital simpático, onde umas enfermeiras jeitosas tratarão convenientemente dele, trazendo-lhe ocasionalmente fatias de pizza. Três semanas ou quatro de medicação e aí vai ele de volta à sua vida, que tem mais que fazer. Assim lho disseram.

Fingir insanidade é fácil. Recorre a guiões de filmes de terror e ficção científica e convence o pessoal médico que o examina que, de facto, está louco.
Talvez tenha exagerado no papel porque ao invés de um hospital simpático é enviado para o asilo psiquiátrico para onde são enviados toda a sorte de psicopatas, violadores, pedófilos e demais vis criminosos.

Nunca mais consegue convencer ninguém de que está são. Como se comporta um homem são? Como se senta um homem são? Ao tornar-se consciente da sua necessidade em aparentar sanidade, todos os gestos lhe parecem exagerados. Ao suaviza-los ficam artificiais. Especialmente naquele ambiente onde todos esperam que se comporte como um louco.

O seu diagnóstico foi feito à entrada, e qualquer que seja a sua estratégia tem certamente uma razoável explicação psiquiátrica: se é amigável com os o que o rodeiam, é visto como “estando a reagir positivamente ao ambiente”, se recusa confraternizar com os restantes, é visto como “estando a ter um comportamento antissocial”. Em ambos os casos recomenda-se a sua permanência na instituição. E ali permanece há 12 anos, convivendo com loucos apesar de se encontrar no seu perfeito juízo.

Um dia resolve agir com naturalidade e comentar os temas do dia-a-dia com a enfermeira, na esperança que esta possa interferir por si. Tinha recebido um número da “Scientific American” em que numa história se relatava como o governo dos EUA estava a treinar zangões para farejar explosivos. Comentou essa história, e como era interessante, com a enfermeira. Pensou ter feito um bom trabalho, até ler no seu relatório médico que alguém havia escrito “Acredita que o exército dos EUA treina zangões para farejar explosivos”.

 

* * *


Gostava de ter pensado nesta história, mas na realidade apenas pensei que era interessante partilhá-la. O livro que ando a ler chama-se “The psycopath test” de Jon Ronson e isto tudo passa-se no único capítulo que li, o primeiro.

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Maggie, a pequena octópode de 8 mm

por Fulano de Tal, em 22.10.15

Maggie é uma pequena aranha que há dois dias não faz outra coisa senão tecer finos fios de seda entre o volante do meu carro e as minhas orelhas. Se a pudesse dispor, totalmente espalmada e com as suas patitas estendidas sem a aleijar, o que apenas é possível em abstrato, não mediria mais que 8 mm, de ponta a ponta. Mas a sua capacidade para tecer e equilibrar-se na sua obra é incrível.

 

Há dois dias que ando em viagem e lá anda ela, do volante para a minha orelha e depois par...a o volante. Nunca percebi como é que ela faz o primeiro percurso até à minha orelha. Ou se sempre esteve na minha orelha e apenas se desloca para o volante quando finalmente chego ao carro. Quando dou por mim, estou na portagem dos Carvalhos e o fio já está tecido e Maggie encavalitada nele. Não creio que tenha a pretensão de caçar quaisquer insetos no meu inóspito automóvel. Espero estar enganado, não vá aquilo ser afinal o Tromba Rija dos pulgões e outros afídios.

 

Sei que é um octópode, porque hoje entre Antuã e a Mealhada se deixou balançar indolentemente no fio que ela própria teceu e pude contar-lhe as patas. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8. 8 patas. Octópode. E é tudo quanto sei sobre ela. Na realidade nem sei se é uma ela. É apenas um desejo que formulo porque sei que no mundo dos artrópodes é frequente as fêmeas em algum momento devorarem os machos. Que desperdício de sensibilidade teria sido eu poupar esta boa aranha durante dois dias para acabar devorada por uma amante.

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Contabilistas

por Fulano de Tal, em 18.09.15

O F. é o meu contabilista há quase 5 anos. Isto é muito estranho para mim, porque olho para o F. e ele parece-me um miúdo. Um miúdo hoje, o que me faz pensar em que raio de noite de copos é que ele se tornou o meu contabilista há 5 anos. Mas na realidade ele não é bem um contabilista. Existe um outro, que é o R., que assina os papéis todos. Esse é que é o verdadeiro contabilista. TOC. Ou ROC, ou lá o que é.

Mas é com o F. que eu falo, é ele que me aconselha em temas soturnos como acréscimos e diferimentos. Pode não ter o certificado que lhe permita assinar os meus papéis, mas ele é de facto o meu contabilista, mesmo que não o seja de jure.

Todos os meses envio-lhe uma pasta com faturas e interrogo-me sobre o que é que ele faz com aquela pilha mensal de papéis. De 5 em 5 meses, faz-me lembrar a sua existência, questionando uma determinada fatura ou movimento no extrato. "Este pagamento de 23,12 Euros feitos em 2011 às 3:43 da tarde reporta-se a quê Sr. Fulano de Tal?". Não faço ideia. Já tentei brincar com ele dizendo-lhe que não me lembro do que almocei ontem, quanto mais um pagamento de 23,12 Euros feito há 3 anos. Mas o F. não é para brincadeiras quando toca ao deve e ao haver. Despacho-o normalmente com um "Deve ser telecomunicações F.".

Desde o início do ano que todos os meses lhe deixo, no meio da pilha de papéis, elementos descabidos em contabilidade só para o fazer arquear as sobrancelhas debaixo dos óculos grossos. Em Janeiro deixei-lhe entre a fatura do MEO e um comprovativo de leasing, um guardanapo de papel do Califa, com uns lábios cravados em baton e um número de telefone ficticio. Fiquei à espera que me ligasse. Confesso que estava nervoso, pois não podia adivinhar a sua reacção.
Não me disse nada e eu nada lhe disse.

Em Fevereiro, coloquei uma fatura manual com o descritivo "Lingerie sexy" e adiante o valor sem IVA: 121.14 a que corresponde um PVP do preço psicológico de 149 Eur. Queria saber como é que ele classificaria tal despesa. Na minha cabeça já tinha antecipado o ar grave e confidente com que lhe diria "Terá de ser confidencial, F. Lamento dar-lhe estas maçadas".
Terei porventura pago tributação autónoma sobre este valor, mas valeu a pena pelas risadas que saquei só de o imaginar às voltas da fatura. Nunca me disse nada. Ligou-me uns dias depois, nesse mesmo mês, para me dizer que eu tinha esquecido de escrever o meu destino num recibo de portagem. "É necessário, Sr. Fulano de Tal, senão eu depois ... já sabe, não é?"

E assim tenho feito todos os meses. Março, Abril e por aí fora. Terei falhado em Agosto porque ele meteu umas férias e não quis armar-me aos cucos com a Srª M., que o substituiu nesses dias. Uns bilhetinhos, umas faturas, uns recibos.

 

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Observador

por Fulano de Tal, em 20.08.15

Hoje ia-me passando com o fulano ao nosso lado na praia. Não era alto nem baixo. Não era velho nem novo. Talvez uns 35 anos. Sempre a olhar para mim, e a rabiscar não sei o quê num papel, furiosamente. Olhava, rabiscava. Olhava, rabiscava. Se eu ostensivamente o encarava, ele desviava o olhar, nervoso. Todo ele tremia. Nunca tirou as sandálias e as meias, como que a pensar que poderia ter de abandonar a qualquer momento. Quando finalmente se foi embora deixou cair acidentalmente o papel em que rabiscava, e afastou-se amparado por um casal idoso que presumo serem os seus pais.

O que se segue é o que lá estava escrito (ainda estou todo arrepiado): “O meu nome é Monteiro. Raramente cometo erros como o de hoje. Eu cá não sento onde calha quando chego à praia. Por isso fico uns bons 5 minutos ali em cima, a olhar para as clareiras na areia, e tentando organizar os banhistas mais próximos pelas respetivas profissões. Na praia o profissional oculta o seu ofício. Transforma-se naquilo que ambiciona ser, e não revela aquilo que afinal é. E esse é o meu mister. Vejo a realidade despida de toda essa ocultação. Detesto ficar, por exemplo, ao lado dos trolhas. Não por lhes adivinhar humilde condição, mas porque em menos de nada estão a construir castelos para as crianças. Os castelos dos trolhas têm rebites manuelinos e outra ornamentação que nenhum outro profissional se propõe executar. Na ausência de uma boa betoneira, revela-se o artesão, o artista. Ou contabilistas. Os contabilistas são outros que evito. São fáceis de detetar, porque vivem em permanente excitação debaixo dos seus chapéus de cores muito garridas. Vertem caipirinhas e buscam aventura em cada decisão. São os primeiros a alugar gaivotas. Querem fazer todas as excursões, e suspiram para que o barco naufrague, que a banana vire, que o parapente se despenhe. Algo que traga agitação às suas miseráveis vidas. Escolhi hoje, como sempre faço, a clareira orlada pelos biscateiros com família, pelos polícias, pelos lavadores de janelas com cordas. Gente com vidas agitadas e que apenas quer descansar. E agora estou aqui e à minha frente quem vejo? Gostava de responder, mas este fulano intriga-me como o raio. Por um lado parece um rufia, igual aos outros que por aqui andam, e parece querer descansar, mas a cada 5 minutos é levado pela mão pela versão mínima dele próprio, e submerge mar adentro com o garoto ao colo. Depois volta. Vai e volta. Vai e volta. Já fez isto mais de 10 vezes e só estamos aqui há 2 horas. Parece querer descansar mas não descansa. Parece infeliz quando é forçado a ir, mas vem feliz no retorno. E depois hidrata-se, mas com o que parece ser um sumo de pera. Será um tendeiro, um barista? E o que é aquilo? Uma sande de pão com chouriço? Será um chef famoso? Procuro as ocultações mas este eu não decifro. Com quatrocentos mil diabos zarolhos, que fará este homem? Mãe, mãe, temos de ir, temos de ir…”

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Joel, o taxidermista II

por Fulano de Tal, em 28.07.15

Marta era um animal estupendo. Com mais frequência me chegavam humanos à mesa em fórmica que arminhos, cuja existência em território nacional apenas se deu por provada há cerca de 30 anos. E esta fêmea era um magnífico exemplar, completamente branco.

O nome era enganador. Sendo da família das martas, os arminhos eram contudo animais únicos. Fora trazida pela proprietária poucas horas após o seu passamento, condição essencial para que pudesse ser preservada. Tinha sido companhia e pretendia Olívia, pois assim atinei que se chamava, que o continuasse a ser. Não reparei muito em Olívia. Anotei apenas os seus dados e troquei circunstancialmente informações sobre a complexidade do trabalho, prazos e orçamentos. Mas reparei que era bonita para lá do normal que antecipava eu de uma mulher solitária que tem um arminho por companhia. Isto pude eu ver por isso o descrevo e mais não tive interesse porque o tempo urgia para Marta.

Assim que a porta se cerrou pude analisá-la melhor. Era visível a marca do atropelamento, que havia deixado uma pequena mancha de sangue no pêlo. Limpei cuidadosamente com algodão e água fria. Na secagem segui o meu próprio protocolo: uma mistura de serradura muito fina e farinha de batata para absorver a humidade, seguido de escovagem. Procedimento repetido uma, duas, três vezes, tantas quantas forem necessárias. A incisão neste tipo de animais é feita longitudinalmente, a todo o comprimento do abdómen. Aos 10 anos a mão fraquejava-me neste momento, mas aos 28 nada sinto para além da firmeza do pulso. Com o auxilio da faca e dos dedos comecei a separar a carne da pele, sendo que durante toda esta operação continuei a polvilhar a farinha de batata, para que o sangue e a gordura não sujassem a pele.

Estava especialmente atento para não perfurar as glândulas que estes animais têm na base da cauda, que se rompidas tornariam o ar pestilento. Foi neste momento que senti o objeto metálico preso na parte interior de Marta. De início pensei que seria um osso sobressaliente, porventura por azo do atropelamento, mas rapidamente percebi estar na presença de um no qual identifiquei o que me pareceu ser o desenho, ainda que tosco, de um olho aprisionado numa forma hexagonal, que mais não eram que dois triângulos avessos um ao outro. Detetei ainda as letras A n k h, monogravadas. Estranho achado carregava este arminho. Mais estranho porque ali havia sido colocado. Não resultava de uma ingestão acidental, que poderia ter acontecido pela voracidade desta espécie. Tinha sido deliberadamente cosido na proximidade do sacroilíaco, onde não causasse dificuldades maiores de locomoção.

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Joel, o taxidermista

por Fulano de Tal, em 27.07.15

Chocante. Não havia praticamente ninguém que não classificasse desta forma a exposição que chegou a Manheim, onde vivi 2 anos com os meus pais, em 1997: Koerperwelten. Corpos humanos, doados à ciência, e preservados por uma técnica inovadora inventada por um anatomista alemão.

Corpos verdadeiros, de pessoas outrora vivas, e que ali eram exibidos para que os estudiosos e os leigos pudessem observar a constituição de cada músculo, de cada órgão. Plastinação, era o nome da técnica, e posso afiançar-vos, bastante impressionante para um rapazito de 10 anos.

“Não devíamos ter trazido o Joel”, lembro-me de ouvir à minha mãe. Mas já eu me tinha deixado enlevar pelo excelente estado de conservação e verosimilhança ao ser vivo que aqueles cadáveres apresentavam. Enquanto os outros meninos se interessavam pela vida e obra de futebolistas e estrelas de cinema, eu passei a ansiar por conhecer mais detalhes da vida de Gunther von Hagens e Etienne François-Turgot.

Às coleções de carrinhos e soldadinhos dos coleguinhas de idade comparável, passei a contrapor os frasquinhos com besouros preservados em líquido, e a vasta coleção de nauseabundos esquilos, ratos e castores. Os meus bolsos não carregavam berlindes, mas pequenos tornos, pinças e limas, arame galvanizado, pincéis, algodão em rama, gomas, ceras, lacres e lacas. Todos sabiam quando estava prestes a chegar pelo tilintar constante dos materiais.

Data desta idade o meu interesse pela taxidermia, embalsamento, empalhamento e mesmo mumificação. Por esta ordem cronológica decrescente, que é como o conhecimento nos chega quando começamos a puxar o novelo.

Os meus pais tiveram de passar a conviver com o cheiro de soluções de formol, ou com as minhas tentativas de sintetizar natrão.

A cada passo encontrava dicotomias que me suscitavam um interesse cada vez maior: era uma arte ou uma ciência? Era ético ou imoral? Aves ou mamíferos? Estudo ou exposição?

Mais tarde percebi que podia moldar a perceção que o público retém de certos animais. Se deixasse vislumbre da ameaçadora gengiva de um tigre, tornando visíveis os dentes afiados, exaltava a sua ferocidade. Se optasse por lhe colocar uns olhos grandes e melosos, assemelhá-lo-ia ao dócil gato doméstico.

Nunca deixei contudo que a estética sobreviesse à técnica. Um perfeccionista mas não um esteta. Nunca fui de montar dioramas. Interessou-me sempre mais evitar que a natureza seguisse o seu curso e que os materiais orgânicos se perdessem na via lógica da putrefação, que representar o animal no seu habitat. Para isso aí estão os biólogos. Mas que sabem eles da curtição de uma pele? Das dificuldades únicas que apresentam a preservação de uma cutícula, de uma unha ou de um bico de uma ave? Ou como eliminar as exalações que atraem insetos?

Com toda a naturalidade fui sendo absorvido por trabalhos de preservação de cadáveres para estudo. Evitar os fenómenos cadavérico-destrutivos é praticamente dar uma segunda vida aos sujeitos do meu ofício. Primeiro pequenos mamíferos e algumas aves, depois mamíferos maiores e eventualmente humanos.

Ao contrário da taxidermia pura, onde apenas a pele é aproveitada para, digamos, vestir um manequim com a forma plasticizada do animal, na preservação de cadáveres para estudo é importante garantir que os tecidos apresentem uma sensação de incisão semelhante à do animal vivo, e uma boa aparência geral. De nada servem as técnicas que envolvem a montagem de manequins rígidos.

Se nunca tive dúvidas de que este era um chamamento vocacional, tive-as de sobra quando houve que optar por um determinado percurso académico. As capacidades inatas eu possuía-as, era razoavelmente hábil com as mãos, e tinha um enorme sangue frio na presença da morte. Mas as capacidades técnicas provinham de muitos e distintos campos. Não existe propriamente um curso superior de taxidermia. Os primeiros mumificadores eram aliás sacerdotes, embora tivessem alguns conhecimentos básicos de anatomia. Esta, por sua vez, é estudada essencialmente em cursos de medicina, e alguma coisa em veterinária. Mais recentemente em cursos de engenharia biomédica. Por outro lado os conhecimentos de química são essenciais, assim como os de biologia. Existe até quem se apelide de geógrafo de animais sem vida. Finalmente muitas das técnicas beneficiariam de uma formação em artes plásticas.

Tornei-me presença habitual nos workshops do Museu Nacional de Ciência e História Natural. “Fotografia na Zoologia e Antropologia”, “Uma viagem à pele humana”, entre outros. Juntei-me a grupos de discussão que lia e discutia os grandes manuais de taxidermia e as conclusões de Mauduyt ou Bécoeur. Debatíamos acaloradamente os benefícios e os malefícios da utilização de arsénico em pó, cânfora, ou como remover completamente a gordura dos tecidos e músculos. Nos momentos de maior relaxamento argumentávamos livremente sobre a possibilidade de criar animais, a partir de partes de outros, que assombrassem quem os visse expostos. Como o ornitorrinco de Shaw, ou os grifos do Museu de História Natural de Londres.

Foi num desses dias dedicados à rogue taxidermy, que conheci Marta.

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Interdições e estipulações

por Fulano de Tal, em 19.07.15

A Capitania do Porto de Faro determina todos os aspetos que se prendem com o veraneio nas praias do Algarve. Nada é deixado ao acaso.

Estas determinações estão divididas em duas categorias: as estipulações e as interdições. Ambas jazem sob a forma de Edital afixado nas principais barras, canais de navegação e outros espaços interiores navegáveis. Apesar do caráter pouco público destes locais, existe toda uma rede de amplificação que espalha a notícia como um rastilho de pólvora. Ainda a cola do edital que interdita a “apanha de espécies bivalves” (sacanice para conquilha) está húmida, e já o Lisboeta na ilha de Tavira com a sua patética garrafa de litro e meio está a ser autuado.

Estas determinações impactam a vida dos banhistas, mas acima de todos impacta a vida dos que vivem da vida dos banhistas. Estou obviamente a pensar em particular, mas não excluindo outros profissionais do verão, nos vendedores de bolinhas.

A primeira ocorreu em Abril, por alturas do concurso público que atribuiu licenças, praia a praia, para a venda de bolinhas. Pastelarias históricas, que em muito contribuíram para o desenvolvimento da bolinha enquanto doçaria de verão, perderam as suas licenças. A Pastelaria Ferramacho, a título de exemplo, foi excluída do licenciamento na Manta Rota. Da Ferramacho chegou-nos durante anos, não apenas a fritura em lume brando das bolinhas, como o coxo que as vendia. Perdeu-se assim um excelente coxo. O argumento da Capitania, defensável à luz na lei do licenciamento e concessionamento balnear, é o do padronização das ofertas, essenciais à projeção no exterior da imagem de um Algarve confiável, mais do agrado do turista.

Mais para o final de Maio, surgiu a determinação que estipula uma tipologia de vendedor de bolinhas. Se o coxo não tivesse sido eliminado pela exclusão da sua entidade empregadora, tê-lo-ia sido pelo seu caminhar não convencional. Esta determinação, assinada pelo Capitão do Porto, Capitão-de-mar-e-guerra Paulo Isabel, ele próprio, estipula um cânone para o vendedor. Apenas homens, entre os seus 25 e 35 anos, atléticos e bronzeados, conversadores, que não ostentem nenhuma dificuldade motora ou de outra índole. Exclui mormente os alopécios, os coxos, os marrecos, os gagos e obviamente as mulheres, ainda que estas não padeçam de nenhuma das incapacidades acima. Perante a indignação das associações feministas do Barlavento ao Sotavento, que defendia igualdade de tratamento para homens e mulheres (estava por exemplo disposta a aceitar a exclusão de marrecas, gagas e coxas, e a substituir a alopecia por outra enfermidade mais prevalente entre o sexo feminino, como a pele casca de laranja), escuda-se a Capitania no pretexto de que a jornada de trabalho na areia potencia perdas de produtividade e ânimo à medida que se caminha para as horas mais cercas aos entardecer. A coberto do estudo da Associação Folclórica e Recreativa de São Brás de Alportel (AFRSBA), que verificou por amostragem que essas perdas de produtividade atingia sobremaneira as mulheres e em particular, de entres estas, as grávidas, estipula a Capitania que, pois, se excluam todas, grávidas e estéreis, desta atividade. E deste parecer lavra e faz público o edital.

Sem surpresa, em início de Junho, e novamente através de edital, veio a Capitania dar enquadramento legal aos slogans dos vendedores. Expressamente interdita é a brejeirice e absolutamente essencial é a rima, tida pelo Capitão-de-mar-e-guerra Isabel, como uma tradição tipicamente Algarvia. Para exemplificar avança a Capitania com dois exemplos: “Olha a bolinha Andrade, que prima pela Qualidade” é aceite, ao passo que “Olha a bolinha Palmelão, para depois do palmadão” é claramente excluída, sendo até sugerida a versão (esta aceite) de “…para depois do escaldão”.

Finalmente, em Junho, e a par da interdição dos Jesuítas, praia sim, praia não, vem a Capitania dar razão e voz à Associação de Pequenos Produtores do Algarve (APPA), estipulando um leque de ingredientes aceites na confeção: 1. A farinha deve conter um mínimo de 50% de farinha de Alfarroba, ou ser dela 100% constituída (esta exceção abriu espaço à bolinha de Alfarroba, hoje tão popular). 2. A raspa de limão é absolutamente interdita, sendo antes substituída pela raspa de laranja algarvia, a única aceite. 3. O leite a usar deverá provir de vacas algarvias certificadas, ou no caso de alguma esposa de colaboradores da Capitania se encontrar a aleitar, é também aceite esta proveniência. O edital infra é assinado conjuntamente pelo Capitão-de-mar-e-guerra Isabel (da Capitania), pela cônjuge, e pelo Inspetor Geral da ASAE, Pedro Gaspar.

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