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A Inovação em Portugal

por Fulano de Tal, em 11.12.15

Encontro Nacional de Inovação, há meia dúzia de dias.

600 Inscritos. Mais de 90% de fato e gravata. Todos cinzentos e azuis. Média de idades ronda os 60 anos. Automóvel mais frequente: BMW série 5 (e acima). Motoristas. Muitos. Cerimónia de encerramento pelo Presidente Cavaco. Local: Culturgest.

Lêem-se discursos a partir de folhas de papel. Não faltam os ministros, secretários de estado. Ouvi mesmo um agradecimento à presença dos “representantes do corpo diplomático”. Que raio fazem aqui? Convidados a orar, empresas que gastam muito dinheiro em inovação.

Entretanto lá fora putos que andam de bicicleta desenvolvem, sem dinheiro, ideias geniais. Não podem participar porque não têm gravata, nem BMW, nem motoristas que os tragam até aqui. Mesmo que tivessem não podiam discursar, encantar-nos com as suas ideias e entusiasmo. Porque não conseguem provar perante conselhos consultivos que ideias e entusiasmo valem muito mais que dinheiro.

Felizmente este não é o retrato da Inovação em Portugal. Este nem é um retrato. É um quadro. Pintado por quem se apoderou da palavra Inovação, mas é incapaz de se apoderar do seu significado. Um quadro fatela e sem chispa nenhuma.

Falam de startups. Aposto que não conhecem nenhuma. Apetece-me perguntar ao ministro “Sôtor Caldeira Cabral, diga-me aí o nome de uma startup”.

Entra o CEO da Frulact.

"Nós na Frulact" (diz o CEO da Frulact) "temos uma equipa de ID a analisar aqui que será a nossa dieta daqui a 10 e 20 anos e temos acesso a informação importante e até surpreendente. Dou-vos um exemplo, temos falado muito em proteínas, primeiro a animal e depois a vegetal. Pois nós já estamos a trabalhar na proteína dos insetos. E na Frulact já podemos provar iogurte por exemplo de grilos e gafanhotos."

(Sala ri-se nervosamente, sendo audíveis vómitos provenientes da 6ª fila).

Adeus Frulact. Foste uma empresa muito inovadora e depois morreste afogada em inovação.

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Os magnificos cartazes da CGD

por Fulano de Tal, em 21.07.15

“Venha falar connosco, de Empreendedor para Empreendedor” diz um cartaz da Caixa Geral de Depósitos, exposto em todas as agências, ilustrado com o retrato do que penso ser um bancário com uma carreira de 20 anos de escriturário. O único bancário com laivos de empreendedorismo que conheço é o Armando Vara, com os resultados que se conhecem.

Give me a break…

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Tal como faço todas as manhãs há mais de 22 semanas, hoje sem exceção escrutinei o obituário à procura de uma personalidade pública que tenha falecido.

Podem tentar convencer-me do contrário, mas os melhores obituários continuam a ser os do Correio da Manhã. Os pobres costumam ser mais criativos e sentimentais na hora de se despedirem noticiosamente dos seus entes queridos. As peças, chamemos-lhes jornalísticas, são bastante melhores, embora a fotografia que as acompanha seja habitualmente de pior qualidade, e a preto e branco.

No entanto, para o meu propósito, a morte de uma pessoa comum não resulta significante. Por isso, nesta rotina diária, lanço-me aos websites de mexericos, às revistas sociais. Procuro óbitos de celebridades globais e já vos darei conta das razões.

Ao invés do mais tradicional pensamento do dia, eu procuro o passamento do dia.

E a seleção é um processo criterioso. Uma celebridade falece habitualmente envolta em grande mistério, quase fenomenalmente. Ao contrário dos pobres do Correio da Manhã, que simplesmente deixam de existir por um qualquer problema coronário, este lutam estoicamente durante meses com fantasmas e criaturas mitológicas. Bastantes vezes morrem de amores, depressões, rebeldia, ou outras causas incomuns. Existem os que tentam superar-se fisicamente. Muitos morrem a 200 e alguns a 300 km/hora. E todos deixam um legado. Não uma herança material, mas algo mais profundo: um espólio de ensinamentos aos que ficam. Isso mesmo. Todos podemos aprender imenso neste momento. Aquilo que podia ser apenas um momento de dor, converte-se numa oportunidade de seguir adiante, mais rico, mais apetrechado de doutrina.

Só isso justifica que pessoas como eu, em todo o Mundo, se dediquem a escrever crónicas, posts, artigos como estes: “Os 7 hábitos de procura da felicidade de Robin Williams”, “As 4 qualidades essenciais de um líder que podemos reter de Tommy Ramone”, “Os 10 traços de personalidade que fizeram de Peaches Geldof uma figura de charneira”, “As 6 razões para não deixar a celebridade subir à cabeça de Louis, o chimpanzé” (NR: falecido em 2013, Louis era famoso pelas inúmeras aparições em anúncios de TV) ou o mais técnico “Os 3 tipos de óleo de travão que poderiam ter salvo Paul Walker”.

Notem que de fora ficam sempre as causas naturais (descartei olimpicamente a Lauren Bacall, ou o Sir David Attemborough, por ausência de comoção), e as doenças (apesar de Hugo Chávez fornecer motivos variados para um bom artigo sobre marketing B2C, não convém despertar o monstro do respeito post mortem).

Guardo em carteira outras figuras, como Philip Seymour Hoffman, Michael Jackson, e outros, mas temo que se tenha perdido a oportunidade de garantir gostos e comentários, por meras razões de atualidade.

Bem sei que muitos de vós se estarão neste momento a interrogar: “E se ninguém de jeito morrer no dia? O que será da tua profissão?”. Como calculam, também eu tenho antídoto para a silly season. A minha alternativa é discordar de personalidades com as quais é impossível discordar. Confuso? Então tomem lá: desde o prosaico “Porque é que a Madre Teresa de Calcutá estava profundamente equivocada”, ao profundamente exclamativo “Dalai Lama: estás enganado!”, ou ainda o mais visualizado de sempre, sobretudo no estado islâmico do Iraque e do Levante, “10 Razões de cariz geológico para a montanha não ir a Maomé”.

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Shark Tank

por Fulano de Tal, em 25.06.15

Olá Tubarões. O meu nome é Fulano de Tal e estou aqui para oferecer 10% do meu negócio. Isso mesmo, ouviram bem, oferecer. Isto porque o meu negócio não precisa de capital, mas sim de um parceiro estratégico. Depois de expor em que consiste, estarei atento à vossa demonstração de interesse, e particularmente interessado naquilo que pensam ser a maior qualidade que podem aportar, caso venham a ser escolhidos por mim.

O meu negócio chama-se “Brutally Honest”. Trata-se de uma atividade de consultoria para empresas, e consultas para indivíduos. No caso das empresas, e ao contrário das tradicionais empresas de consultoria, nós dizemos tudo sem salamaleques e transmitimos apenas oralmente as conclusões. Não fazemos calhamaços com conversa da treta. Dizemos tudo, de acordo com a nossa metodologia patenteada, na tromba.

Avaliamos pessoas, equipas e departamentos. Opinamos no lançamento de novos produtos ou estratégias comerciais. Se é uma besta, é uma besta. Se o produto é uma merda, é uma merda.

No caso dos indivíduos, e pela natureza gráfica das consultas que levamos a cabo, nunca consultamos duas vezes a mesma pessoa. Isto pode aparentemente levar à escassez de Clientes, mas todos os anos nascem e morrem pessoas, fenómeno que está perfeitamente representado no business plan.

Não temos pruridos em dizer a uma mãe que os filhos são horrendos e nada talentosos, ou a uma jovem insegura que preferíamos pisar um excremento todos os dias à porta de casa a usar aquela fronha a que ela chama cara.

Quem nos procura quer uma opinião honesta e é isso que fornecemos. É isso que torna o nosso serviço único no Mundo. Analisámos o mercado e ninguém faz isto. Registámos as marcas e domínios, inclusivamente BH.com Brutal.com e outras derivações. Aguardamos patente de processo, que proteja o “saber fazer” descrito na nossa metodologia.

Fico à espera da vossa demonstração de interesse no negócio, e respetiva defesa daquilo que pensam ser a principal mais-valia que podem aportar, caso sejam a minha opção para parceiro estratégico.

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O marketing ferial é uma coisa tramada

por Fulano de Tal, em 07.04.15

De um dia para o outro tornei-me proprietário de uma boa dezena de canetas com o nome de empresas gravados, sendo que duas delas têm uma borrachinha na ponta capaz de deslizar sobre um iPad em substituição de um vigoroso dedo indicador. Estas duas empresas têm a minha predileção sobre todas as outras. Embora me tenham oferecido canetas, desprezo as empresas que não acrescentaram a borrachinha. Mais valia não terem investido nas canetas.

Possuo também, desde esta tarde, um bom saco de terylene. Na realidade não sei se é de terylene, mas queria lembrar-me do nome de um tecido que na minha cabeça fosse nobre, para ilustrar a boa qualidade do saco, e só me ocorre terylene porque com ele não vinham conhecimentos de alfaiataria, e a flanela eu reconheceria daquelas calças que em miúdo me faziam parecer ridículo (embora fossem quentinhas).

O saco também tem gravado o nome da empresa: EGOR. Não conheço mas reputo-a já como uma das melhores empresas na área em que atuam, que não sei qual é, mas pelos dizeres deve ter a ver com recursos humanos.

O marketing ferial é implacável. Eu cá substituo qualquer fornecedor a troco de um porta-chaves ou uma lanterna. Dentro do saco brochuras lindas em gramagens que eu pensava serem reservadas ao catálogo da Sotheby’s. Gruas vistosas circulando num campo de papoilas. Paletes de várias cores alegrando a vida quotidiana de jovens de minissaia. Uma combinação estranha do mundo da logística (tema da feira) e o mundo do sexo kitado com opiáceos (tema que suspeito ser o sugerido pelas jovens e pelas papoilas).

Apeteceu-me comprar aquilo tudo e alimentar-me 3 dias só à base dos rebuçados marcados da Kuehne und Nagel.

O nosso departamento de marketing, do qual sou o único recurso (em part-time), optou como sempre faz desde que me ocupo do departamento (ou seja, desde sempre), pela economia e sobriedade, conceitos pouco valorizados, a começar por mim. Éramos portanto a pior empresa de marketing da feira. Ainda bem que não somos uma empresa de marketing.

As nossas brochuras também eram facilmente notadas dentro dos sacos. Vinham completamente amarrotadas pelo peso das restantes. Perante tanta seleção no 360imprimir.pt acabei por me confundir com os termos “couché” e “mate” e a escolher um papel que fazia lembrar o higiénico, antes de alguém ter a ideia da “folha dupla”.

“Foi uma pechincha” lembro-me perfeitamente de ter pensado logo a seguir ao enter final, enquanto punha o meu melhor sorriso idiota.

Mas o que nos falta no marketing sobra-nos em competência técnica. E felizmente há sempre alguém na feira que não olhou ainda para o conteúdo dos sacos, pelo que tivemos uma prestação muito aceitável. Obrigado por terem perguntado.

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Empreendedores em contraciclo

por Fulano de Tal, em 06.04.15

Belíssima reportagem da TVI sobre "empreendedores em contraciclo".

Gente que "gera riqueza na proporção inversa em que o país o consegue fazer". Apetrechei-me dos óculos de ver ao perto, e da coberta quentinha, e fiquei ali à espera dos empreendedores, gente anónima que vence as probabilidades do país em que vivem. Cristina Ferreira é uma destas empreendedoras. Sim, a apresentadora do Goucha. E o empreendimento dela é um blog. A seguir o apostador profissional que já apareceu em tudo o que é gato-pingado de jornal das 8. Fala do Ferrari.

São estes os exemplos que a TVI encontrou para exaltar a capacidade de empreender dos Portugueses: podemos optar por nos tornarmos numa estrela de televisão, multimilionariamente paga, e só depois criar um blog, ou em alternativa, deixar os estudos para apostar em resultados desportivos, o que se não é ilegal, deve andar lá perto.

Por esta hora já meia dúzia de estúpidos se estão a registar na Bwin para perder as poupanças da família. E se a TVI fosse bardam***a?

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Kevin O'Leary é o maior

por Fulano de Tal, em 01.12.14

Momento zen do dia. Kevin O'Leary no Shark Tank para um empreendedor que estava a patinar na argumentação: "Let's do this: you leave now, and never tell a soul about this amazing secret. Let it die with you"

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Mudança o cacete

por Fulano de Tal, em 14.05.14

A única coisa permanente é a mudança.
Tens de estar preparado para mudar.
A mudança começa em ti.
A tua mudança mudará outros.
Vê o exemplo dos que mudam. ...
Muda!.

Mudança o cacete!

Com esta conversa da mudança é que não me apanham. Não a mim.

Ainda agora estava aqui numa esplanada a ouvir 4 engravatados com ares de serem grandes líderes de uma empresa de consultoria. "Eles precisam de um supply chain manager". Ares de assentimento da quadrilha. Pois precisam.

Nenhuma empresa deveria precisar de um supply chain manager, apeteceu-me dizer aos gritos. Duvido que alguma saiba sequer o que é um supply chain manager, quanto mais precisar dele.

As organizações mudaram.
O clima económico não é mais o mesmo.
Tudo é diferente.
O Mundo é diferente.

Diferente o cacete!

As organizações continuam a fazer o que sempre fizeram: compram coisas, transformam noutras coisas, que depois vendem.
Qualquer organização faz isso. Fazem isso há anos e vão continuar a fazer se quiserem continuar a ser organizações.

O que mudou foram as pessoas.

Deixaram de ser especialistas em compras e logística, e passaram a usar a terminologia inglesa.

Supply Chain Manager. Mas o que é que fazes mesmo ? Negoceio com fornecedores. Ah...
E tu ? Account Manager. Hã ? Vendo coisas a clientes. Ah...
E tu ? E tu ?

Até as profissões menos interessantes do mundo se vestiram de designações idiotas. "Técnico superior de" ... interruptores, limpeza, ...
A malta devia ter vergonha de ter vergonha de ser electricista, vendedor, porteiro. Facility Manager. Facility Manager my ass, dude!

E depois a canalha vai nisto e "manda-se", como o Rui, que cansado de ser empregado de mesa, ouviu as sereias da mudança e "mandou-se". Entrepreneur de restauração aka soon-to-be desempregado.

Contra isto eu digo:

Resiste à mudança que te querem impor.
Faz aquilo que sabes fazer bem. O que sempre fizeste. Repetidas vezes.
Sê o melhor bombeiro, carteiro, engenheiro, vendedor, empregado de mesa, que consigas ser.

Os outros, os que tentarão coisas novas, os poucos que terão êxito nessas empreitadas, e que por terem êxito nos serão apontados como exemplos da mudança que resulta, não lerão textos como este, porque não precisam de aconselhamento

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Do it yourself

por Fulano de Tal, em 27.09.12

Agora nos aeroportos existem umas maquinetas para carregar telemóveis e portáteis, em que o utilizador pedala para gerar a energia.

"You've got the energy" convida o cartaz. Mas que raio de tecnologia é esta? Pedalar para gerar energia ? Que outra brilhante actividade nos vão sugerir em seguida ? "Mate o seu próprio almoço"? "Aqueça o seu café metendo-o entre as coxas"?

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