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Statler e Waldorf

por Fulano de Tal, em 21.08.15

Só me lembram o Statler e o Waldorf, estes dois. O primeiro tem um cabelo totalmente penteado para trás, ligeiramente comprido e totalmente grisalho, besuntado com o que deve ser uma cera extraforte. Azedo e sabichão. O segundo tem uma farta cabeleira desgrenhada, totalmente branca, e uma barba também totalmente branca. É simpático e sorridente.

Em conjunto devem ter 140 anos, para cima.

Quando os encontro de manhã à porta do escritório, o primeiro responde às minhas saudações com um seco “Bom dia”, e o segundo com um caloroso “Ora viva, está bom? Bom dia!”. Penso que são uma espécie de guardiões de um dos espaços, que pertence a uma obscura associação empresarial que pelo nome e mercado em que se move, conta com 2 associados, talvez três. Digo “guardiões” porque estão sempre na porta da rua. O primeiro a fumar e a falar, e o segundo a fazer companhia, ouvindo.

O primeiro veste uns fatos claros e normalmente uns sapatos de verniz bicudos e com atacadores. Ficam-lhe mal e dão-lhe um ar sombrio que condiz com o seu discurso. O segundo veste umas calças garridas (podem ser vermelhas, como hoje), com sapato de vela e um polo. Hoje abdicou das meias.

O primeiro, independentemente do que a sua razão observa, conclui sempre o que seu preconceito pré-determinou. O segundo é mais conciliador, mas como não quer criar mau ambiente com este seu improvável companheiro, vai assentindo e argumentando até capitular perante a veemência de Statler.

Habitualmente o primeiro está a discursar sobre uma qualquer ocorrência, carregando-a de conotação política, ainda que despropositadamente. É sarcástico e duro, nunca se ri, e se passo por ele eleva a voz, cooptando-me como ouvinte. Faz questão que eu saiba o que ele pensa sobre as empresas que se dedicam a fabricar o salame que é vendido nas máquinas de vending do 1º piso. “Se aquilo faz mal à saúde, devia haver um governante que tivesse a coragem de proibir aquilo de ser vendido. É ou não é !?!?!” Olha-me de soslaio. A pergunta, embora retórica, é para mim.

É precisamente quando eu passo que ele se torna mais agressivo, sarcástico e assertivo.

O avô da Heidi vai ouvindo. “Mas se há quem goste de salame… olhe que cada um tenha a liberdade de optar”. Olha para mim, como que a pedir-me que entenda que embora estejam juntos eu não o devo julgar pelo comportamento do outro.

“Mas você acha que as gentes são capazes de optar pelo que é melhor para elas?!!?!!? É preciso é coragem e pulso forte, que é o que não existe neste país.” Ai este país… é tão maltratado por ele.

“Pois. Talvez não sejam… Ora viva! Está bom? Bom dia!”

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