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Sensual caminhar

por Fulano de Tal, em 16.01.15

Peço que não se precipitem em conclusões ao ler o primeiro parágrafo deste texto, que nada tem de louvor a mim próprio, mas hoje ao passar pela fachada espelhada de um banco, apercebi-me que desenvolvi ao longo dos anos um sensual caminhar. Isso mesmo. Não leste mal. Um sensual caminhar, foi mesmo o que eu disse, e tenho a intenção de explicar isto adiante.

O facto é que eu não caminho como antigamente, colocando pesadamente um pé diante do outro, e impulsionando o torso para diante em simultâneo. Isso era antes. Agora avanço num dançar ritmado. Deslizo, como na música, elegantemente em direção aos meus destinos, sejam eles quais forem.

E não faço isto há muito tempo. É coisa recente. Ao tentar perceber as razões desta feliz transformação, dei-me conta que esta dança não é uma ritmada mímica de uma melodia que me vai na cabeça. É antes a resposta do meu corpo às artrites que me inflamam as articulações. É como se eu destilasse elegância a partir de um qualquer processo ortopédico. É bom e mau, em simultâneo.

Se eu esticar o pé para diante, o meu fémur bate teimosa e estrondosamente na tíbia, sem qualquer amortecimento por parte do menisco ressequido e mal nutrido. As dores no joelho tornam-se horríveis. O impacto de um passo pesado nos meus tornozelos resulta em igual consequência, mas desta vez são o tálus e o perónio os queixosos. O calcâneo está inutilizado pelo uso. Da cintura para baixo, todos os meus ossos adjacentes deixaram há muito de se apoiar e articular, e agora confrontam-se e batalham-se. As cartilagens e tendões e ligamentos já não protegem, nem absorvem quaisquer impactos.

A boa notícia disto tudo é que o corpo é dotado de inteligência, e percebeu que se combinar o passo da perna direita, com um pequeno arquear ao nível da nádega esquerda, para além de conter as dores, obtém um gracioso passo. Gingar os ombros impelindo o braço oposto ao da nádega que arqueia, dá o embalo necessário a que se avance, e compõe o quadro de sensualidade de quem se desloca sobre uma fina camada de ar. E foi isto que eu vi na superfície espelhada daquele banco. A elegância é portanto um simples efeito colateral da osteoartrite aguda que me rói a cartilagem e me inflama o tecido sinovial. Menos mal.

Preparado para as décadas de artro-marotice que isto prenuncia.

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