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São Pedro de Moel

por Fulano de Tal, em 09.08.14

São Pedro de Moel é uma das praias de sempre na minha vida.

Aqui os dias não amanhecem soalheiros. Antes, uma espessa neblina toma conta do areal até perto da hora de almoço. De tal forma que mal se distinguem os banhistas que distem mais de três chapéus do nosso.

Aqui a areia não é fina e branca. Estendemos a toalha sobre uma camada de pequenas pedras e conchas mal erodidas. As conchas alapam-se à pele, marcando-a.

Ninguém aqui vem ouvir o murmurar da água. Para aqui vem quem quer ouvir o trovejar da rebentação.

A água não é tépida nem se espalha num lençol calmo onde as crianças possam banhar-se. O banho está destinado apenas aos mais afoitos, e assemelha-se mais a um enérgico exercício de resistência e força.

As bolas de Berlim não são passeadas pela praia por jovens brasileiros que as entregam diretamente na toalha. Aqui são velhas locais que montam pequenas barracas nas entradas para o areal. Têm bolas de Berlim, mas com mais facilidade despacham os saquinhos de pevides e tremoços. Os bolos mais populares não são moles como bolas mas rijos como biscoitinhos de amêndoa, ou uns bolos estaladiços de amendoim, fabricados pela empresa "Toinito, lda" de Amor, cá no distrito. E todos se levantam ordeiramente para os ir buscar.

As senhoras de “pareo” sabem que têm de ir para a extremidade sul da praia. Na norte, mais próximas das pevides e da aula de aeróbica que agora anima a praça, serão olhadas de soslaio. Mais populares aqui são umas calças azuis, com umas cornucópias brancas.

Os banheiros de São Pedro de Moel são menos bonitos e musculados que que os da Caparica. Mas ninguém mete pé na água sem obter deles pelo menos um olhar de aprovação. Pelo menos uma vez por dia enfrentam o mar para resgatar um banhista a quem o atrevimento superou a inteligência.

Aqui sempre existiram umas piscinas de água salgada, bombeada diretamente do mar. Eram as melhores piscinas do país. Foi lá que parti os dentes da frente, quando perdi noção das horas e vi o meu pai com uma carranca no promontório à minha espera. Corri pelas escadas acima e catrapumba. Faliram, dizem-me. Assim com a Hot Rio, a discoteca no andar de baixo, e o Snoobar, sala de jogos. Faliu tudo e agora é apenas uma ruína abandonada que se vê da praia, com uma patética prancha de saltos sem qualquer utilidade.

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