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Newton não tem sido gentil comigo. Tomo como exemplo uma das tardes do último fim-de-semana. Estava eu deitado na minha toalha, na praia, a ler um livro e processando em fundo alguns dos meus assuntos, quando ele se aproximou sorrateiramente, saído sei lá de que buraco ou duna, e antes que eu conseguisse murmurar qualquer expressão de surpresa me atingiu violentamente na testa com uma das suas maçãs.

Ao contrário das maçãs reais (como as Golden ou Reineta, conhecidas pela sua solidez), as maçãs de Newton, não deixam vestígio de hematoma, contusão ou equimose. Contudo, a violência de ser atingido por uma revelação não é negligenciável. Por vezes são 40 anos de crenças e preconceitos que se precipitam em fúria para fora do nosso corpo, como uma manada de mamutes em debandada.

Perguntar-me-ão: mas que revelação foi essa? Pois bem, eu bem vos vejo em busca de entender o Amor. Ou a fazer “ares” de quem percebe bastante do assunto. Como partilham uns textos lamechas do Pedro Chagas Freitas, em que o Amor é só isto e aquilo, e isto e aquilo são sempre umas tretas que metem “afago” e “carícia” e é profundo.

Pois eu digo-vos, que estava metido nos meus assuntos, como vos disse aliás, e eis que o Amor se me revela e não tem nada a ver com a parolice do Pedro Chagas Freitas, que o único que pretende é vender aqueles livros do gajo para fazer chorar adolescentes sensíveis. O Amor é estar deitado a ler um livro interessante na praia com 32 graus e ouvir o nosso filho a dizer “Quero fazer cócó”. Exatamente. Aposto que não esperavam esta. Mas é isso mesmo que o Amor é.

E nesse segundo tudo fica para depois. O capítulo do livro, por mais interessante que possa ser, fica inacabado e a página nem sequer se marca, e corre-se pela praia acima em direção ao bar de apoio, a dizer “Vamos rápido, vamos rápido”, porque sabemos que quando ele se dispõe a dizer aquilo é normalmente já muito tarde.

E ir ali atrás dele, a vê-lo correr com a mão no rabo, em bicos de pés e joelhos dobrados para diante e de repente ver cair uma bola na areia, também é Amor. Estão a ver? Ainda não meteu “carícia” nem “afago” mas já tomou conta dos nossos sentidos. Amor é não pensar que uma criança e um adulto a correr praia acima são alvo de muita atenção numa praia tranquila, e despachar-me a pegar na bola com o máximo de areia que se consiga e a mãos nuas, para a transportar para um caixote do lixo que se espera apareça rápido no horizonte, facto sobre o qual não se tem nenhuma garantia.

É disto que se trata, quando se trata de Amor verdadeiro. Agora vão lá ler os parágrafos parvos do Pedro Chagas Freitas e depois comparam-nos com estes e digam-se se sou eu ou ele, aquele que mais perto chegou de sentir um grande Amor.

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