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Observador

por Fulano de Tal, em 20.08.15

Hoje ia-me passando com o fulano ao nosso lado na praia. Não era alto nem baixo. Não era velho nem novo. Talvez uns 35 anos. Sempre a olhar para mim, e a rabiscar não sei o quê num papel, furiosamente. Olhava, rabiscava. Olhava, rabiscava. Se eu ostensivamente o encarava, ele desviava o olhar, nervoso. Todo ele tremia. Nunca tirou as sandálias e as meias, como que a pensar que poderia ter de abandonar a qualquer momento. Quando finalmente se foi embora deixou cair acidentalmente o papel em que rabiscava, e afastou-se amparado por um casal idoso que presumo serem os seus pais.

O que se segue é o que lá estava escrito (ainda estou todo arrepiado): “O meu nome é Monteiro. Raramente cometo erros como o de hoje. Eu cá não sento onde calha quando chego à praia. Por isso fico uns bons 5 minutos ali em cima, a olhar para as clareiras na areia, e tentando organizar os banhistas mais próximos pelas respetivas profissões. Na praia o profissional oculta o seu ofício. Transforma-se naquilo que ambiciona ser, e não revela aquilo que afinal é. E esse é o meu mister. Vejo a realidade despida de toda essa ocultação. Detesto ficar, por exemplo, ao lado dos trolhas. Não por lhes adivinhar humilde condição, mas porque em menos de nada estão a construir castelos para as crianças. Os castelos dos trolhas têm rebites manuelinos e outra ornamentação que nenhum outro profissional se propõe executar. Na ausência de uma boa betoneira, revela-se o artesão, o artista. Ou contabilistas. Os contabilistas são outros que evito. São fáceis de detetar, porque vivem em permanente excitação debaixo dos seus chapéus de cores muito garridas. Vertem caipirinhas e buscam aventura em cada decisão. São os primeiros a alugar gaivotas. Querem fazer todas as excursões, e suspiram para que o barco naufrague, que a banana vire, que o parapente se despenhe. Algo que traga agitação às suas miseráveis vidas. Escolhi hoje, como sempre faço, a clareira orlada pelos biscateiros com família, pelos polícias, pelos lavadores de janelas com cordas. Gente com vidas agitadas e que apenas quer descansar. E agora estou aqui e à minha frente quem vejo? Gostava de responder, mas este fulano intriga-me como o raio. Por um lado parece um rufia, igual aos outros que por aqui andam, e parece querer descansar, mas a cada 5 minutos é levado pela mão pela versão mínima dele próprio, e submerge mar adentro com o garoto ao colo. Depois volta. Vai e volta. Vai e volta. Já fez isto mais de 10 vezes e só estamos aqui há 2 horas. Parece querer descansar mas não descansa. Parece infeliz quando é forçado a ir, mas vem feliz no retorno. E depois hidrata-se, mas com o que parece ser um sumo de pera. Será um tendeiro, um barista? E o que é aquilo? Uma sande de pão com chouriço? Será um chef famoso? Procuro as ocultações mas este eu não decifro. Com quatrocentos mil diabos zarolhos, que fará este homem? Mãe, mãe, temos de ir, temos de ir…”

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