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O pior pai da minha rua

por Fulano de Tal, em 05.09.14

Anualmente ocorre o momento em que a minha convicção de que sou um bom pai é profundamente posta à prova: a reunião de pais, lançamento do ano letivo. Onde estou neste preciso momento a fingir que estou a anotar com muita atenção tudo o que é dito.

E digo que é posta à prova porque sinto sempre que sou o pai menos preocupado com o que está a ser dito. Sou claramente o campeão do aborrecimento naquela sala. Todos participam, falam, colocam as suas dúvidas. Os pais são bastante ordeiros, esperando sempre que o pai anterior termine a sua questão antes de colocarem a deles. Quando, acidentalmente dois pais pedem a palavra ao mesmo tempo, desfazem-se em encómios, disputando a possibilidade de cederem a sua vez ao outro pai, o que é bastante cómico.

Fico sempre muito atento neste momento. Quero perceber se querem ceder a sua vez, ou ter a última palavra.

Inevitavelmente não partilho qualquer das preocupações evidenciadas, e as dúvidas parecem-me sempre despropositadas. Mas não são, obviamente. Eu é que não consigo subjugar o meu cérebro a preocupar-se sobre se as aulas são no 2º piso como no ano passado, ou se passam para outro piso.

Neste momento há um senhor a falar de artes marciais e da importância disto enquanto complemento formativo. Parece pensar que sem uma adequada formação em shorigi kempo são poucas as chances de os miúdos irem além de uma atividade braçal. Antes dele falou um psicólogo da escola que disse que “provavelmente já conhecia todos os pais”. Olhei para o lado e confrontei-me com o assentimento generalizado na sala. Eu não o conhecia e senti-me bastante incomodado com isso. Pareceu-me até que ele olhou a certa altura para mim, reprovando mentalmente a minha ignorância.

São distribuídos uns papéis que verifico necessitarem de assinaturas e depoimentos juramentados em que declaro a veracidade do que afirmo sobre o meu educando. Sou o único sem caneta. Mais um embaraço quando me fornecem uma caneta roída, por ser a única disponível “para estes casos”. Passei a ser “um caso”. Os restantes pais vêm preparados para esta eventualidade e têm canetas de marcas internacionais, cujas tampas saltam com um pequeno ‘click’.

Há palavas que são repetidas com muita frequência. Quando elas saltam na conversa, eu levanto os olhos do surface, e faço um gesto de assentimento, como se concordasse com a frase proferida, embora apenas tenha sido sobressaltado pelo aparecimento de “pedagógico”, ou “eficaz”, ou “projeto”.

É relativamente complicado voltar a escrever este texto depois destes sobressaltos, pelo que fico por aqui.

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