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O gasolineiro tatuado de Santigo do Cacém

por Fulano de Tal, em 26.07.14

O gasolineiro tatuado de Santiago do Cacém tirou-me a pinta assim que saí do carro, de óculos escuros, e boné camuflado dos US Marines, comprado numa loja de pechisbeque de Georgetown.

"Diesel ?"

"Sim"

Por debaixo da farda da BP era possível divisar as tatuagens de cores garridas, no peito, nos braços. Imaginei que algumas delas, pelo ar tosco, feitas numa penitenciária qualquer.

"Vai para o Algarve?"

"Vou, mas ainda passo ali em Santo André, a buscar uma pessoa"

"Pá, só um conselho: não vá por Sines. É polícia por todo o lado."

Olhei-o por cima dos óculos, mas não mexi um músculo. A ideia de "polícia por todo o lado" por alguma razão não me parece tão aterradora a mim, como lhe parecia a ele. Imagino que ele também me tenha olhado de soslaio. O meu ar de marginal não era condizente com aquela passividade perante a ideia de uma rusga da BT.

"O problema não é estarem em todo o lado. É que andam com cães... por causa do festival de músicas do mundo".

Resolvi dar-lhe um momento de felicidade. Levantei o sobrolho

"Cães?" A minha cara transformou-se num silencioso "Oh diabo!".

"É. Se levar alguma coisa..." Riu-se.

"Pá, então se calhar volto para trás" Ri-me. Carro atestado. Estendo-lhe a mão, naquele jeito em que os polegares encaixam e no mesmo movimento aproximamos os ombros. Como manos. Por uns segundos, irmanados pela coca que eu não transporto no carro, fato que ele desconhece.

"Obrigadão!"

"Boas férias"

Dois niggas no meio de nenhures.

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