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Noticias antiquadas

por Fulano de Tal, em 02.11.15

A ver a notícia das cheias em Albufeira dou-me conta de como é antiquada esta forma de “dar” notícias. Tão previsível.

Grandes planos da tragédia filmada de um local alto. Essencial capturar rápidos de lama e água da chuva. Transeuntes observam preferencialmente envoltos em capas de plástico de cores garridas, sendo o amarelo e o laranja os favoritos televisivos.

Entra o popular que vive aqui há um porradão de tempo e nunca viu nada assim. Garante que há 15 ou 20 anos houve q...ualquer coisa, mas nada que se assemelhasse.

Entra o político local a expressar consternação, dar conta do caráter extraordinário e imprevisível do fenómeno, o que o iliba de responsabilidade, e a clamar por calamidade pública para sacar o subsídio.

Entra o especialista que debita com autoridade generalidades. Preferencialmente um professor universitário. Garante que o fenómeno se deve à precipitação de x milímetros cúbicos em poucos minutos. Fala nos inevitáveis coletores e de como são estreitos. Fala da necessidade de permeabilizar as cidades já de si tão impermeáveis. Espaços verdes.

Entra o político nacional. Também consternado e a prometer solidariedade e uma análise rápida à situação e se necessário for, mobilizar meios.

Termina com imagens de populares a limpar lama das casas.

* * *

Eu dispensava tudo isto porque tudo isto eu já sabia. Que as cheias são assim, com água. Que a memória dos populares é curta. Que a vontade dos políticos é aparecer como se estivessem ao lado das vítimas não à sua frente, explicando-se. Que se os coletores fossem largos a água escoava. Que se existissem mais espaços verdes a água drenava por ali.

Eu cá dava as notícias de forma diferente. Informava-se à mesma, mas dispensava-se o especialista em generalidades, o politico local e o nacional, e o popular que nunca viu nada assim. Havia espaço para o inglês que apesar da tragédia se cobriu de creme protetor solar e foi para a esplanada arruinada esperando serviço. Havia planos subaquáticos de objetos pessoais submersos. E havia espaço para viagens às cavalitas do bombeiro nas motas de água.

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