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Não brinco mais

por Fulano de Tal, em 03.03.15

Tenho de confessar que, ao contrário do que ouço a outros pais, eu detesto brincar com o meu filho.

Nestas brincadeiras saio invariavelmente a perder nos brinquedos. O meu boneco não voa, mesmo que tenha asas. Os bonecos dele voam, levitam e têm o poder de se tornarem invisíveis. O meu carro não é anfíbio. O dele presta-se igualmente em estrada, na água ou pelos ares. Se tento circular na pista da direita para esquerda, logo ele se apressa a mudar o curso. Se por acaso trocamos os brinquedos todos os poderes são transferidos, como que por magia, para os que ele herda e que minutos antes eram uns inúteis. Se jogamos às cartas, as cartas melhores variam consoante estejam na posse dele. Mesmo que eu esteja carregado de ases, e ele tenha dois duques e três ternos, segundo as regras que ele próprio estabelece, os duques e ternos são subitamente as cartas mais valiosas do baralho. Se tento explicar-lhe, transforma-se no puto que ninguém escolhe para jogar à bola, mas como é o dono da bola, desaparece com ela e assim ninguém joga.

Por isso quando ele se aproxima com a sua vozinha doce e olhos grandes e lacrimejantes “Papá, queres brincar comigo?... vá lá…” eu já tenho engatilhado um furibundo “Não!!”.

Acho que ele herdou de mim esta competitividade.

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