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Individuos na posse de informação privilegiada

por Fulano de Tal, em 19.08.15

Deve ser a minha expressão corporal, ou uma feromona qualquer que exalo, mas julgo poder dar por confirmado que atraio homens de meia-idade que se encontram na posse de informação privilegiada.

É verdade. Não atraio por exemplo, indivíduos que não possuam outra informação para além daquela que é pública. Apenas homens na posse de informação sensível, à qual apenas eles tiveram acesso.

Por alguma razão que desconheço, uma vez na posse dessa informação, esses homens sentem uma urgência em partilhá-la comigo. Não se trata contudo de uma pedagógica partilha. Estes homens pretendem dominar-me com a informação. São como umas Dominatrix barrigudas, de meia-idade e barba de 3 dias. E sem as calças de couro negro.

Um exemplo. Chego à praia, armo o chapéu, largo a cadeira e detenho-me uns segundos a avaliar o estado do mar. “Estacionou ali?”, uma voz ao meu lado. Viro-me, e vejo um fulano de calções e óculos escuros espelhados, ainda a apontar para o local onde deixei o carro. “Sim…” “Esta praia tem 4 passadiços. Este é o último deste lado. O primeiro do lado de lá, está a ver? Ao pé da bandeira ao fundo… Aí é onde a praia é melhor. Não tem tanta gente” “E porquê?” “Porque aqui o parque é gratuito e ali é pago”. Ficamos os dois em silêncio, a matutar na informação. Ele arranca para o lado da praia onde se está melhor, e eu fico ali, no lado dos pelintras que não pagam estacionamento.

Outro exemplo. Vou ao supermercado. Enquanto a prole faz o circuito frutas, padaria, peixaria, carnes, cereais, eu dirijo-me aos vinhos. Fico ali indeciso a ler os rótulos. “Olhe que esse é verde”, ao meu lado um individuo de calções e óculos escuros espelhados no topo da cabeça. “É”. “Se vai escolher um verde, leve aquele”, apontando para uma garrafa lá atrás. “É melhor?” “Eles colocam todos estes à frente porque têm um contrato melhor com o produtor, e querem que a gente os leve, mas se afastarmos a primeira fila de garrafas, encontramos os melhores vinhos.” Fico a ler o rótulo da garrafa que me indicou, enquanto ele se afasta. Consigo vê-lo no canto do olho, a falar com a mulher e apontar para mim. Parece-me que riem ambos, mas não sei de quê.

Ainda um terceiro exemplo. Passeio pela vila, depois do jantar. Acerco-me de uma pastelaria que me parece ter bom aspeto.

“Um café e um…”, ia a apontar para o jesuíta na montra, quando uma mão me impede o movimento. Ao meu lado um homem de calções e óculos de ver ao longe, agarra-me firme o dedo. “Se quer um jesuíta, vá ao Carmelo, é três portas mais à frente e tem os melhores jesuítas do Algarve”.

“Por acaso ia…”, tento soltar o dedo daquele grip firme, o que consigo a custo.

“Estes não são frescos?”

“Frescos são. Disso não há dúvida. Mas no Carmelo parecem derreter-se na boca. Antigamente eu comia jesuítas onde calhava. Agora sou capaz de me guardar 3 semanas se sei que vou passar por aqui, só para ir lá. Aqui só bebo café e bebidas engarrafadas… por causa da esplanada”.

E isto só para ilustrar. Vou encontrando populares que sabem onde se come o melhor peixe, qual a melhor água engarrafada, qual o melhor percurso para se chegar a um determinado local, onde se podem comprar jornais que não sujam as mãos, como se pode capturar um safio. Por vezes são pequeninas diferenças que tornam uma alternativa favorável sobre outra, como a existência de menos um semáforo, ou as três pedrinhas de sal que o chef bota no robalo.

Mas estes populares possuem informações de tal forma minuciosas que se fosse possível colecionar e injetar todo este conhecimento num único popular, teríamos uma versão extremamente irritante de algo que seria o cruzamento perfeito entre o Barbas e o Cláudio Ramos.

 

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