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Gang das Bolas de Berlim

por Fulano de Tal, em 19.07.12

Consigo pressentir um clima de tensão latente entre os vendedores de bolas de Berlim. Reúnem-se a cada 30 minutos, em cimeiras de líderes, perto do toldo 15.

João "Três Dedos" Oliveira é o líder da família "Pastelaria Felismina". Ganhou a sua alcunha há vários anos, ainda jovem, quando a sua falta de destreza a manusear utensílios de pastelaria o fez cortar o mindinho e o anelar enquanto procurava trinchar um tronco de Natal. Hoje, o seu olhar duro, encoberto pelos Ray Ban, fixa-se em Carlos "Mad Dog" Pereira. Penso que terá a ver com o facto de este ter quebrado uma das regras sagradas da Bolinha Nuostra: transaccionou um pastel de amêndoa sem ter tentado sequer pressionar o banhista a enveredar pela mais rentável Bola de Berlim, sem creme.

Com a subida do preço da amêndoa nos mercados internacionais, é na Bola de Berlim que a família "Pastelaria Felismina" conta incrementar os seus fabulosos réditos de verão. Dois anos antes João "Três Dedos" Oliveira, tinha intimidado um fiscal da ASAE ao ponto de este ter veículado instruções no sentido da proibição do creme, naquilo que ficou conhecido como a "lei seca", e que permitiu às várias famílias de Manta Rota e Tavira esquivarem-se ao custo excessivo na sua confecção.

Toda a margem obtida nas Bolinhas era consumida pelos ovos, farinha e açucar mascavado, necessários à confecção do creme. Temo que Carlos "Mad Dog" Pereira, um ex-pasteleiro de Vila Real de Santo António a quem a sorte não sorriu, não termine a jornada de hoje sem que lhe seja colocado um "contrato", nome pelo qual é conhecida a proibição de venda de alimentos de pastelaria a Oeste de Albufeira. Um quarto da provisão de Bolinhas de Berlim pode perfeitamente estar a ser cancelada numa daquelas cimeiras de 30 em 30 minutos, lançando o caos sobre a praia apinhada de milhares de banhistas famintos e gulosos.

Eu, da minha toalha, e, vejo agora... um gordo a 20 metros de mim, parecemos ser os únicos a dar conta do que se passa. Faço sinal ao gordo, para que nada faça sem termos a certeza de que o cenário é mesmo aquele que tanto eu como ele interpretamos. Ao ver o meu sinal, João "Três Dedos" Oliveira aproxima-se de mim. O seu olhar cruel prescruta-me de alto a baixo, medindo-me, como que a antecipar cenários no caso de eu tentar alguma coisa estúpida. Quando está a cerca de 2 metros de mim, pára. É a minha vez de falar. Nervoso, digo: "São 3 bolinhas, por favor".

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