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Fuhrer da Manta Rota

por Fulano de Tal, em 20.07.12

Na minha praia há um Fuhrer. Controlo-o a partir da minha toalha, como se fosse um agente do MI6. Faz-me lembrar o nazi das sopas do Seinfeld, mas sei que só eu é que recordo o nazi das sopas, pelo que a referência é inútil.

Este controla uma língua de areia que se estende desde o estrado de acesso à praia (chamemos-lhe Polónia) até cerca de 100 metros dentro de água (chamemos-lhe França). Entrincheirou-se naquele enclave que circundou, em toda a extensão da fronteira da Polónia até à França, com placards que dizem "Mein barcos", "Nein nadar", e "Mieten gaivotas".

Fio de pesca, com bóias, indica aos incautos que, caso resolvam passar a linha (inevitável para quem vem da Noruega e se desloca para Itália), poderão ser alvo de um blitzkrieg. Para o Simão, com a sua chucha e menos de 60 cm de altura, aquilo é verdadeiro arame farpado. O Simão aproximou-se a analisar o arame-farpado, e eu controlei o Fuhrer.

Vi-o alinhar os seus hauptmann e oberleutnant, enquanto tentavam perceber o próximo passo do pequeno anão. O arame-farpado ergue-se a uma altura de cerca de 10 cm do chão. Para o Simão isso significa um desafio enorme. Chama por mim, como se eu fosse a RAF, e pede para ser aero-transportado, o que deixa a Schutzstaffel do Fuhrer nervosa. Eu finjo que não conheço aquele anão da resistência, embora ele insista "Papá, papá, ajuda" (no original: "papá, papá, axuda..."). Disfarço-me de homem comum. Faço aquela cara inexpressiva, com o objectivo de não levantar qualquer tipo de suspeição ao Fuhrer, e aproximo-me do Simão. Tomo precauções adicionais ao chegar à fronteira de França. Abordo-a pelo Pas de Calais, e apenas me aproximo do Simão quando pressinto alguma agitação no território ocupado. A manobra de diversão, todavia não planeada, é perfeita: uma gaivota, que havia sido fretada por dois suspeitos espanhóis, com ares de xoninhas, acaba de chegar a terra pela Normandia, o que distrai os homens do Fuhrer, nomeadamente os oficiais da Kriegsmarine. Agarro o Simão pelos sovacos e salto para o abrigo anti-aéreo (chapéu de sol). O Simão grita "coito", pensando tratar-se de um inofensivo jogo da apanhada.

Não sei o que fazer para calar o pequenote, pelo que opto por lhe besuntar a chucha com chocolate líquido, extraído através de um processo químico complexo, que envolve expor um pacote de bolachas de chocolate ao sol intenso, o que tem sobre ele um efeito moralmente comparável ao da morfina quando consumida em doses elevadas por gente que nunca se medica. Em menos de nada dorme tranquilamente na sombra do abrigo, aparentemente insensível à kugelhagel.

Procuro de novo o Fuhrer com os olhos e apercebo-me que abeirou da Suiça, manuseando a sua Mauser (espécie de porta-chaves). A sua divisão Panzer é composta por duas Zundapp KS 750 (motas de água) e encontra-se perfeitamente alinhada à sua frente, enquanto me fita. Oiço-o gritar em verdadeira apoplexia "Heute entkam Zwerg Parasit, aber morgen ist ein neuer Tag, und Sie müssen erneut versuchen, die Maginot-Linie passieren. Dann wirst du mein sein!" (nota de tradução: "Hoje escapaste anão parasita, mas amanhã é um novo dia e terás de tentar passar a linha Maginot novamente. Então, serás meu!")

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