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Fingimento

por Fulano de Tal, em 17.03.15

Acontece-me por vezes saber por intermédio de alguém, que uma outra pessoa qualquer nutre por mim a maior das animosidades. Não é frequente, mas acontece. Fico obviamente muito preocupado com isso. Não tanto pela “perda” daquela pessoa em particular, nada disso. “Ela que se lixe”, diz-me provocadora a minha consciência, “existem muitas pessoas e a maior parte delas são agradáveis.” O que me preocupa é eu ter uma tarefa simples para executar e falhar de forma tão ostensiva.

Bastava um sorrisinho amarelo, duas palmadinhas amistosas no lombo, e talvez exagerar uma manifestação qualquer de alegria quando nos encontramos. Pois nem isso soube fazer. Um tremendo amador, é como me sinto depois de me virem declarar estas hostilidades.

Por isso me pus hoje a praticar pela manhã em frente ao espelho e tenho de admitir que tenho um sorrisinho amarelo facilmente desmascarável. Sou péssimo e tenho de melhorar, sob pena de não agradar a idiotas. No meu sorriso amarelo não chego a mostrar a cremalheira e a linha dos lábios, normalmente em simetria perfeita, revolve-se num esgar. Um dos cantos contrai-se, distorcendo-me a expressão. Sorrindo-me ao espelho eu próprio detestei aquele reflexo, e proponho-me falar mal dele à primeira pessoa que encontrar. Que paspalho.

Tenho mais facilidade nas palmadas no lombo. Talvez me recordem a bolachada na tromba que preferia de longe estar a exercitar. Por isso faço-as firmes e secas, embora em casos mais extremos a minha necessidade de agradar me faça ficar até mais tarde, massajando levemente a superfície costal, logo acima das omoplatas. Não será por aqui que me apanham.

Já no urro de alegria fingida volto a ser miserável. Também a pratiquei no recato da casa de banho de hotel. A minha cara, por detrás das escovas de dentes e frascos de desodorizante e águas-de-colónia, transfigura-se no urro, e o som que sai da minha garganta é algo que penso reconhecer por ter ouvido certa vez a um bezerro.

Ficam por isso avisados que da próxima vez que me virem a massajar a seção superior da espinal medula, junto aos trapézios de um qualquer interlocutor: estarei a evitar o sorriso amarelo e o urro de alegria fingida, no qual apresento falhas irreparáveis, e a concentrar-me em aspetos mais físicos, que domino bastante melhor.

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