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Contabilistas

por Fulano de Tal, em 18.09.15

O F. é o meu contabilista há quase 5 anos. Isto é muito estranho para mim, porque olho para o F. e ele parece-me um miúdo. Um miúdo hoje, o que me faz pensar em que raio de noite de copos é que ele se tornou o meu contabilista há 5 anos. Mas na realidade ele não é bem um contabilista. Existe um outro, que é o R., que assina os papéis todos. Esse é que é o verdadeiro contabilista. TOC. Ou ROC, ou lá o que é.

Mas é com o F. que eu falo, é ele que me aconselha em temas soturnos como acréscimos e diferimentos. Pode não ter o certificado que lhe permita assinar os meus papéis, mas ele é de facto o meu contabilista, mesmo que não o seja de jure.

Todos os meses envio-lhe uma pasta com faturas e interrogo-me sobre o que é que ele faz com aquela pilha mensal de papéis. De 5 em 5 meses, faz-me lembrar a sua existência, questionando uma determinada fatura ou movimento no extrato. "Este pagamento de 23,12 Euros feitos em 2011 às 3:43 da tarde reporta-se a quê Sr. Fulano de Tal?". Não faço ideia. Já tentei brincar com ele dizendo-lhe que não me lembro do que almocei ontem, quanto mais um pagamento de 23,12 Euros feito há 3 anos. Mas o F. não é para brincadeiras quando toca ao deve e ao haver. Despacho-o normalmente com um "Deve ser telecomunicações F.".

Desde o início do ano que todos os meses lhe deixo, no meio da pilha de papéis, elementos descabidos em contabilidade só para o fazer arquear as sobrancelhas debaixo dos óculos grossos. Em Janeiro deixei-lhe entre a fatura do MEO e um comprovativo de leasing, um guardanapo de papel do Califa, com uns lábios cravados em baton e um número de telefone ficticio. Fiquei à espera que me ligasse. Confesso que estava nervoso, pois não podia adivinhar a sua reacção.
Não me disse nada e eu nada lhe disse.

Em Fevereiro, coloquei uma fatura manual com o descritivo "Lingerie sexy" e adiante o valor sem IVA: 121.14 a que corresponde um PVP do preço psicológico de 149 Eur. Queria saber como é que ele classificaria tal despesa. Na minha cabeça já tinha antecipado o ar grave e confidente com que lhe diria "Terá de ser confidencial, F. Lamento dar-lhe estas maçadas".
Terei porventura pago tributação autónoma sobre este valor, mas valeu a pena pelas risadas que saquei só de o imaginar às voltas da fatura. Nunca me disse nada. Ligou-me uns dias depois, nesse mesmo mês, para me dizer que eu tinha esquecido de escrever o meu destino num recibo de portagem. "É necessário, Sr. Fulano de Tal, senão eu depois ... já sabe, não é?"

E assim tenho feito todos os meses. Março, Abril e por aí fora. Terei falhado em Agosto porque ele meteu umas férias e não quis armar-me aos cucos com a Srª M., que o substituiu nesses dias. Uns bilhetinhos, umas faturas, uns recibos.

 

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