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Carregar as fezes de alguém é uma prova de amor

por Fulano de Tal, em 06.01.15

Enche o meu coração de Amor. Não, isto não é uma daquelas mensagens motivacionais. É a descrição de um momento em concreto que enche o meu coração de Amor. Amor verdadeiro, emocionado. Falo obviamente daquele momento em que os donos de adoráveis cachorros calçam a luva de plástico (ou em sua substituição, colocam um pequeno saco opaco virado do avesso na mão), e coletam o excremento longitudinal do seu animal de companhia, carregando-o carinhosamente consigo, para um destino qualquer de que não suspeito.

Até me ter dedicado, durante boa parte da manhã de ontem a observar estes estranhos duos unidos na escatologia, pensava que aquele era um ato de civismo. Que o que estava em causa era a proteção do transeunte seguinte. Que ingénuo fui. É muito mais do que isso. Muito. Muito mais.

Primeiro a caminhada, com o objetivo de relaxar o esfíncter do canídeo. Depois o momento definitivo. O desalento, se o animal se encontra desarranjado, ou o alívio, ao ver um fulgurante troço sólido. Mas no essencial, a preparação para o que der e vier.

Julgo que não haverá maior prova de afeição do que carregar as fezes de alguém. Carregar é uma demonstração superior inclusivamente à que se experiencia durante a limpeza do ânus que acaba de obrar. Sei do que falo, porque tenho um filho de 4 anos.

Claro que, mesmo neste patamar de excelência da afetividade, existe quem se destaca. E obviamente criei uma escala. Uma escala de provas supremas de ligação, de apego e de ternura.

Quem usa as mãos nuas para fazer a coleta, por exemplo, salta para o topo desta escala. Ou, num estádio imediatamente seguinte, quem usa sacos transparentes, ao invés dos opacos. Mas estas gradações apenas são percetíveis com um olhar treinado como o meu. Também graduei os proprietários pelo porte do cão. É de elementar justiça que se coloque um saco de plástico opaco, aplicado a exuberante excremento de pastor alemão alimentado de carnes vermelhas, ao mesmo nível de um saco transparente para as pequenas e reluzentes bolinhas de um caniche que sobrevive numa dieta de rações de cereais.

São muitas as variáveis que estabelecem estas equivalências. Aconselho-vos a não perder muito tempo a entender a complexa mecânica desta minha escala.

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