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Discromatopsia

por Fulano de Tal, em 29.07.12

Hoje acordei com uma enorme discromatopsia.

Há pessoas que acordam com enxaquecas. Algumas dizem que é sempre a mesma, todos os dias. Eu, quando acordo, nunca sei de que maleita padeço. Por isso criei este ritual de me diagnosticar logo de manhã bem cedo. Trago comigo toda uma panóplia de instrumentos de medição, meios de diagnóstico de que os individuos comuns nem sequer ouviram falar.

Os eventos da noite passada, associados ao facto de hoje o céu me parecer negro como breu, apesar de serem já 11 horas da manhã, sugere-me a utilização de um anomaloscópio de Nagel, que opero com dois enormes braços mecânicos. Confiro a primeira impressão com uma segunda opinião. O livro de colorir do Simão é afinal de contas uma sequência de padrões conhecidos como teste de Ishihara, e confirmo a minha suspeita: não distingo os elementos alfanuméricos embebidos nas imagens.

Felizmente trouxe comigo um par de óculos com lentes Chromagen. Não são uns Ray Ban, mas permitem-me conduzir, e evitar embaraços maiores. O maior desafio da minha condição clínica não são as enfermidades temporárias. O problema é outro, maior, e do qual me apercebi bastante mais tarde.

Aparentemente as moléstias fisiológicas apenas se manifestam em concordância com outras, mais penosas, ao nível do sistema límbico. Isto no início parecia-me complicado, mas é na realidade extremamente fácil de compreender: se pela manhã não distingo cores, sei que durante o dia o meu livre arbítrio estará comprometido.

Não reconheço os sinais involuntários, que me permitem por exemplo, discernir entre o certo e o errado. Todas as minhas decisões num dia de discromatopsia, especialmente nos casos mais agudos de tricromacias anómalas, são altamente irresponsáveis. Deveria abster-me de tomar decisões gravosas nestes dias.

As cores actuam aqui como decalques, representações sintomáticas das emoções. Consigo olhar para um sorriso e ver um esgar preconceituoso, e num grito de dor apenas vislumbro uma gargalhada sonora. Este não é o primeiro distúrbio da percepção ocular de que padeço. Certo dia acordei incapaz de discernir o que me estava próximo, mas incrivelmente sagaz na percepção do que estava distante. Graças a alguns conhecimentos de optometria e ao meu foróptero portátil identifiquei rapidamente a hipermetropia.

Estes são dias fantásticos para estrategizar e péssimos para me aventurar na resolução de problemas.

Curiosamente não é na oftalmologia que encontro a maior parte das doenças que me apoquentam. A otorrinolaringologia também me fornece amiúde com umas presbiacusias. Na impossibilidade de efectuar eu próprio uma otoscopia, uso uma câmara acústica construída no quintal, com pequenas farpas de esferovite que recolhi ao longo de anos em caixas de electrodomésticos, e executo eu próprio uma audiometria tonal limiar. A presbiacusia, ao contrário do que o senso comum pode induzir, é bastante útil a quem, como eu consome grande parte dos seus dias em reuniões extremamente aborrecidas. Mas por outro lado, também pode ser extremamente prejudicial no âmbito das relações. Muitas vezes descrita pelo sexo oposto como "eu falo, mas tu não estás a ouvir", expressão que revela grande desconhecimento dos principios basilares da otorrinolaringologia.

Ao longo dos anos fui-me acostumando a estes achaques diários. Hoje apenas tenho dificuldades na endocrinologia, nomeadamente quando no menu me sai uma adrenoleucodistrofia, o que só sei com certeza depois de fazer um pequeno estudo de cromossomas para determinar se houve de facto uma mutação no gene ABCD1, ou se tudo não passou de uma grande rábula do malandro. O problema da endocrinologia, é que vem frequentemente acompanhada, na minha idade, por extrema incontinência urinária.

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Observação de veraneantes

por Fulano de Tal, em 26.07.12

Gosto de observar pessoas e o verão possibilita-me entregar-me a esse afazer de forma única. Por trás dos meus óculos escuros sinto-me Harry Callahan, e trago debaixo de olho todos os banhistas daqui até Ayamonte.

Sou extremamente meticuloso nas minhas operações de vigilância. Disponho o meu livro sobre os joelhos, baixo a cabeça mas não os olhos, mantendo a córnea estrategicamente sobranceira ao corte do livro, no sítio onde imagino a guilhotina da gráfica a executar o seu trabalho de precisão. Os milhões de células fotossensíveis da minha retina permitem abarcar, pela manhã, toda a gente que se encontra a Leste da minha posição, e de tarde as que preferem a zona a Oeste, depois da zona de toldos.

Neste verão comecei a tomar notas, e coloquei a Catarina a assessorar-me. Aos 9 anos ela já compreende a importância de registar, catalogar, analisar. É ela que organiza o dossier que criámos para cada banhista. Por ser uma criança, consigo por vezes dissimular-lhe pequenos microfones na bandelete, e fazê-la passar 2 ou 3 quartos de hora ao pé de um ou outro sujeito que me pareça especialmente suspeito. Desta forma conseguimos reunir bastante informação sobre as suas origens, pequenos segredos que revelam enquanto falam distraidamente ao telefone.

Sabemos na maior parte das vezes o nome, os hábitos, onde pernoitam, como se reproduzem. A nossa organização já é um pequeno empreendimento familiar. Adoptamos uma postura old school, sem grandes requintes tecnológicos que seriam indisfarçáveis numa praia. Sinto por exemplo falta de um acesso ao CODIS, e porque não o tenho, coloquei de lado a tarefa de recolher amostras de DNA. Todas as beatas salivadas, pequenos lenços de papel quando temos a sorte de controlar individuos resfriados, nada disso tem para nós qualquer utilidade. Mas guardamos as impressões digitais. Na falta de melhor equipamento, usamos o papel celofane com que embrulhamos as sandes, para transpor os datilogramas deixados para trás em pequenas latas de refrigerante ou conchas de moluscos (apenas aquelas em que o nácar e o calcite originaram uma superfície lisa, como é evidente) para a película, e posteriormente, em casa, recortamos com a pequena tesoura de aparar as unhas, que faz parte do kit de higiene pessoal do Simão. A Catarina limpa cuidadosamente os resíduos de salpicão e queijo do celofane e cada uma destas peças vai para o ficheiro do seu respectivo banhista. Um indicador direito para o ficheiro do pequeno careca de bigode, da Guarda, que se senta debaixo do chapéu verde e vermelho, um anelar perfeitamente decalcado para o ficheiro do francês com 3 filhos que vem diariamente de Quarteira. E por aí fora.

O procedimento que adoptámos para classificar toda a informação recolhida durante o dia requer longas horas de dedicação. É frequente terminarmos perto das 3 da manhã, exaustos, mas felizes por não termos contaminado quaisquer provas recolhidas, e olhando para o dia de trabalho, satisfeitos por não termos comprometido a nossa posição. Estou absolutamente seguro que ninguém sabe o que fazemos. Mas também somos muito cuidadosos. Levantamo-nos muito cedo, porque chegar à praia nos toma cerca de 2 horas, apesar de estarmos alojados a uns meros 50 metros do areal. Pegamos no velho Peugeot e dirigimo-nos no sentido de Tavira. Em Conceição, volto para trás na rotunda do golfista, e tomo a N125 no sentido de Vila Real. Pelo retrovisor tento perceber quaisquer movimentos suspeitos em carros que nos possam estar a seguir. Viramos em Montegordo e estaciono o carro numa rua estreita, sempre com o cuidado de manter a viatura orientada para uma fuga rápida, se necessária. Empurro a Catarina para uma loja de bugigangas que sei ter uma saída pelas traseiras. Daí andamos cerca 2 quilómetros, nunca repetindo percursos, e procurando uma trajectória errática que despiste eventuais informadores ou outros elementos que nos possam ter a nós sob vigilância. Quando me sinto suficiente seguro, volto ao automóvel e regresso rapidamente, mas sem nunca exceder o limite de velocidade ou passar sinais vermelhos.

A última coisa que queremos, eu e a Catarina, é levantar sobre nós investigações policiais. Quando finalmente chegamos à praia, todos os estacionamentos disponíveis se encontram já tomados. Esta contrariedade é largamente superada pela certeza que existirão bastantes sujeitos para processar, e que teremos um dia de trabalho em cheio.

Debatemo-nos como já referi, com escassez de equipamento. Todos os custos são suportados por nós, pelo que as sofisticadas canetas com nano-câmeras de vídeo incorporadas, são no nosso caso, inacessíveis. No entanto mantemos bastante registo vídeo, capturado em velhos nokias sem cartão SIM, que usamos como se fossem autênticos smartphones, explorando ao máximo as suas câmeras de 2 Megapíxels. Sob pretexto de filmar a última gracinha do Simão, vamos capturando todos os movimentos que nos pareçam descontextualizados.

Na nossa casa de férias acumulam-se dossiers, anotações em pequenas folhas de papel reciclado, e esquemas traçados na parede da sala com todas as relações que conseguimos extrapolar das informações recolhidas. Diagramas imensamente úteis na hora de estudar um sujeito em particular: casado com fulana, proveniente de tal localização, trabalha na empresa x, estabeleceu contactos esporádicos com o banhista y ou z, na dissimulação de pequenos passeios na preia-mear. Ao fim de duas semanas começamos a precisar de uma sala maior, e os rabiscos na parede começam a ser um pouco confusos, sobrepondo-se numa teia de riscos de cores diferentes que representam conceitos como o de proximidade, intensidade da relação, tempo consumido, e outros. Por vezes penso que a Catarina gostaria de ter um pai mais normal, que jogasse raquetes, a levasse ao banho.

Mas sei que um dia me agradecerá por lhe ter dado utensílios com que pode, um dia, combater grandes ameaças à segurança nacional.

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Férias cyberpunk

por Fulano de Tal, em 23.07.12

Manta Rota. 28 de Maio de 2094.

 

Tenho que ser breve, pelo que vou resumir a história ao essencial. Em 2004, um laboratório da Repsol, conhecido apenas por Antonio Brufau e um conjunto muito pequeno de executivos da companhia, dedicou-se secretamente à liquefação de gases como Nitrogéneo, Hélio ou Oxigénio, arrefecidos a temperaturas apenas mensuráveis pela escala de Rankine, e que se supunha serem alternativas viáveis à escassez de combustíveis fósseis prevista para 2024.

A partir desse ano e nos seguintes, a Repsol ganhou a concessão de todas as áreas de serviço da Via do Infante, em Portugal, pagando preços verdadeiramente absurdos em face de qualquer potencial retorno. O plano consistia em fazer destes postos de abastecimento a base experimental para este novo tipo de combustível, assim estivesse ele disponível.

O Projecto Helygen, ou Élirren, como era pronunciado nas cúpulas castelhanas da Repsol, reunidas no número 278 no Paseo de la Castellana, em Madrid, produziu um memorando altamente secreto e que circulou apenas no 18º piso: as conclusões apontavam para a destilação de ar atmosférico como a alternativa mais vantajosa quer do ponto de vista económico quer do ponto de vista energético. Este processo liquefaria o oxigénio.

"Combustible desde el aire que respiramos! De puta madre!", regozijou-se Antonio Brufau.

O líquido seria posteriormente armazenado em Mega-Dewars (ou Megadévars, no castelhano), assim chamadas por serem versões gigantescas dos frascos de Dewar usados na altura para abastecimento de oxigénio líquido a hospitais.

Em 2012, finais de Julho, algo correu terrivelmente mal, justamente após o processo de destilação do ar atmosférico no posto de abastecimento de Olhão, o último antes da fronteira com Espanha. Seis Mega-Dewars foram violentamente derrubados por um automobilista embriagado de nacionalidade inglesa, que adormeceu ao volante do seu Suzuki Maruti, de aluguer, e que provocou longas fissuras nos compartimentos, libertando o líquido do seu interior. Em 28 minutos o líquido escorreu pela encosta até às praias de Manta Rota e Lota, eliminando todas as formas de vida, incluindo a de 2.830 banhistas que ali se encontravam a veranear.

Ou pelo menos assim se supôs nesse momento.

A última recordação que tenho é a de estar sentado à beira-mar observando o mar cálido de finais de Junho. Lembro-me de ter olhado para trás, surpreendido pela selecção musical do DJ da barraca dos gelados: Autobhan, dos Kraftwerk. Depois, um imenso frio e o vazio.

Na realidade as formas de vida foram criogenizadas pelos gases líquidos de baíxissimas temperaturas, não existindo naquela data tecnologia capaz de os devolver à vida. Em Fevereiro de 2090 rebenta aquela que ficou conhecida como a "Guerra dos 2 dias", por ter sido esse o tempo necessário à massiva destruição que teve lugar.

Áreas gigantescas do Globo Terrestre ficam inabitáveis, são abolidas todas as fronteiras, e perdem-se todas as fontes de conhecimento, inclusive sobre geografia. Milhões morreram. Hordas de assaltantes, malfeitores e assassinos impiedosos percorrem a terra, sem outros valores que não sejam os impostos por força, perante a ausência de qualquer normativa legal ou de uma força da ordem capaz de a impor. Em Janeiro de 2094, um obscuro ginecologista de Altura, exibe perante a comunidade científica, composta por ele próprio, duas técnicas de higiene oral, e um pequeno eremita de longas barbas brancas a quem chamavam de Bernardo, provas contundentes de que havia descoberto tecnologia que deitava por terra o conceito de "Morte Teórica de Informação", e sugere ser capaz de não apenas soprar vida em corpos criogenizados sem lhes afectar desastrosamente as células, como preservar, e restaurar, toda a informação e estruturas cognitivas destes sujeitos.

Artigos foram publicados ao longo desse ano, com evidências do achado nos poucos periódicos que eram distribuídos pelas populações, como o "Voz de Altura" e o "Sotavento ou Barlavento". A nanotecnologia molecular usada experimentalmente pelo especialista em pequenas reparações cirúrgicas de zonas erógenas, revelava-se a descoberta mais significativa neste período distópico. Alguém se lembrou então dos 2.830 banhistas criopreservados acidentalmente em 2012, e que ainda se encontravam na região, acomodados em velhas arcas de gelados, abundantes naquela região mas completamente inúteis no pós-holocausto, uma vez que ninguém se dedicava mais ao fabrico de alimentos e muito menos de guloseimas espúrias.

A expressão "Corneto", soube-o agora, aplicava-se simplesmente a uma peça em liga metálica que era usada na ignição dos potentes veículos usados pelos "First Responders", grupos de vigilantes que batiam diariamente as poucas zonas habitadas no sentido de aniquilar pequenos robots capazes de suster durante 2 minutos uma bandeja com seis copos daquilo que me parece ser um refrigerante de cor azulada, e cuja integridade havia sido comprometida pelos eventos de há precisamente 4 anos. Não existia já ninguém que associasse o termo a um simples rajá.

Eis-me aqui. Acordei hoje, às 12:23h. Senti primeiro aquilo que me pareceu uma mão gelada a esbofetear-me uma, duas vezes. Um líquido gelatinoso escorria-me da face quando abri os olhos. Vultos indistintos pareciam pairar à minha frente, e uma luz irritante penetrava-me a retina. Foi-me explicado que partes inteiras do meu cérebro foram melhoradas por uma técnica de fusão cibernética e molecular. Por alguma razão que desconheço sou incapaz de me emocionar, pelo que saio da estrutura sinusóidal em que estava instalado este estranho hospital e dou comigo a contemplar um cenário de absoluta destruição.

A areia da praia era negra, coberta por uma fuligem que percebo ser produto das enormes nuvems negras Observo enquanto grupos de homens de aparência rude celebram aquilo que parece ser um estranho sacríficio efectuado em cima de um veículo, do qual sobressai um enorme motor V8. Os minúsculos circuitos que agora são a estrutura do meu sistema límbico, nomeadamente os cuidadosamente implantados no meu córtex frontal, responsável pela função cognitiva, respondem ao meu desejo de saber de quem se tratam com a informação: "Interceptores". Dizem-me ainda que se trata de uma casta de individuos, descritos como de grande ambiguidade moral, e incapazes se reproduzirem devido à forte exposição a átomos de hélio empacotados em estruturas cúbicas centradas. A função destes interceptores nesta... "sociedade", é a criarem uma barreira entre a rebentação tóxica e as pequenas comunidades de humanos e ciborgues que habitam a orla da antiga praia. Paramentam-se com vestes de cabedal negro, e executam estranhas danças guerreiras nos longos momentos de ócio de que dispõem, uma vez que ninguém já tenta banhar-se, sendo essa uma prática que tinha caído em desuso há vários meses. Sou acordado do meu devaneio cyberpunk, por um balde de água fria despejada em cima do meu peito pelo Simão.

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Fauna da Ria Formosa

por Fulano de Tal, em 22.07.12

Uma das coisas que fascina os meus filhos são animais, e neste particular a Ria Formosa é habitat de inúmeras espécies.

Ao Simão guia-o um certo sentido gastronómico. Selecciona os que lhe parecem passíveis de saciar o seu imenso apetite, e depois, lentamente começa a fazê-los deslizar entre o indicador e o polegar, a caminho da boca. É aqui que o detenho na maioria das vezes. Está terminantemente proibido de tocar em lingueirões-direitos, abundantes na borda d'água, embora a minha autoridade tenha ficado minada por aquele episódio em que eu próprio, pensando que ele dormitava e tomado de afrodísiacos desejos, aspergi sumo de meio limão sobre uma scorbicularia plana (lamujinha) e sorvi deleitosamente o conteúdo ainda palpitante do bivalve, composto por fígado, estômago, intestino, manto, pé e brânquias. Dito desta forma não parece grande iguaria, mas, não sendo uma ostra, não estava mau. É-lhe indiferente a espécie, mas não o tamanho. Nunca tentou nada com Cães de Água ou Borrelhos-de-coleira-interrompida, também eles habitantes da Ria Formosa. Sei que sobreviverá facilmente a um holocausto e como pai, isso deixa-me orgulhoso. É uma espécie de Mad Max de 2 anos e meio.

Já a Catarina tem uma abordagem mais... feminina, ao fenómeno da vida animal. Tudo o que venha encapsulado numa concha hermeticamente fechada não lhe coloca qualquer problema. Nem o bernardo-eremita pode ser considerado uma excepção a esta regra, pela premissa da hermeticidade. Qualquer outra forma de vida, incluíndo algumas sub-espécies humanas, aterrorizam os seus dias e noites. De entre as mais atemorizantes contam-se a lagartixa-hispânica, a mosca doméstica, e a osga-moura. São 9 anos de temores feitos, que eu estou determinado a erradicar, transformando-a nestas férias na versão feminina do Mogli.

José Barata Moura orgulhar-se-ia de mim, se me visse a aprisionar os fedelhos no banco de trás do carro, enquanto cantarolo os imortais versos que os atingem como punhais afiados:

 

Vamos todos aprender como vive a bicharada

O que é um cardume e uma manada

Vamos ver não tarda nada

Quem é que afinal tem a voz bem afinada

Vamos também descobrir uns amigos bestiais

Bem diferentes dos habituais

E vamos rir até não poder mais

Com as palhaçadas dos amigos animais

 

O meu principal alvo chama-se galinha-sultana (porphyrio porphyrio), a horrenda ave que dá o bico pela Ria Formosa, tendo-se tornado o seu símbolo, após recusa do Pato-Trombeteiro e da Andorinha-do-mar-anã, esta última mesmo depois de lhe ter sido prestada garantia de que o seu raquitismo não seria alvo da pilhéria dos habitantes ocasionais da Ilha da Culatra. Dirijo-me ao sapal de Castro Marim (Nota mental: avisar as autoridades que chamar a algo "Sapal" não é propriamente um chamariz para meninas de 9 anos) onde a promessa de avistar estas e outras espécies é apenas superada pela comicidade onomástica do Picanço-Barreteiro, do Cuco-Rabilongo e outros passeriformes, com polegar oponível e sem membranas inter-digitais.

Quem se encarrega de atribuir os nomes a estas espécies tem decididamente um problema de personalidade. Outra possibilidade é ser um índio sioux, recém-formado em biologia mas que ainda não perdeu as suas raízes. Se desatássemos a dar nomes às nossas crianças usando o mesmo formato o Simão provavelmente chamar-se-ia Baptista Anão de Olhos Lacrimejantes, e a Catarina, Baptista de Pele Suave e Perfumada, o que, convenhamos, era bastante estúpido, e tornaria os pequenos nos alvos da chacota da respectivas turams. Felizmente que alguns mamíferos, como o saca-rabos, e o texugo meles-meles, lá estarão para dar alguma dignidade onomástica à fauna da ria.

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Viking

por Fulano de Tal, em 21.07.12

Só me apercebi daqueles estranhos símbolos gravados no tabuado do estrado que conduz ao areal, quando inadvertidamente fiquei com o chinelo preso naquilo que me pareceu ser um símbolo de um barco com a popa engalanada com a figura de um grifo. Adiante outro, e depois outro, e mais um na viga seguinte. Pareciam contar uma história.

Demorei um pedaço até reconhecer os símbolos como runas, elementos de um alfabeto que há muito desapareceu. Afinal de contas, não é todos os dias que tropeçamos num alfabeto extinto. O símbolo do barco era apenas um pequeno nódulo na madeira, percebo agora, uma vez que o alfabeto rúnico não comporta logogramas ou ideogramas.

Já sei que estão a pensar: "Impossível! O alfabeto rúnico era usado por civilizações que nada sabiam de grifos ou outras criaturas da mitologia grega." Acontece que sabemos muito pouco destas civilizações. Eu pelo menos, sabia pouco, até me encontrar com Erik, Do Baldinho Vermelho. Este gigante nórdico, extraordinária criatura que comigo se cruza há vários dias, na maré baixa, enquanto enchemos baldes de plástico, de brincar, com quantidades obscenas de conquilhas da Ria Formosa. Filho de Olaf, do Ancinho Azul e Sigurddottir, a Matulona. Temente a Odin e à esposa, uma Dinamarquesa que, cansado de violar e matar, arrancou dos braços do marido numa praia de Uppsala tomando-a por 5ª esposa, feito de que se arrepende hoje amargamente apesar de lhe ter granjeado grande prestígio entre a tripulação do Knarr em que se fazia transportar e que agora se encontra alí, ancorado uma dúzia de metros dentro do mar, com os seus pedais reluzentes, e uma pequena bandeirinha da Olá. Cabelos longos que lhe cobrem as tatuagens technicolor, de motivos guerreiros, e um chapéu que se assemelha a um elmo antigo, com dois bicos, que tento adivinhar serem do mesmo grifo representado no tabuado, a simularem cornos, e uma t-shirt de alças, com a inscrição "Jeg elsker min by Kopingsvik" denunciam-no como Viking.

No entanto, enquanto o observo de soslaio, pressinto-lhe um coração de mãe. Não sei o que me leva a tirar esta conclusão, mas não sinto qualquer receio quando ele se aproxima. Não creio que me vá rachar o crânio com o pequeno machado de brincar, em plástico, que carrega consigo, juntamente com o ancinho e o pequeno balde verde e vermelho. Ou que me vá pilhar as conquilhas enquanto viola selvaticamente a octagenária que acaba de ser deixada pelos filhos à beira-mar para, segundo eles "apanhar um bocado de sol". Não transporta consigo qualquer arma em material proveniente da forja de Ulberth, no vale do Ruhr, pelo que sinto a tranquilidade necessária para estabelecer com ele diálogo.

Estendo-lhe a mão, cautelosamente e digo: "Sérgio, Filho de Manuel e Rosa". Não sei porque adicionei a filiação ao cumprimento, mas Erik pareceu cómodo com o formato embora a sua expressão revelasse alguma surpresa. Não estará habituado a que com ele entabulem conversa. Vejo-o a levar a mão peluda ao baldinho, como que garantindo que está suficientemente seguro aos seus calções de pele de leão marinho. Agarra a minha mão num grip próprio de um Normando.

Dirigiu-se a mim em Old Norse, "Så mand, u r porreirinho?". Obviamente a palavra "porreirinho" não tem representação fonética em Old Norse, pelo que presumo que a terá aprendido algures entre Cacela Velha e Altura, enquanto beberricava uma Carlsberg servida no crâneo de um filipino. Desde anteontem que me encontro com Erik todos os dias. Reune-me a mim, à Catarina e ao Simão, dispostos em semi-círculo à sua volta, juntamente com meia dúzia de outros petizes, dois idosos que visivelmente padecem de transtorno de despersonalização e um casal de elfos que habitam um pequeno arbusto, juniperus phoenicea, junto à duna estacionária que se avista apenas do posto de praia na zona de apoio balnear. Tem-nos contado histórias assombrosas sobre a Grande Batalha dos Grifos, O Mito de Beowulf, e a mítica história Styrbjarnar þáttr Svíakappa. Em tudo o mais, a vida decorre com grande tranquilidade.

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Fuhrer da Manta Rota

por Fulano de Tal, em 20.07.12

Na minha praia há um Fuhrer. Controlo-o a partir da minha toalha, como se fosse um agente do MI6. Faz-me lembrar o nazi das sopas do Seinfeld, mas sei que só eu é que recordo o nazi das sopas, pelo que a referência é inútil.

Este controla uma língua de areia que se estende desde o estrado de acesso à praia (chamemos-lhe Polónia) até cerca de 100 metros dentro de água (chamemos-lhe França). Entrincheirou-se naquele enclave que circundou, em toda a extensão da fronteira da Polónia até à França, com placards que dizem "Mein barcos", "Nein nadar", e "Mieten gaivotas".

Fio de pesca, com bóias, indica aos incautos que, caso resolvam passar a linha (inevitável para quem vem da Noruega e se desloca para Itália), poderão ser alvo de um blitzkrieg. Para o Simão, com a sua chucha e menos de 60 cm de altura, aquilo é verdadeiro arame farpado. O Simão aproximou-se a analisar o arame-farpado, e eu controlei o Fuhrer.

Vi-o alinhar os seus hauptmann e oberleutnant, enquanto tentavam perceber o próximo passo do pequeno anão. O arame-farpado ergue-se a uma altura de cerca de 10 cm do chão. Para o Simão isso significa um desafio enorme. Chama por mim, como se eu fosse a RAF, e pede para ser aero-transportado, o que deixa a Schutzstaffel do Fuhrer nervosa. Eu finjo que não conheço aquele anão da resistência, embora ele insista "Papá, papá, ajuda" (no original: "papá, papá, axuda..."). Disfarço-me de homem comum. Faço aquela cara inexpressiva, com o objectivo de não levantar qualquer tipo de suspeição ao Fuhrer, e aproximo-me do Simão. Tomo precauções adicionais ao chegar à fronteira de França. Abordo-a pelo Pas de Calais, e apenas me aproximo do Simão quando pressinto alguma agitação no território ocupado. A manobra de diversão, todavia não planeada, é perfeita: uma gaivota, que havia sido fretada por dois suspeitos espanhóis, com ares de xoninhas, acaba de chegar a terra pela Normandia, o que distrai os homens do Fuhrer, nomeadamente os oficiais da Kriegsmarine. Agarro o Simão pelos sovacos e salto para o abrigo anti-aéreo (chapéu de sol). O Simão grita "coito", pensando tratar-se de um inofensivo jogo da apanhada.

Não sei o que fazer para calar o pequenote, pelo que opto por lhe besuntar a chucha com chocolate líquido, extraído através de um processo químico complexo, que envolve expor um pacote de bolachas de chocolate ao sol intenso, o que tem sobre ele um efeito moralmente comparável ao da morfina quando consumida em doses elevadas por gente que nunca se medica. Em menos de nada dorme tranquilamente na sombra do abrigo, aparentemente insensível à kugelhagel.

Procuro de novo o Fuhrer com os olhos e apercebo-me que abeirou da Suiça, manuseando a sua Mauser (espécie de porta-chaves). A sua divisão Panzer é composta por duas Zundapp KS 750 (motas de água) e encontra-se perfeitamente alinhada à sua frente, enquanto me fita. Oiço-o gritar em verdadeira apoplexia "Heute entkam Zwerg Parasit, aber morgen ist ein neuer Tag, und Sie müssen erneut versuchen, die Maginot-Linie passieren. Dann wirst du mein sein!" (nota de tradução: "Hoje escapaste anão parasita, mas amanhã é um novo dia e terás de tentar passar a linha Maginot novamente. Então, serás meu!")

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Gang das Bolas de Berlim

por Fulano de Tal, em 19.07.12

Consigo pressentir um clima de tensão latente entre os vendedores de bolas de Berlim. Reúnem-se a cada 30 minutos, em cimeiras de líderes, perto do toldo 15.

João "Três Dedos" Oliveira é o líder da família "Pastelaria Felismina". Ganhou a sua alcunha há vários anos, ainda jovem, quando a sua falta de destreza a manusear utensílios de pastelaria o fez cortar o mindinho e o anelar enquanto procurava trinchar um tronco de Natal. Hoje, o seu olhar duro, encoberto pelos Ray Ban, fixa-se em Carlos "Mad Dog" Pereira. Penso que terá a ver com o facto de este ter quebrado uma das regras sagradas da Bolinha Nuostra: transaccionou um pastel de amêndoa sem ter tentado sequer pressionar o banhista a enveredar pela mais rentável Bola de Berlim, sem creme.

Com a subida do preço da amêndoa nos mercados internacionais, é na Bola de Berlim que a família "Pastelaria Felismina" conta incrementar os seus fabulosos réditos de verão. Dois anos antes João "Três Dedos" Oliveira, tinha intimidado um fiscal da ASAE ao ponto de este ter veículado instruções no sentido da proibição do creme, naquilo que ficou conhecido como a "lei seca", e que permitiu às várias famílias de Manta Rota e Tavira esquivarem-se ao custo excessivo na sua confecção.

Toda a margem obtida nas Bolinhas era consumida pelos ovos, farinha e açucar mascavado, necessários à confecção do creme. Temo que Carlos "Mad Dog" Pereira, um ex-pasteleiro de Vila Real de Santo António a quem a sorte não sorriu, não termine a jornada de hoje sem que lhe seja colocado um "contrato", nome pelo qual é conhecida a proibição de venda de alimentos de pastelaria a Oeste de Albufeira. Um quarto da provisão de Bolinhas de Berlim pode perfeitamente estar a ser cancelada numa daquelas cimeiras de 30 em 30 minutos, lançando o caos sobre a praia apinhada de milhares de banhistas famintos e gulosos.

Eu, da minha toalha, e, vejo agora... um gordo a 20 metros de mim, parecemos ser os únicos a dar conta do que se passa. Faço sinal ao gordo, para que nada faça sem termos a certeza de que o cenário é mesmo aquele que tanto eu como ele interpretamos. Ao ver o meu sinal, João "Três Dedos" Oliveira aproxima-se de mim. O seu olhar cruel prescruta-me de alto a baixo, medindo-me, como que a antecipar cenários no caso de eu tentar alguma coisa estúpida. Quando está a cerca de 2 metros de mim, pára. É a minha vez de falar. Nervoso, digo: "São 3 bolinhas, por favor".

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Livros de férias

por Fulano de Tal, em 15.07.12

Estas férias trouxe comigo dois livros e um audio-livro acabadinho de comprar em Toronto. Já vou a meio do Daniel Silva e ainda não sei se o fulano é Português, Brasileiro ou filho de emigrantes. É uma espécie de Dan Brown, mas sem esteróides. Enquanto que nos livros do Dan Brown, o herói primeiro que salte da pista para a evidência, tem de percorrer meia Roma, visitar 3 catedrais, abater sanguinariamente um monge albino, interpretar as sagradas escrituras e namoriscar a polícia francesa (temo estar a misturar as obras), no Daniel Silva a evidência é parida ao mesmo tempo que a pista: "hum, cheira-me que há uma espia em Londres... hum... vá buscá-la ao 1210 Downing Street, ela está no telhado para onde desceu de paraquedas num avião da Luftwaffe"... hey, como é sabias pá ? Poupa-se em investigação e arranja-se mais espaço para a tramóia. Amanhã espero entardecer a ouvir Ellen DeGeneres. Os grandes clássicos da literatura cansam-me um pedaço.

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