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Joel, o taxidermista II

por Fulano de Tal, em 28.07.15

Marta era um animal estupendo. Com mais frequência me chegavam humanos à mesa em fórmica que arminhos, cuja existência em território nacional apenas se deu por provada há cerca de 30 anos. E esta fêmea era um magnífico exemplar, completamente branco.

O nome era enganador. Sendo da família das martas, os arminhos eram contudo animais únicos. Fora trazida pela proprietária poucas horas após o seu passamento, condição essencial para que pudesse ser preservada. Tinha sido companhia e pretendia Olívia, pois assim atinei que se chamava, que o continuasse a ser. Não reparei muito em Olívia. Anotei apenas os seus dados e troquei circunstancialmente informações sobre a complexidade do trabalho, prazos e orçamentos. Mas reparei que era bonita para lá do normal que antecipava eu de uma mulher solitária que tem um arminho por companhia. Isto pude eu ver por isso o descrevo e mais não tive interesse porque o tempo urgia para Marta.

Assim que a porta se cerrou pude analisá-la melhor. Era visível a marca do atropelamento, que havia deixado uma pequena mancha de sangue no pêlo. Limpei cuidadosamente com algodão e água fria. Na secagem segui o meu próprio protocolo: uma mistura de serradura muito fina e farinha de batata para absorver a humidade, seguido de escovagem. Procedimento repetido uma, duas, três vezes, tantas quantas forem necessárias. A incisão neste tipo de animais é feita longitudinalmente, a todo o comprimento do abdómen. Aos 10 anos a mão fraquejava-me neste momento, mas aos 28 nada sinto para além da firmeza do pulso. Com o auxilio da faca e dos dedos comecei a separar a carne da pele, sendo que durante toda esta operação continuei a polvilhar a farinha de batata, para que o sangue e a gordura não sujassem a pele.

Estava especialmente atento para não perfurar as glândulas que estes animais têm na base da cauda, que se rompidas tornariam o ar pestilento. Foi neste momento que senti o objeto metálico preso na parte interior de Marta. De início pensei que seria um osso sobressaliente, porventura por azo do atropelamento, mas rapidamente percebi estar na presença de um no qual identifiquei o que me pareceu ser o desenho, ainda que tosco, de um olho aprisionado numa forma hexagonal, que mais não eram que dois triângulos avessos um ao outro. Detetei ainda as letras A n k h, monogravadas. Estranho achado carregava este arminho. Mais estranho porque ali havia sido colocado. Não resultava de uma ingestão acidental, que poderia ter acontecido pela voracidade desta espécie. Tinha sido deliberadamente cosido na proximidade do sacroilíaco, onde não causasse dificuldades maiores de locomoção.

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Joel, o taxidermista

por Fulano de Tal, em 27.07.15

Chocante. Não havia praticamente ninguém que não classificasse desta forma a exposição que chegou a Manheim, onde vivi 2 anos com os meus pais, em 1997: Koerperwelten. Corpos humanos, doados à ciência, e preservados por uma técnica inovadora inventada por um anatomista alemão.

Corpos verdadeiros, de pessoas outrora vivas, e que ali eram exibidos para que os estudiosos e os leigos pudessem observar a constituição de cada músculo, de cada órgão. Plastinação, era o nome da técnica, e posso afiançar-vos, bastante impressionante para um rapazito de 10 anos.

“Não devíamos ter trazido o Joel”, lembro-me de ouvir à minha mãe. Mas já eu me tinha deixado enlevar pelo excelente estado de conservação e verosimilhança ao ser vivo que aqueles cadáveres apresentavam. Enquanto os outros meninos se interessavam pela vida e obra de futebolistas e estrelas de cinema, eu passei a ansiar por conhecer mais detalhes da vida de Gunther von Hagens e Etienne François-Turgot.

Às coleções de carrinhos e soldadinhos dos coleguinhas de idade comparável, passei a contrapor os frasquinhos com besouros preservados em líquido, e a vasta coleção de nauseabundos esquilos, ratos e castores. Os meus bolsos não carregavam berlindes, mas pequenos tornos, pinças e limas, arame galvanizado, pincéis, algodão em rama, gomas, ceras, lacres e lacas. Todos sabiam quando estava prestes a chegar pelo tilintar constante dos materiais.

Data desta idade o meu interesse pela taxidermia, embalsamento, empalhamento e mesmo mumificação. Por esta ordem cronológica decrescente, que é como o conhecimento nos chega quando começamos a puxar o novelo.

Os meus pais tiveram de passar a conviver com o cheiro de soluções de formol, ou com as minhas tentativas de sintetizar natrão.

A cada passo encontrava dicotomias que me suscitavam um interesse cada vez maior: era uma arte ou uma ciência? Era ético ou imoral? Aves ou mamíferos? Estudo ou exposição?

Mais tarde percebi que podia moldar a perceção que o público retém de certos animais. Se deixasse vislumbre da ameaçadora gengiva de um tigre, tornando visíveis os dentes afiados, exaltava a sua ferocidade. Se optasse por lhe colocar uns olhos grandes e melosos, assemelhá-lo-ia ao dócil gato doméstico.

Nunca deixei contudo que a estética sobreviesse à técnica. Um perfeccionista mas não um esteta. Nunca fui de montar dioramas. Interessou-me sempre mais evitar que a natureza seguisse o seu curso e que os materiais orgânicos se perdessem na via lógica da putrefação, que representar o animal no seu habitat. Para isso aí estão os biólogos. Mas que sabem eles da curtição de uma pele? Das dificuldades únicas que apresentam a preservação de uma cutícula, de uma unha ou de um bico de uma ave? Ou como eliminar as exalações que atraem insetos?

Com toda a naturalidade fui sendo absorvido por trabalhos de preservação de cadáveres para estudo. Evitar os fenómenos cadavérico-destrutivos é praticamente dar uma segunda vida aos sujeitos do meu ofício. Primeiro pequenos mamíferos e algumas aves, depois mamíferos maiores e eventualmente humanos.

Ao contrário da taxidermia pura, onde apenas a pele é aproveitada para, digamos, vestir um manequim com a forma plasticizada do animal, na preservação de cadáveres para estudo é importante garantir que os tecidos apresentem uma sensação de incisão semelhante à do animal vivo, e uma boa aparência geral. De nada servem as técnicas que envolvem a montagem de manequins rígidos.

Se nunca tive dúvidas de que este era um chamamento vocacional, tive-as de sobra quando houve que optar por um determinado percurso académico. As capacidades inatas eu possuía-as, era razoavelmente hábil com as mãos, e tinha um enorme sangue frio na presença da morte. Mas as capacidades técnicas provinham de muitos e distintos campos. Não existe propriamente um curso superior de taxidermia. Os primeiros mumificadores eram aliás sacerdotes, embora tivessem alguns conhecimentos básicos de anatomia. Esta, por sua vez, é estudada essencialmente em cursos de medicina, e alguma coisa em veterinária. Mais recentemente em cursos de engenharia biomédica. Por outro lado os conhecimentos de química são essenciais, assim como os de biologia. Existe até quem se apelide de geógrafo de animais sem vida. Finalmente muitas das técnicas beneficiariam de uma formação em artes plásticas.

Tornei-me presença habitual nos workshops do Museu Nacional de Ciência e História Natural. “Fotografia na Zoologia e Antropologia”, “Uma viagem à pele humana”, entre outros. Juntei-me a grupos de discussão que lia e discutia os grandes manuais de taxidermia e as conclusões de Mauduyt ou Bécoeur. Debatíamos acaloradamente os benefícios e os malefícios da utilização de arsénico em pó, cânfora, ou como remover completamente a gordura dos tecidos e músculos. Nos momentos de maior relaxamento argumentávamos livremente sobre a possibilidade de criar animais, a partir de partes de outros, que assombrassem quem os visse expostos. Como o ornitorrinco de Shaw, ou os grifos do Museu de História Natural de Londres.

Foi num desses dias dedicados à rogue taxidermy, que conheci Marta.

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Interdições e estipulações

por Fulano de Tal, em 19.07.15

A Capitania do Porto de Faro determina todos os aspetos que se prendem com o veraneio nas praias do Algarve. Nada é deixado ao acaso.

Estas determinações estão divididas em duas categorias: as estipulações e as interdições. Ambas jazem sob a forma de Edital afixado nas principais barras, canais de navegação e outros espaços interiores navegáveis. Apesar do caráter pouco público destes locais, existe toda uma rede de amplificação que espalha a notícia como um rastilho de pólvora. Ainda a cola do edital que interdita a “apanha de espécies bivalves” (sacanice para conquilha) está húmida, e já o Lisboeta na ilha de Tavira com a sua patética garrafa de litro e meio está a ser autuado.

Estas determinações impactam a vida dos banhistas, mas acima de todos impacta a vida dos que vivem da vida dos banhistas. Estou obviamente a pensar em particular, mas não excluindo outros profissionais do verão, nos vendedores de bolinhas.

A primeira ocorreu em Abril, por alturas do concurso público que atribuiu licenças, praia a praia, para a venda de bolinhas. Pastelarias históricas, que em muito contribuíram para o desenvolvimento da bolinha enquanto doçaria de verão, perderam as suas licenças. A Pastelaria Ferramacho, a título de exemplo, foi excluída do licenciamento na Manta Rota. Da Ferramacho chegou-nos durante anos, não apenas a fritura em lume brando das bolinhas, como o coxo que as vendia. Perdeu-se assim um excelente coxo. O argumento da Capitania, defensável à luz na lei do licenciamento e concessionamento balnear, é o do padronização das ofertas, essenciais à projeção no exterior da imagem de um Algarve confiável, mais do agrado do turista.

Mais para o final de Maio, surgiu a determinação que estipula uma tipologia de vendedor de bolinhas. Se o coxo não tivesse sido eliminado pela exclusão da sua entidade empregadora, tê-lo-ia sido pelo seu caminhar não convencional. Esta determinação, assinada pelo Capitão do Porto, Capitão-de-mar-e-guerra Paulo Isabel, ele próprio, estipula um cânone para o vendedor. Apenas homens, entre os seus 25 e 35 anos, atléticos e bronzeados, conversadores, que não ostentem nenhuma dificuldade motora ou de outra índole. Exclui mormente os alopécios, os coxos, os marrecos, os gagos e obviamente as mulheres, ainda que estas não padeçam de nenhuma das incapacidades acima. Perante a indignação das associações feministas do Barlavento ao Sotavento, que defendia igualdade de tratamento para homens e mulheres (estava por exemplo disposta a aceitar a exclusão de marrecas, gagas e coxas, e a substituir a alopecia por outra enfermidade mais prevalente entre o sexo feminino, como a pele casca de laranja), escuda-se a Capitania no pretexto de que a jornada de trabalho na areia potencia perdas de produtividade e ânimo à medida que se caminha para as horas mais cercas aos entardecer. A coberto do estudo da Associação Folclórica e Recreativa de São Brás de Alportel (AFRSBA), que verificou por amostragem que essas perdas de produtividade atingia sobremaneira as mulheres e em particular, de entres estas, as grávidas, estipula a Capitania que, pois, se excluam todas, grávidas e estéreis, desta atividade. E deste parecer lavra e faz público o edital.

Sem surpresa, em início de Junho, e novamente através de edital, veio a Capitania dar enquadramento legal aos slogans dos vendedores. Expressamente interdita é a brejeirice e absolutamente essencial é a rima, tida pelo Capitão-de-mar-e-guerra Isabel, como uma tradição tipicamente Algarvia. Para exemplificar avança a Capitania com dois exemplos: “Olha a bolinha Andrade, que prima pela Qualidade” é aceite, ao passo que “Olha a bolinha Palmelão, para depois do palmadão” é claramente excluída, sendo até sugerida a versão (esta aceite) de “…para depois do escaldão”.

Finalmente, em Junho, e a par da interdição dos Jesuítas, praia sim, praia não, vem a Capitania dar razão e voz à Associação de Pequenos Produtores do Algarve (APPA), estipulando um leque de ingredientes aceites na confeção: 1. A farinha deve conter um mínimo de 50% de farinha de Alfarroba, ou ser dela 100% constituída (esta exceção abriu espaço à bolinha de Alfarroba, hoje tão popular). 2. A raspa de limão é absolutamente interdita, sendo antes substituída pela raspa de laranja algarvia, a única aceite. 3. O leite a usar deverá provir de vacas algarvias certificadas, ou no caso de alguma esposa de colaboradores da Capitania se encontrar a aleitar, é também aceite esta proveniência. O edital infra é assinado conjuntamente pelo Capitão-de-mar-e-guerra Isabel (da Capitania), pela cônjuge, e pelo Inspetor Geral da ASAE, Pedro Gaspar.

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A minha cadeira de praia

por Fulano de Tal, em 19.07.15

Eis a minha cadeira de praia. Ela não é muito bela. Mas a estrutura reforçada do alumínio permite suportar maiores pesos. O alumínio não é um material muito nobre, mas o banho de zinco aplicado no processo de galvanização evitará a corrosão por água salgada. Os polímeros não têm a textura dos algodões, mas têm a têmpera do material que resulta de um processo de reação e combinação química.

Além disso são duráveis, para além de laváveis, não acumulando mofo.

Não é exatamente como a tinha imaginado, e não é o que tinha ambicionado para mim. Em vez das longas pernas em madeira, e vestido em fino algodão branco, quis o destino que me coubessem umas curtas em alumínio e a faixa de poliamida, ou lá o que é este polímero, em listas de cores garridas. Ainda assim possuo-a.

No areal erótico da praia do Barril, e enquanto passo a palma da mão pelas suas pernas suaves, embora geladas, dou-me conta que é bastante diferente do que eu tinha imaginado. Diferente mesmo do que tinha ambicionado para mim. Mas cumpre a sua função. E funcionalidade é algo que se começa a apreciar verdadeiramente a partir de uma certa idade. Quando já não somos acometidos por luxuriosos caprichos nos fazem perseguir um sonho, um ideal de beleza.

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Os meus primeiros trabalhos

por Fulano de Tal, em 17.07.15

Quando comecei a fazer os primeiros trabalhos, nas férias, lembro-me de achar que tudo aquilo era estúpido, e que nada me aportaria para a vida que iria ter daí por diante. Como estava enganado.

Um dos primeiros trabalhos que fiz foi para a Makro, estavam eles a instalar a sua primeira unidade em Portugal, em Alfragide. O meu trabalho, todo o santo dia, era digitar nomes de produtos num terminal. Só que os nomes eram longos e o campo onde eu os tinha de escrever era curto. Era o mesmo campo que seria usado para imprimir as etiquetas, daí a economia em caracteres. Por isso especializei-me nesta espécie de estenografia. “Rolo pap pqno 20 uni”, “Fiambre ftd 200gr”, “Det Maq Lav Lça 350ml Skip”. Hoje, as competências adquiridas nessa altura são-me extremamente úteis, por exemplo, na construção de tweets. Já antes disso tinha sentido vantagem sobre os meus pares na escrita de SMS’s.

Nas férias, e ocasionalmente, ia apanhar fruta para umas quintas ali ao pé do sítio ondem viviam os meus pais. Lembro-me de andar com um poceiro às costas, carregado de maçãs e de pensar como era estúpido tudo aquilo. Contudo, e mais uma vez, estava redondamente enganado. Quando o meu mais novo finalmente adormece a meio do dia, e tenho de o carregar como a uma sacada de maçãs, reteso os músculos das pernas e penso nos poceiros que os ajudaram a desenvolver.

Façam chegar esta mensagem a todos os jovens que hoje se estão a questionar sobre a utilidade do seu trabalho de verão. Eu acabo de contar esta história ao pica do barco que faz a travessia entre Santa Luzia e a Praia da Terra Estreita. Pareceu-me deveras entusiasmado quando finalmente a viagem acabou e eu desembarquei. Não sei se pela história ou pela despedida.

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Preparação para o Natal

por Fulano de Tal, em 25.12.14

Aqui em casa apetrechámo-nos com os víveres estritamente necessários para enfrentar a tormenta: Entradas várias, queijos artesanalmente manufaturados com leites de animais de espécies várias muitos deles criados em liberdade, canja (de galinha do campo, carne escura e com arroz, como manda a tradição), sopa de feijão cultivado em terras xistosas, morcela de duas proveniências distintas, o talho moderno e o talho da Batalha, camarões que embora pescados nas águas quentes de Madagáscar optámos por cozinhar em metades, cozidos e fritos, polvo no forno com alho e azeite (virgem! não mais de 0,2 de acidez, com azeitonas colhidas manualmente, pela minha mãe), magníficas postas de bacalhau assado com batatas a murro, do pousio da Carmita, carne no forno, broa de milho pela qual tivemos de esperar, em fila ordeira, pão caseiro, farófias, mousse de chocolate, bolo de chocolate, crumble de maçã, sonhos, frutos secos, bolo-rei e bolo-rainha, aperitivos, digestivos, vinhos de cores e regiões demarcadas diversas, chocolates brancos, negros e mulatos, com e sem passas, com e sem nozes e avelãs.

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A caminho da festa da Batalha

por Fulano de Tal, em 10.08.14

Hoje fomos à festa da Batalha. Saí tranquilamente da Carvalhinha, e em menos de nada estava em Pinhal Verde. Dali à Barreira é um pulo. Subi até aos Andreus, passei por Bico Sacho e dirigi-me no sentido das Garruchas, mas virei à direita para Casal do Alho. Eis-me chegado à Batalha. No regresso optei por outro caminho. Fui na direção de Casal de Mil-Homens, sabendo de antemão que logo após a Golpilheira podia, saindo à direita, e dirigindo-me pelas Hortas, desembocar em Cevidade, de onde é simples seguir para Marvila. Logo após a placa de “Bem-vindo a Marvila e volte sempre”, temos a Cumeira. A partir dali é sempre a descer até à Mourã. Da Mourã a Casal da Cortiça é um tirinho. Virando à direita estou na Carvalhinha. Em casa, portanto.

É impossível não adorar o sentido de pertença a um lugar dos Portugueses. E a sua criatividade.

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São Pedro de Moel

por Fulano de Tal, em 09.08.14

São Pedro de Moel é uma das praias de sempre na minha vida.

Aqui os dias não amanhecem soalheiros. Antes, uma espessa neblina toma conta do areal até perto da hora de almoço. De tal forma que mal se distinguem os banhistas que distem mais de três chapéus do nosso.

Aqui a areia não é fina e branca. Estendemos a toalha sobre uma camada de pequenas pedras e conchas mal erodidas. As conchas alapam-se à pele, marcando-a.

Ninguém aqui vem ouvir o murmurar da água. Para aqui vem quem quer ouvir o trovejar da rebentação.

A água não é tépida nem se espalha num lençol calmo onde as crianças possam banhar-se. O banho está destinado apenas aos mais afoitos, e assemelha-se mais a um enérgico exercício de resistência e força.

As bolas de Berlim não são passeadas pela praia por jovens brasileiros que as entregam diretamente na toalha. Aqui são velhas locais que montam pequenas barracas nas entradas para o areal. Têm bolas de Berlim, mas com mais facilidade despacham os saquinhos de pevides e tremoços. Os bolos mais populares não são moles como bolas mas rijos como biscoitinhos de amêndoa, ou uns bolos estaladiços de amendoim, fabricados pela empresa "Toinito, lda" de Amor, cá no distrito. E todos se levantam ordeiramente para os ir buscar.

As senhoras de “pareo” sabem que têm de ir para a extremidade sul da praia. Na norte, mais próximas das pevides e da aula de aeróbica que agora anima a praça, serão olhadas de soslaio. Mais populares aqui são umas calças azuis, com umas cornucópias brancas.

Os banheiros de São Pedro de Moel são menos bonitos e musculados que que os da Caparica. Mas ninguém mete pé na água sem obter deles pelo menos um olhar de aprovação. Pelo menos uma vez por dia enfrentam o mar para resgatar um banhista a quem o atrevimento superou a inteligência.

Aqui sempre existiram umas piscinas de água salgada, bombeada diretamente do mar. Eram as melhores piscinas do país. Foi lá que parti os dentes da frente, quando perdi noção das horas e vi o meu pai com uma carranca no promontório à minha espera. Corri pelas escadas acima e catrapumba. Faliram, dizem-me. Assim com a Hot Rio, a discoteca no andar de baixo, e o Snoobar, sala de jogos. Faliu tudo e agora é apenas uma ruína abandonada que se vê da praia, com uma patética prancha de saltos sem qualquer utilidade.

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O gasolineiro tatuado de Santigo do Cacém

por Fulano de Tal, em 26.07.14

O gasolineiro tatuado de Santiago do Cacém tirou-me a pinta assim que saí do carro, de óculos escuros, e boné camuflado dos US Marines, comprado numa loja de pechisbeque de Georgetown.

"Diesel ?"

"Sim"

Por debaixo da farda da BP era possível divisar as tatuagens de cores garridas, no peito, nos braços. Imaginei que algumas delas, pelo ar tosco, feitas numa penitenciária qualquer.

"Vai para o Algarve?"

"Vou, mas ainda passo ali em Santo André, a buscar uma pessoa"

"Pá, só um conselho: não vá por Sines. É polícia por todo o lado."

Olhei-o por cima dos óculos, mas não mexi um músculo. A ideia de "polícia por todo o lado" por alguma razão não me parece tão aterradora a mim, como lhe parecia a ele. Imagino que ele também me tenha olhado de soslaio. O meu ar de marginal não era condizente com aquela passividade perante a ideia de uma rusga da BT.

"O problema não é estarem em todo o lado. É que andam com cães... por causa do festival de músicas do mundo".

Resolvi dar-lhe um momento de felicidade. Levantei o sobrolho

"Cães?" A minha cara transformou-se num silencioso "Oh diabo!".

"É. Se levar alguma coisa..." Riu-se.

"Pá, então se calhar volto para trás" Ri-me. Carro atestado. Estendo-lhe a mão, naquele jeito em que os polegares encaixam e no mesmo movimento aproximamos os ombros. Como manos. Por uns segundos, irmanados pela coca que eu não transporto no carro, fato que ele desconhece.

"Obrigadão!"

"Boas férias"

Dois niggas no meio de nenhures.

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Teodósio, Rei dos Frangos

por Fulano de Tal, em 20.07.13

O Teodosio, Rei dos Frangos, na Guia é um dos meus principais argumentos a favor da Monarquia. Se isto se chamasse o "presidente dos frangos" seria uma espelunca, lúgubre, e em pré-falência, e não este espaço vibrante de celebração ao galináceo enquanto jovem.

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