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Maggie, a pequena octópode de 8 mm

por Fulano de Tal, em 22.10.15

Maggie é uma pequena aranha que há dois dias não faz outra coisa senão tecer finos fios de seda entre o volante do meu carro e as minhas orelhas. Se a pudesse dispor, totalmente espalmada e com as suas patitas estendidas sem a aleijar, o que apenas é possível em abstrato, não mediria mais que 8 mm, de ponta a ponta. Mas a sua capacidade para tecer e equilibrar-se na sua obra é incrível.

 

Há dois dias que ando em viagem e lá anda ela, do volante para a minha orelha e depois par...a o volante. Nunca percebi como é que ela faz o primeiro percurso até à minha orelha. Ou se sempre esteve na minha orelha e apenas se desloca para o volante quando finalmente chego ao carro. Quando dou por mim, estou na portagem dos Carvalhos e o fio já está tecido e Maggie encavalitada nele. Não creio que tenha a pretensão de caçar quaisquer insetos no meu inóspito automóvel. Espero estar enganado, não vá aquilo ser afinal o Tromba Rija dos pulgões e outros afídios.

 

Sei que é um octópode, porque hoje entre Antuã e a Mealhada se deixou balançar indolentemente no fio que ela própria teceu e pude contar-lhe as patas. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8. 8 patas. Octópode. E é tudo quanto sei sobre ela. Na realidade nem sei se é uma ela. É apenas um desejo que formulo porque sei que no mundo dos artrópodes é frequente as fêmeas em algum momento devorarem os machos. Que desperdício de sensibilidade teria sido eu poupar esta boa aranha durante dois dias para acabar devorada por uma amante.

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“Suturamos, Drª?” Cerro os olhos com força. Porque é que as auxiliares dos dentistas falam sempre no plural, como se elas fossem fazer o trabalho de ortodontia? A mim, que já entro nervoso, não me descansa nada.
“Arrancamos?”, “Bochechamos?” Agora o plural envolve-me a mim também. É como se os três, eu, ela e a dentista, tivéssemos de executar esta tarefa a 6 mãos. Ou a 3 bocas. Quem sabe com a mesma água.

“Isto está bonito. É o do siso. Já não tem coroa.” Logo eu que sou mo...nárquico. Um dente sem coroa. Arranque-se, porra!

“É como quiser”. Diz a doutora.
“Como eu quiser, Drª?!”
“Sim, se quiser arrancar, arrancamos. Se quiser deixar ficar, faz só antibiótico e depois vem ao Dr. Pedro”

“Sabe, a mim dói-me. Por isso vim cá. Desenvolvi este raciocínio maluco de que se mo arrancar deixa de doer”.

“Então, vá. Sente-se aí novamente”. Saca dos instrumentos. O meu pé começa a bater no fundo da cadeira. “Está nervoso?” “Muito”.

“Esta é a pior parte”. Reteso-me na cadeira. Sinto os abdominais a contraírem-se, pela primeira vez desde aquela ida ao ginásio, em 1994. Sustenho a respiração. Sempre de olhos fechados. Acredito com toda a força que sou capaz de suster a respiração durante todo o procedimento, e que esse facto auxilia na prevenção da dor. Não sei porquê.

“Não esteja nervoso, quanto mais nervoso fica mais lhe vai doer”. Fico mais nervoso.

Sinto o líquido amargo a escorrer pela garganta enquanto a língua ameaça ruir para uma das bochechas e ali ficar, inane.

“Bochechamos?”, diz a auxiliar. Não tenho forças nem fôlego para gracejar com aquilo embora me apetecesse. Bochecho sozinho o que parece não causar estranheza à fulana.

Ruídos de esmalte a partir-se. “Não se assuste, é mesmo assim”. É mesmo assim mas não devia ser. Esta prática selvagem já devia ter avançado com a civilização e não ter ficado ali, parada no tempo, à mercê de seringas e alicates. “Se estiver a doer diga, que temos ali muita seringa com anestesia”. Esta afirmação não me tranquiliza, e ensaio nova apneia, enquanto enfio as mãos, de punhos cerrados, nos bolsos das calças. Era aquilo ou um murro na tromba da Drª.

“Pronto. Com o dente veio um bocadinho de osso e estou só a retirar as aparas do osso”. Decido-me pelo murro na tromba. Estou a tirar as mãos das bolsos das calças quando oiço “Bochechamos?”

“Não”, diz a Drª. “Hoje não vai bochechar. Nem fumar, nem comer sólidos”. Aparentemente a Drª acaba de me safar da inépcia da auxiliar que me podia ter matado com aquele bochecho solidário. Volto a meter as mãos nos bolsos sem que ela perceba as minhas intenções originais.

Agora já estou nos braços dos meus melhores amigos. Clavamox e ben-u-ron que me faz sempre lembrar o Charlton Heston.

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Molho de mostarda

por Fulano de Tal, em 05.10.15

“Blá blá blá blá blá… e de entre os condimentos que constam da carta para acompanhar o bife escolhemos o molho de mostarda.” Pedido feito. Sorrisos.

 

Minutos depois inicia-se a satisfação do pedido. Blá blá blá blá blá… bifes. Não se avistando o molho de mostarda interroga-se o funcionário. “O molho de mostarda?” Molho de mostarda. Molho de mostarda. Molho de mostarda. Funcionários questionam-se numa hierarquia que vai da camareira ao chefe de sala e de volta à camareira. O molho de mostarda já vem.

 

Passam-se alguns momentos e é apresentando um pires com uma borrifadela abundante de mostarda. Olhares de surpresa entre os comensais. “Se eu tivesse pedido o molho de cogumelos surpreender-me-ia com dois magníficos cogumelos acabados de colher?”. Piada não colheu qualquer reação. “Isto não é molho de mostarda. É mostarda”. Pois que não pretendíamos mostarda mas sim um molho que tornasse o bife suculento.

 

Mostarda. Mostarda. Mostarda. Voltam os cochichos entre funcionários, hierarquia acima e hierarquia abaixo. Tinha havido um engano. O molho estava a ser preparado e desta vez estaria acima de qualquer crítica. Palavra de camareira. Sorrisos cúmplices entre camareira e comensais.

 

Mais um pedaço adiante, chega uma pequena taça fumegante com mostarda liquefeita pela ação exclusiva de um micro-ondas. Pude comprovar isso mesmo, colocando o indicador primeiro na taça e depois no palato. “Oiça: o facto de aquecer a mostarda não faz da mostarda menos mostarda. O facto de ela mudar de estado e ser agora liquida, não chega para configurar um molho”.

 

Mostarda liquida. Mostarda liquida. Mostarda liquida. Azáfama entre funcionários que segredam entre si e olham para nós. Funcionária sénior acerca-se da mesa. “A cozinheira é nova. Não sabe como se prepara o molho”.

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Vou dizer-vos como eu me comporto perante um elevador. Não é para fazerem igual. Mas é assim que eu faço e já agora explico-vos porquê.

 

Chego ao elevador e ele tem dois botões, normalmente dispostos um sobre o outro: o de cima tem uma seta que aponta para cima, e o de baixo uma seta que aponta para baixo. Apontam portanto em direções opostas, como que contradizendo-se. Se eu quero subir pisos, não importa agora quantos, primo o botão que aponta para cima. Se, por outra parte, eu quero descer pisos, primo o botão que aponta para baixo.

 

Faço isto com alguma diligência porque percebo de algoritmos.

 

Se chego em frente a um elevador em simultâneo com um septuagenário e ele se me antecipa premindo os dois botões, pergunto-lhe delicadamente: “O senhor vai para cima E para baixo?”.

 

Forço o tom no “E” para ele perceba a estupidez de que se reveste querer ir para cima e para baixo ao mesmo tempo naquela situação em concreto, sem erradicar a probabilidade de que existam situações em abstrato em que tal seja possível e mesmo desejável.

 

Se noto desconforto no idoso, explico-lhe os princípios básicos da programação linear e como naquele caso concreto a minimização de entradas conduz a melhores resultados no algoritmo.

 

Agora notem o seguinte. Estou no último piso de um edifício, e primo obviamente o botão com a seta para baixo. Em muitos edifícios no último andar não existe sequer outro botão. Quando a porta do elevador se abre, um casal de septuagenários encontra-se no seu interior. A minha primeira reação é afastar-me da porta. Isto porquê? Porque entendo de metafísica e li no secundário alguma coisa sobre o pensamento lógico aristotélico.

 

Deduzo que se vieram de elevado até ao último andar e não havendo, no movimento ascendente que tomaram, nenhum outro depois deste, é porque aí pretendem sair. Ora, isto nem sempre é verdade. Estes casais normalmente carregaram nos dois botões que mencionei no início (e podem agora ver que não foi distraidamente) num dos andares mais abaixo. Entraram sem preocupação de verificar se o elevador se encontrava em ascensão ou descensão, e subiram quando pretendiam obviamente descer. O que eles sabem e eu aparentemente ignoro é que um elevador se encontra em movimento perpétuo.

 

Porque eles percebem de cinesiologia. Mas ambos, embora apetrechados de mochilas de conhecimentos tão distintos, sabemos sorrir quando se dá este pequeno mal-entendido.

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Contabilistas

por Fulano de Tal, em 18.09.15

O F. é o meu contabilista há quase 5 anos. Isto é muito estranho para mim, porque olho para o F. e ele parece-me um miúdo. Um miúdo hoje, o que me faz pensar em que raio de noite de copos é que ele se tornou o meu contabilista há 5 anos. Mas na realidade ele não é bem um contabilista. Existe um outro, que é o R., que assina os papéis todos. Esse é que é o verdadeiro contabilista. TOC. Ou ROC, ou lá o que é.

Mas é com o F. que eu falo, é ele que me aconselha em temas soturnos como acréscimos e diferimentos. Pode não ter o certificado que lhe permita assinar os meus papéis, mas ele é de facto o meu contabilista, mesmo que não o seja de jure.

Todos os meses envio-lhe uma pasta com faturas e interrogo-me sobre o que é que ele faz com aquela pilha mensal de papéis. De 5 em 5 meses, faz-me lembrar a sua existência, questionando uma determinada fatura ou movimento no extrato. "Este pagamento de 23,12 Euros feitos em 2011 às 3:43 da tarde reporta-se a quê Sr. Fulano de Tal?". Não faço ideia. Já tentei brincar com ele dizendo-lhe que não me lembro do que almocei ontem, quanto mais um pagamento de 23,12 Euros feito há 3 anos. Mas o F. não é para brincadeiras quando toca ao deve e ao haver. Despacho-o normalmente com um "Deve ser telecomunicações F.".

Desde o início do ano que todos os meses lhe deixo, no meio da pilha de papéis, elementos descabidos em contabilidade só para o fazer arquear as sobrancelhas debaixo dos óculos grossos. Em Janeiro deixei-lhe entre a fatura do MEO e um comprovativo de leasing, um guardanapo de papel do Califa, com uns lábios cravados em baton e um número de telefone ficticio. Fiquei à espera que me ligasse. Confesso que estava nervoso, pois não podia adivinhar a sua reacção.
Não me disse nada e eu nada lhe disse.

Em Fevereiro, coloquei uma fatura manual com o descritivo "Lingerie sexy" e adiante o valor sem IVA: 121.14 a que corresponde um PVP do preço psicológico de 149 Eur. Queria saber como é que ele classificaria tal despesa. Na minha cabeça já tinha antecipado o ar grave e confidente com que lhe diria "Terá de ser confidencial, F. Lamento dar-lhe estas maçadas".
Terei porventura pago tributação autónoma sobre este valor, mas valeu a pena pelas risadas que saquei só de o imaginar às voltas da fatura. Nunca me disse nada. Ligou-me uns dias depois, nesse mesmo mês, para me dizer que eu tinha esquecido de escrever o meu destino num recibo de portagem. "É necessário, Sr. Fulano de Tal, senão eu depois ... já sabe, não é?"

E assim tenho feito todos os meses. Março, Abril e por aí fora. Terei falhado em Agosto porque ele meteu umas férias e não quis armar-me aos cucos com a Srª M., que o substituiu nesses dias. Uns bilhetinhos, umas faturas, uns recibos.

 

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O último teorema de Fermat

por Fulano de Tal, em 10.09.15

Não têm obrigação de saber, mas quando me encontro só, eu conto coisas. Conto passos, conto degraus, conto segundos. Sei que são 89 os degraus que me levam da Porta 4 até ao sector B16 do estádio, e sei de cor muitas outras somas. Contei-os a primeira vez, e validei na segunda. Eram 89, sim senhor. A partir daí comecei a contar de trás para a frente: 89, 88, 87… Quando chego à vintena sei que estou a chegar ao cume. Por vezes volto a contar de 1 até 20. Na maior parte das vezes deixo chegar a 0 vagarosamente.

De 1 a 89. De 89 a 1. Por vezes começo no 100, e sei que vou acabar no 11. Ou começo no 11, e sei que último degrau completa 100. A beleza da matemática é esta: é a mais exata das ciências. Para falar verdade talvez seja a única verdadeira ciência. A única digna do nome. Só que o nome é tão bonito que todos querem ser “ciência” de alguma coisa. Ah a filologia, ciência que estuda textos. Quais ciência? Estudar textos é ler. Então e a ciência dos afectos? E disto e daquilo. Bolas.

E é tudo tão perfeito, bate tudo tão certo, o mundo que se conhece ser verdade é descrito por teoremas e axiomas, e aquilo de que se suspeita por conjeturas e hipóteses.

Por isso me encantei ao ver a história do último teorema de Fermat. É uma história que merece ser contada. Fermat estava a ler a sua cópia da Arithmetica, um livro com problemas da antiguidade grega, e ia anotando nas margens as suas conclusões. E quando olhava para a formulação de algo que mais tarde se conheceria como o Teorema de Pitágoras (x2+y2=z2) começou a interrogar-se sobre o que aconteceria se em vez de quadrados tivéssemos cubos, ou potências maiores. Será alguma combinação de dois inteiros, x e y, teriam como solução um z também inteiro?

E ali estava este homem do séc. XVII a brincar aos números, e decide anotar na margem do seu livro algo como “isto não se verifica com números inteiros a partir da potência 2, e eu consigo demonstrá-lo, mas esta margem é demasiado estreita para isso”. E durante os séculos seguintes, as melhores cabeças do Mundo tentaram chegar à demonstração de que falava Fermat e ninguém conseguiu.

E de todos os grandes teoremas da matemática que levaram anos ou séculos a serem provados, ou as grandes conjeturas e hipóteses que todavia não o foram, este é (do pouco que conheço) o único que se formula desta forma tão simples que qualquer pessoa entende. Todos os outros são tão complexos que apenas para formulá-los precisaríamos de um doutoramento em Matemática em Stanford. Parecia tão simples de provar e demorou 3 séculos a que isso acontecesse. E estes são os dois primeiros ensinamentos desta história: a simplicidade aparente que engana, e a perseverança humana que derrota o mais complexo de todos os problemas.

Na realidade há um primeiro ensinamento, que pulei mas é evidente. Na matemática um teorema é algo que se demonstrou ser verdade. E no entanto, toda a gente sempre se referiu ao último teorema de Fermat, sem que a prova tivesse sido alguma vez avistada. Fermat simplesmente anotou na margem do livrinho que a tinha. E na ciência mais exata, mais escrutinada entre pares, todos acreditaram sem se questionarem. Se outro o tivesse dito, nunca seria mais que uma conjetura, e maior parte dos casos uma banal hipótese. Mas este era o último teorema de um matemático brilhante, cuja credibilidade era inquestionável. Ainda hoje se lamenta não saber qual era a demonstração de Fermat, porque aquela que finalmente foi aceite tem por base teoria que apenas existe a partir do século XX, ou seja, impossível para um homem do século XVII. Credibilidade. Um homem credível, confiável, pode dizer o que quiser, nos ambientes mais adversos, e será ouvido com atenção.

Finalmente um outro aspeto: este teorema, pelo qual esperámos séculos, não tem até hoje qualquer aplicação prática conhecida. Nenhuma. Recordo-me quando eu aprendia matemática, de pensar “mas para que é que isto serve afinal?”. Pois a resposta neste caso é mesmo “para nada”. Por enquanto. Homens brilhantes dedicaram vidas, alguns perdendo o juízo, a decifrar um problema que não tem aplicação prática. *

Mais um ensinamento. Alguns de nós não veremos na matemática mais do que metrologia. Saber contar discretamente (1,2,3…) coisas, saber contar relativamente (1/2, 3/4…), saber medir continuamente coisas (1,2 litros, 173 centímetros). Isso não é bom nem mau. É a matemática do dia-a-dia. Os maiores avanços nas coisas do curto prazo, mundanas, como o comércio ou a guerra, fizeram-se inicialmente apenas com essa mochila de conhecimento. Muitas das coisas mais belas que se produzem, com livros, músicas e filmes, não necessitam de uma matemática mais complexa que a metrologia. Depois existem as pessoas que são capazes de ver beleza e sentido na abstração matemática. Interrogar-se como é possível que os quadrados de dois catetos somem exatamente o quadrado da hipotenusa. Que Deus possível poderia ter criado estas coisas e outras ainda mais incompreensíveis por tão perfeitas. Estas pessoas provocam pouco impacto no curto prazo, mas levam-nos à lua, constroem máquinas diabólicas que voam.

Ou seja, cada um é para o que nasce.

 

* e no entanto, muitas das técnicas desenvolvidas na tentativa de resolução, têm hoje imensas aplicações práticas. Este é o último ensinamento. É importante ter um caminho, mas não nem sempre o mais importante é chegar.

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Uma tarde ociosa no Porto

por Fulano de Tal, em 08.09.15

É óbvio que no Porto existe de tudo, tal e qual como em qualquer outra cidade do país. Existem centros comerciais, lojas de cadeias de marca, e o diabo a quatro. Mas quem anda ali na periferia da Avenida dos Aliados, por aquelas ruazinhas estreitas parece ser transportado 30 anos atrás no DeLorean do Marty McFly. Sapatarias, frutarias, mercearias, alfarrabistas, lojas que apenas vendem lâmpadas, ou tecidos, ou botões. A maior parte ostenta o nome do proprietário ou da zona. Como Sapataria Gonzaga, ou Mercearia da Trindade. Nem vislumbre de Forevas ou outras cadeias. A única coisa que nos lembra o século presente são os cafés e restaurantes a lembrar Paris.

Nas montras, cada merda tem um preço. Se estiverem vinte miniaturas de garrafas de Porto na montra, todas têm um cartaz “12,5 Euros”, “12,5 Euros”, “12,5 Euros”, “12,5 Euros”, “12,5 Euros”, “12,5 Euros”, “12,5 Euros”, “12,5 Euros”, “12,5 Euros”, “12,5 Euros”….

Imagino que seja atenção ao cliente. Nem todos perceberão de imediato que duas merdas iguais na mesma montra provavelmente terão o mesmo preço. Ou então é estrito cumprimento da legislação em vigor. Se há 50 amêndoas de páscoa numa malga, cada uma tem o seu papelinho, que por sinal dá o preço de um kg de amêndoas de páscoa, e não de cada amêndoa individualmente comercializada.

Talvez eu esteja a exagerar e fossem ovos kinder, e o preço fosse de cada um, até porque a páscoa ainda vem longe. No maravilhoso mundo que existe apenas na minha cabeça, os ovos kinder são apenas amêndoas de páscoa gigantes. Sem amêndoa.

Eu cá, andava à anos para ir à Livraria Lello. Fui impelido pelo excelente marketing do local, e impedido várias vezes pelas filas intermináveis à porta. Mas hoje enchi-me de coragem, comprei o bilhetezinho de 3 euros (excelente ideia, já agora), e lá entrei ao fim de vinte minutos. Sei que me ficaria bem tecer loas ao local, e antes fui bem besuntado com vaselina, tendo-me sido entregue um frontispício que supostamente me auxiliaria na visita. Um guia, com dizeres de grandes figuras da literatura, como que a avisar-me de que eles gostaram, então quem és tu? Só que eu sou o guardião do meu maravilhoso mundo, e confesso que não me encheu as medidas. Está certo que tem uma escadaria bonita, e talvez fosse um local sossegado para ficar a ler umas horas, não fossem as enchentes de turistas armados com selfie sticks. Mas assim, apinhado, ficou a impressão de não ter livros especiais, diferentes dos outros, e ter umas estantes maltratadas pelas térmitas e pelo tempo. Nem troquei os 3 euros pelo desconto, porque quem gosta de livros não encontra ali nada que não possua já.

3 euros por 3 euros, mais vale a visita à Torre dos Clérigos, pelo mesmo dinheiro mas que oferece muito mais valor, uma igreja bonita, uma escadaria claustrofóbica, uma exposição permanente, uma vista sobre a cidade.

Resolvi passar o fim de tarde na esplanada da Marina do Freixo. Este sim um lugar especial.

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Statler e Waldorf

por Fulano de Tal, em 21.08.15

Só me lembram o Statler e o Waldorf, estes dois. O primeiro tem um cabelo totalmente penteado para trás, ligeiramente comprido e totalmente grisalho, besuntado com o que deve ser uma cera extraforte. Azedo e sabichão. O segundo tem uma farta cabeleira desgrenhada, totalmente branca, e uma barba também totalmente branca. É simpático e sorridente.

Em conjunto devem ter 140 anos, para cima.

Quando os encontro de manhã à porta do escritório, o primeiro responde às minhas saudações com um seco “Bom dia”, e o segundo com um caloroso “Ora viva, está bom? Bom dia!”. Penso que são uma espécie de guardiões de um dos espaços, que pertence a uma obscura associação empresarial que pelo nome e mercado em que se move, conta com 2 associados, talvez três. Digo “guardiões” porque estão sempre na porta da rua. O primeiro a fumar e a falar, e o segundo a fazer companhia, ouvindo.

O primeiro veste uns fatos claros e normalmente uns sapatos de verniz bicudos e com atacadores. Ficam-lhe mal e dão-lhe um ar sombrio que condiz com o seu discurso. O segundo veste umas calças garridas (podem ser vermelhas, como hoje), com sapato de vela e um polo. Hoje abdicou das meias.

O primeiro, independentemente do que a sua razão observa, conclui sempre o que seu preconceito pré-determinou. O segundo é mais conciliador, mas como não quer criar mau ambiente com este seu improvável companheiro, vai assentindo e argumentando até capitular perante a veemência de Statler.

Habitualmente o primeiro está a discursar sobre uma qualquer ocorrência, carregando-a de conotação política, ainda que despropositadamente. É sarcástico e duro, nunca se ri, e se passo por ele eleva a voz, cooptando-me como ouvinte. Faz questão que eu saiba o que ele pensa sobre as empresas que se dedicam a fabricar o salame que é vendido nas máquinas de vending do 1º piso. “Se aquilo faz mal à saúde, devia haver um governante que tivesse a coragem de proibir aquilo de ser vendido. É ou não é !?!?!” Olha-me de soslaio. A pergunta, embora retórica, é para mim.

É precisamente quando eu passo que ele se torna mais agressivo, sarcástico e assertivo.

O avô da Heidi vai ouvindo. “Mas se há quem goste de salame… olhe que cada um tenha a liberdade de optar”. Olha para mim, como que a pedir-me que entenda que embora estejam juntos eu não o devo julgar pelo comportamento do outro.

“Mas você acha que as gentes são capazes de optar pelo que é melhor para elas?!!?!!? É preciso é coragem e pulso forte, que é o que não existe neste país.” Ai este país… é tão maltratado por ele.

“Pois. Talvez não sejam… Ora viva! Está bom? Bom dia!”

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Observador

por Fulano de Tal, em 20.08.15

Hoje ia-me passando com o fulano ao nosso lado na praia. Não era alto nem baixo. Não era velho nem novo. Talvez uns 35 anos. Sempre a olhar para mim, e a rabiscar não sei o quê num papel, furiosamente. Olhava, rabiscava. Olhava, rabiscava. Se eu ostensivamente o encarava, ele desviava o olhar, nervoso. Todo ele tremia. Nunca tirou as sandálias e as meias, como que a pensar que poderia ter de abandonar a qualquer momento. Quando finalmente se foi embora deixou cair acidentalmente o papel em que rabiscava, e afastou-se amparado por um casal idoso que presumo serem os seus pais.

O que se segue é o que lá estava escrito (ainda estou todo arrepiado): “O meu nome é Monteiro. Raramente cometo erros como o de hoje. Eu cá não sento onde calha quando chego à praia. Por isso fico uns bons 5 minutos ali em cima, a olhar para as clareiras na areia, e tentando organizar os banhistas mais próximos pelas respetivas profissões. Na praia o profissional oculta o seu ofício. Transforma-se naquilo que ambiciona ser, e não revela aquilo que afinal é. E esse é o meu mister. Vejo a realidade despida de toda essa ocultação. Detesto ficar, por exemplo, ao lado dos trolhas. Não por lhes adivinhar humilde condição, mas porque em menos de nada estão a construir castelos para as crianças. Os castelos dos trolhas têm rebites manuelinos e outra ornamentação que nenhum outro profissional se propõe executar. Na ausência de uma boa betoneira, revela-se o artesão, o artista. Ou contabilistas. Os contabilistas são outros que evito. São fáceis de detetar, porque vivem em permanente excitação debaixo dos seus chapéus de cores muito garridas. Vertem caipirinhas e buscam aventura em cada decisão. São os primeiros a alugar gaivotas. Querem fazer todas as excursões, e suspiram para que o barco naufrague, que a banana vire, que o parapente se despenhe. Algo que traga agitação às suas miseráveis vidas. Escolhi hoje, como sempre faço, a clareira orlada pelos biscateiros com família, pelos polícias, pelos lavadores de janelas com cordas. Gente com vidas agitadas e que apenas quer descansar. E agora estou aqui e à minha frente quem vejo? Gostava de responder, mas este fulano intriga-me como o raio. Por um lado parece um rufia, igual aos outros que por aqui andam, e parece querer descansar, mas a cada 5 minutos é levado pela mão pela versão mínima dele próprio, e submerge mar adentro com o garoto ao colo. Depois volta. Vai e volta. Vai e volta. Já fez isto mais de 10 vezes e só estamos aqui há 2 horas. Parece querer descansar mas não descansa. Parece infeliz quando é forçado a ir, mas vem feliz no retorno. E depois hidrata-se, mas com o que parece ser um sumo de pera. Será um tendeiro, um barista? E o que é aquilo? Uma sande de pão com chouriço? Será um chef famoso? Procuro as ocultações mas este eu não decifro. Com quatrocentos mil diabos zarolhos, que fará este homem? Mãe, mãe, temos de ir, temos de ir…”

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História universal para xoninhas

por Fulano de Tal, em 20.08.15

Se há área onde conto, de entre os meus amigos, com alguns dos mais geniais profissionais em Portugal (e isso, nesta área em concreto, equivale a dizer “dos melhores do Mundo”), é a área das tecnologias de informação.

Foi com estes xoninhas que aprendi muitas das coisas que hoje julgo saber.

E quero retribuir aos nerds com uma pequena história que lhes dirá muito, e que julgo poucos conhecerão, porque nunca foi escrita em pseudo-código, e os marrões têm pouca paciência para histórias: a origem do nome Bluetooth, para designar a tecnologia que usamos hoje nos telemóveis, etc.

Harald Blåtand.

Harald Blåtand, ou Haroldo I. Blåtand, que se foi traduzindo por Dente Azul, ou Blue Tooth. Consta que ganhou este nome pela sua predileção pelo consumo de mirtilhos, ou simplesmente por erro de tradução para o inglês, uma vez que em Old Norsk teria mais o significado de “pele escura”.

Unificou as tribos vikings Norueguesas, Suecas e Dinamarquesas, cristianizando-as (os maiores pagãos da história, note-se), em apenas 10 anos. É essa unificação que se pretende homenagear, numa tecnologia que unifica a comunicação entre sistemas digitais.

O logo do Bluetooth, é aliás construído por duas runas, que representam as iniciais do seu nome: a Hagall, e a Berkana.
Vá marrões, continuem lá o bom trabalho, e esta noite comentem esta história nos vossos fóruns, em binário, ou lá onde é que vocês passam as noites.

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