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Controlo de raiva

por Fulano de Tal, em 05.10.14

Conhecem algum bom centro, daqueles onde se fazem uns cursos de “Controlo de Raiva”, que me possam aconselhar?

Ando envolvido num número cada vez maior de incidentes quási-violentos, envolvendo outros automobilistas no meio do trânsito. Antigamente, quando isto era episódico, atribuía estas ocorrências à falta de habilidade, ou civismo, dos outros automobilistas. Mas hoje, ainda estava a mostrar o dedo do meio ao sacana do barbudo que se meteu à minha frente na subida para a antiga rotunda do Batista Russo, quando me apercebi que era agora sistémico e dou por mim a pensar: “Espera lá, se calhar sou eu que ando nervoso…”.

Ainda lhe atirei um piropo, envolvendo a mãe dele, mas já não me soube ao mesmo.

Na minha cabeça, já se havia dado o clique. Nada escapa à minha fúria motorizada. Insulto idosos, jovens, mulheres e crianças. Abro generosamente as janelas para que nenhum detalhe dos impropérios escape aos filhos da mãe. Quero que oiçam todas as palavras, que soletro com máximo cuidado, e vejam todos os gestos que teatralmente lhes reservei para ao momento.

Até eu me surpreendo com alguns dos palavrões que profiro, e que juro, até àquele momento desconhecia por completo. E depois há aquele momento embaraçoso… o silêncio quando termina. Olho pelo retrovisor para os meus filhos no banco de trás. Eles tentam disfarçar e parecer distraídos. Como que a dizer-me “faças o que fizeres, serás sempre o nosso pai”.

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O pior pai da minha rua

por Fulano de Tal, em 05.09.14

Anualmente ocorre o momento em que a minha convicção de que sou um bom pai é profundamente posta à prova: a reunião de pais, lançamento do ano letivo. Onde estou neste preciso momento a fingir que estou a anotar com muita atenção tudo o que é dito.

E digo que é posta à prova porque sinto sempre que sou o pai menos preocupado com o que está a ser dito. Sou claramente o campeão do aborrecimento naquela sala. Todos participam, falam, colocam as suas dúvidas. Os pais são bastante ordeiros, esperando sempre que o pai anterior termine a sua questão antes de colocarem a deles. Quando, acidentalmente dois pais pedem a palavra ao mesmo tempo, desfazem-se em encómios, disputando a possibilidade de cederem a sua vez ao outro pai, o que é bastante cómico.

Fico sempre muito atento neste momento. Quero perceber se querem ceder a sua vez, ou ter a última palavra.

Inevitavelmente não partilho qualquer das preocupações evidenciadas, e as dúvidas parecem-me sempre despropositadas. Mas não são, obviamente. Eu é que não consigo subjugar o meu cérebro a preocupar-se sobre se as aulas são no 2º piso como no ano passado, ou se passam para outro piso.

Neste momento há um senhor a falar de artes marciais e da importância disto enquanto complemento formativo. Parece pensar que sem uma adequada formação em shorigi kempo são poucas as chances de os miúdos irem além de uma atividade braçal. Antes dele falou um psicólogo da escola que disse que “provavelmente já conhecia todos os pais”. Olhei para o lado e confrontei-me com o assentimento generalizado na sala. Eu não o conhecia e senti-me bastante incomodado com isso. Pareceu-me até que ele olhou a certa altura para mim, reprovando mentalmente a minha ignorância.

São distribuídos uns papéis que verifico necessitarem de assinaturas e depoimentos juramentados em que declaro a veracidade do que afirmo sobre o meu educando. Sou o único sem caneta. Mais um embaraço quando me fornecem uma caneta roída, por ser a única disponível “para estes casos”. Passei a ser “um caso”. Os restantes pais vêm preparados para esta eventualidade e têm canetas de marcas internacionais, cujas tampas saltam com um pequeno ‘click’.

Há palavas que são repetidas com muita frequência. Quando elas saltam na conversa, eu levanto os olhos do surface, e faço um gesto de assentimento, como se concordasse com a frase proferida, embora apenas tenha sido sobressaltado pelo aparecimento de “pedagógico”, ou “eficaz”, ou “projeto”.

É relativamente complicado voltar a escrever este texto depois destes sobressaltos, pelo que fico por aqui.

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A educar o macho ibérico

por Fulano de Tal, em 16.08.14

“Onde estão as nossas mulheres?” Pergunta o Simão, da cadeirinha de trás, depois de chegarmos de uma saída a dois para falarmos “de Homem para Homem”.

Nem o facto de ter feito xixi nos calções lhe retira o ar de marialva. Receio ter exagerado nos termos em que me referi às nossas responsabilidades, aos nossos justificados anseios masculinos. Tenho em mão um putativo macho ibérico.

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Avaliação de professores

por Fulano de Tal, em 06.08.14

Bem, vamos ao tema odioso da semana. Houve um tempo em que as provas de avaliação dos professores (apenas os contratados com menos de 5 anos de serviço) foram ridicularizadas, por serem de uma simplicidade que rondava a afronta. Eu também alinhei nisto.

A simplicidade era tal que a mim me pareceu uma afronta.

Acontece que 14% dos professores chumbaram. Quatorze em cada cem. A média, entre professores, de uma prova que devia ser respondida com facilidade por qualquer aluno do 6º ano, é de 65%. Não é brilhante.

Mas pronto, passaram, passaram, podem limpar as mãos à parede com o resultado.

Era agora o tempo de refletir sobre estes resultados, e as consequências dos mesmos para o projeto de país que temos. Mas não. Discute-se se os erros se devem à nova grafia imposta pelo acordo ortográfico. Discute-se a validade da prova.

Acontece que a prova teve lugar, e os resultados são conhecidos, e os gajos chumbaram. OS GAJOS CHUMBARAM, MÁRIO! Cerca de 1500 professores chumbaram. Isto dá, a 20 docentes por escola (cálculo que não faço ideia se é real), para fazer 75 escolas, 4 e picos por distrito, cheias destes professores, onde poderão estudar os filhos de quem acha que a prova é estúpida. Estes garotos, cerca de 15 mil (pelas minhas contas de 200 por escola, outro cálculo que merecia melhor estimativa), não saberá preencher um formulário, perder-se-á na rede de metro, nunca acertará a tabuada para além do 4, e interrogar-se-á toda a vida sobre a importância de um livro, ou o sentido da miserável existência a que a formação a que os seus pais os submeteram os condenou irremediavelmente.

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Educação

por Fulano de Tal, em 26.10.13

"Papa, me das una moneda ?"

"Te doy una moneda para cuando veas un pobre. Pero no para eso"

 

Diálogo hoje no Aeroporto de Bruxelas, entre um aparentemente abonado espanhol e o seu fedelho de 8 ou 9 anos. Educação.

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