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Típico jantar de familia em férias

por Fulano de Tal, em 23.07.16

Mesa posta em frente à piscina, noite a convidar.


“Está pronto!”.
Não sei o que significa “está pronto!” para vocês, mas para mim significa que tudo o que havia a ser feito até nos podermos sentar à mesa e iniciar o jantar foi feito. Tudo. Sei-o, logo sento-me.

1 comensal está sentado. Eu.

...

Atrás de mim os mais novos. 3 comensais à mesa, sentados.
“Fulanita de Tal, anda ajudar a levar… <palavras inaudíveis por desnecessárias> ”. Fulanita de Tal levanta-se, Fulanito de Tal inquieto. 2 comensais sentados.

Chega a minha mãe. Traz qualquer coisa que coloca na mesa e senta-se. Atrás dela a Fulanita de Tal, senta-se. Recorde de comensais sentados. 4.

Chega a minha mulher, 5 comensais sentados e o guiness estremece.

Levanta-se a minha mãe. Esqueceu-se de qualquer coisa. “Quero a avó”, levanta-se o Fulanito de Tal e segue a avó. Somos 3, e eu levo grande avanço.

Levanta-se a minha mulher que se cruza com a minha mãe na porta, uma traz uma salada, a outra leva a lembrança de que algo ainda faz falta. Eu não descortino o que falta ainda. Senta-se a avó. O Fulanito de Tal que vinha com avó, distrai-se agora com a mãe. Continuamos 3 à mesa.

Fulanita de Tal levanta-se para molhar os pés enquanto olha para qualquer coisa que acendeu no telemóvel. Chega a mãe.

Eu estou no café.

Por breves momentos foi bom estarmos juntos.

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Ando a ler o livro “Extreme Survivors” ao Fulanito de Tal. São pequenas histórias de resiliência, de vitórias do ser humano em condições adversas extremas. São também histórias desadequadas ao seu cérebro de 6 anos. Mas nem por isso o seu entusiasmo ao ouvi-las esmorece. No final pergunto-lhe o que reteve, e ele lá responde umas coisas.

A primeira história que lhe li era sobre a luta pela sobrevivência de Douglas Mawson, Xavier Mertz e Belgrave Ninnis na sua caminhada de 360 km pela inóspita Antártida. Apenas Dawson se safa, digo-vos já para vos poupar o sofrimento. O Ninnis caiu por uma fenda abaixo, o que é relativamente simples de explicar, mas Mertz… Mertz é tramado. Dos 3 é o que tem o destino mais bizarro. Comeu o fígado do seu Huskie, último alimento disponível.

Ora eu não sabia, mas o fígado dos Huskies, e já agora dos ursos polares, focas e leões-marinhos, contém uma forte concentração de vitamina A, o que provoca uma deterioração física e pior, episódios de demência. Parece que Mawson teve a certa altura de se sentar no peito de Mertz, aparando-lhe os golpes e evitando desta forma que ele despedaçasse a tenda, único abrigo que tinham.
No livro não é mencionado mas inventei uma parte que sossegou o Fulanito de Tal, e em que Dawson suspira longamente de alívio quando Mertz finalmente exala pela última vez.

“Qual a moral desta história, Fulanito de Tal?”
“O que é moral?”
“O que aprendeste depois de ouvir a história?”
“Que não se deve ir para a neve sem comida”. Talvez eu tenha exagerado nos detalhes gastronómicos desta epopeia.

A segunda história é sobre os mineiros Chilenos que ficaram presos numa derrocada de pedras que encerrou os compartimentos superiores da mina. Tem contornos épicos e eu lembro-me de assistir a este drama pela TV. Estiveram mais de dois meses a viver num pequeno compartimento da mina, e passaram mais de 18 dias até que da superfície houvesse sequer a perceção de que se encontravam vivos.

Um pequeno furo, perfurado na rocha a centenas de metros de profundidade permitiu primeiro perceber que se encontravam bem, e depois passar-lhe alimentos, água, medicamentos e até oxigénio.

Foi preciso uma broca maior (isto é uma simplificação minha, para evitar toda a engenharia que descrevi ao Fulanito de Tal, mas que para efeitos deste post me parece descabida) para perfurar um buraco que permitisse içar os homens um por um. Primeiro vieram os mais saudáveis, que puderam descrever à superfície as condições em que se encontravam os outros. Depois os mais doentes.

O último a sair foi Luis Úrzua, o supervisor que fez questão de apenas sair quando todos se encontrassem a salvo. Chegado ao cimo abraçou o presidente do Chile e disse-lhe: “Entrego-lhe estes homens sãos e salvos, tal como lhe tinha prometido” (durante todo o tempo em que o buraco foi sendo escavado, houve intensa troca de mensagens entre a superfície e os 33 homens). Épico.

“O que achaste Fulanito de Tal?”
“Gostei”
“Reparaste como o líder foi o último a sair, e só o fez depois de garantir que todos os outros estavam bem?”
“Sim”. Não sei o que pensar sobre as conclusões que retirou o pequeno Simão desta aventura.
Talvez amanhã lhe leia algo sobre o acidentados do Everest. A ver se o faço antes do jantar.

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