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O assédio inaceitável da MEO aos seus Clientes

por Fulano de Tal, em 28.01.16

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Este é o aspeto da minha lista de chamadas. Dezenas e dezenas de chamadas recebidas nos últimos 3 dias deste número 16206. A cada meia hora o meu telefone toca, e são os gajos. MEO. Ou como eu gosto de lhes chamar: “os fdp da meo”.

Não há nada que eu possa fazer para parar este assédio. Absolutamente nada. Não há Anacom, não há ameaças com a comissão de proteção de dados, nada os comove. Nada os demove.

Por vezes atendo, mas não há sequer ninguém do outro lado. Trata-se de uma máquina que distribui chamadas, explicaram-me. Mas está a distribuir como uma louca chamadas a operadores que não as executam. Do lado de lá: piii….piiii…piiii.

Retirei todos os meus desejos de Ano Novo e substitui-o por este: “quero que a MEO vá para a pqp!”. Espero que Deus esteja atento a esta mudança súbita, e entenda vernáculo.

O pior disto é estar desamparado. Não poder fazer nada. Eles ligam 30 vezes por dia. A máquina diabólica de distribuição de chamadas falhou o teste de Turing, porque o seu comportamento é tudo menos humano. Nem a mais ciumenta das esposas revela tamanha insistência.

 

 

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Dia de eleições

por Fulano de Tal, em 24.01.16

Está cada vez mais difícil votar. Ainda mal tinha transposto os portões da escola secundária quando reparei em três pirralhos vestidos de escuteiros agarrados à minha perna esquerda e armados com calendários. A custo, e aproveitando que não me haviam imobilizado a perna direita, consegui aplicar-lhes um biqueiro e lá os consegui enxotar, para logo ficar perante 3 mal-encarados bombeiros com autocolantes.

 

Fiquei ali 10 minutos ao banano aos bombeiros até conseguir romper. Foi... aí que os pedintes me agarraram. Fui surpreendido pela variedade: um drogado, um velhinho de muletas e uma maluca que fazia sudokus. Engalfinhámo-nos durante os bons 8 minutos, os pedintes e eu. Contra a minha expectativa inicial o drogado deu bastante mais luta que o velhinho de muletas. A sua aparência frágil escondia bastante resiliência. Precisei de usar técnicas de combate que aprendi em filmes do Steven Seagall.

 

O que eu não contava era com a última barreira de ciganos a vender sapatos e sweaters. Antes que a turba de feirantes de bifanas e farturas os pudessem auxiliar, investi contra os ciganos e consegui romper até à mesa de voto.

 

Lá consegui votar no(a) masoquista que será, nos próximos 10 anos, vilipendiado por metade dos Portugueses.

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Torneio de squash

por Fulano de Tal, em 23.01.16

Sem claque, sem patrocínio, sem mais nada a não ser o meu peso ligeiramente superior ao ideal e um cérebro que teima em sugerir movimentos que o meu corpo, embora não o reconheça, já não consegue executar. Eis como me apresentarei hoje no torneio de squash. O terceiro do ano.

“Bacano, se ele fizer um drop, tu moves-te como um relâmpago, deslizas em espargata e afinfas um lob na tromba atónita do gajo”. É isto que o meu cérebro sugere a cada passo. Viu isto em qualquer lado, num torneio de campeões, e pensa: “Se o Gaultier consegue tu também consegues, porra”

O que os meus adversários não sabem quando entramos no court é que é esta precisamente a vantagem que tenho sobre eles: podem vir melhor preparados e com técnica superior, que eu a isso contraponho um total desprovimento de consciência sobre as minhas capacidades, aliado a uma vontade superior de ganhar. Com isto, umas meias de compressão e uns calções justos salto da cama a sentir-me invencível.

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Não sei se usam o Linkedin, mas há ali uma coisa que me deixa um bocado angustiado, que é a fixação com os obituários. Não estou a brincar, por uma vez. No Linkedin há uma turma que se ocupa de lamber o obituário, logo pela manhã, à procura do falecimento de alguém famoso.

Esta malta é também fixada no conjunto de números naturais {1..10} (lê-se: “de 1 a dez”). Deveras. Ao início aquilo passava por mim e eu nem me apercebia, mas agora faço login e dou-lhes logo caça. Eles pro...curam o obituário e eu procuro-os a eles.

Tudo isto seguramente vos parece muito estranho, como a mim no início aliás. De que raio está ele a falar, c’um caraças?

Estou a falar da malta que escreve artigos inspirados em pessoas mortas. Recentemente. Ou recém-mortas. Aquilo é macabro e dou-vos um exemplo: hoje morreu o David Bowie, certo? Então, amanhã no Linkedin uma série de gajos vão escrever artigos com o título: “Os 5 erros que podíamos evitar se tivéssemos ouvido David Bowie”, ou “8 formas de olhar para um balancete de acordo com David Bowie”.

Já foi assim com as “7 lições de gestão de Mr. Spock” e as “4 formas de sobreviver a uma entrevista de emprego de Amy Winehouse” ou os “6 hábitos de BB King que o podem conduzir ao topo”.

Repararam na fixação com os naturais de 1 a 10 ? o 1 até era desnecessário, porque ninguém escreve sobre “A única coisa que o Omar Shariff nos ensinou”. Isso seria tirar mérito ao defunto.

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Uma borracheira descomunal

por Fulano de Tal, em 07.01.16

Não sei bem explicar o que aconteceu ao Austríaco de anteontem durante as… vamos lá, 2 horas em que eu e um par de colegas estivemos à conversa no bar do hotel. O que sei é que quando chegámos ele estava são como um pero e duas horas depois estava a ser arrastado para o quarto por dois baristas sorridentes, enquanto balbuciava algo de ininteligível, tal era a borracheira que levava naqueles cornos.

Sei lá que horas eram. Talvez umas 9 da noite quando chegámos ao hotel depois de uma reunião tramada cujo resultado trará consequências para nós, e decidimos discutir os eventos do dia enquanto bebíamos uma cerveja. Na mesa ao lado acabava de se sentar, sozinho, um fulano de ar atinadinho. Recordo que olhei distraidamente para ele quando nos sentámos, ao que desviou imediatamente o olhar, com alguma timidez.

Eu pedi a minha Westmalle tripple trappist que é servida num copo especial, tipo terrina, e conterá talvez os 33 cl da praxe que contém qualquer vasilhame. O tal gajo ao lado mandou vir qualquer outra cerveja, que se distinguia da minha porque era servida numa caneca de litro. Até comentei com os meus colegas que o fulano era relativamente franzino, e aquela quantidade de cerveja não tardaria a fazer efeito, ao que me foi respondido, por outras palavras que me preocupasse era mais com a minha que era uma tripple e que pelo nome, não se desse o caso de eu ter problemas com aritmética básica, permitia tirar conclusões relativamente ao álcool.

Como em tantas ocasiões, o tempo veio a dar-me razão.

Eu sou um fraco bebedor de cerveja. E se não gosto por aí além, como é o caso destas pesadas belgas, sou capaz de ficar ali a fazer sala e não passar do meio copo. Já o austríaco, estava eu nestas cogitações, havia mandado abaixo a primeira e fazia sinal para a recarga ao funcionário.

Deviam ter passado uns 45 minutos quando saí para fumar um cigarro. O austríaco, outrora tímido, parecia agora mais relaxado e seguiu-me. Estava claro que queria conversa.
“Zvere are ziu frrom?”
“Portugal”
“Ziu spik verry guod Zinglish! Congrratzulazionz”

Eu como tenho jeito para bêbados, lá fui conversando com o gajo e assim descobri que era Austríaco, de Salzburgo e naquele hotel passava uma a duas semanas por mês, em trabalho numa fábrica situada na povoação seguinte de Sint Job. Apresentações feitas, conversa da corda havida, cigarro acabado, paciência para bêbados esgotada, e ala p’ra dentro. Vou eu, e atrás segue o bebedolas, muito satisfeito consigo mesmo pela facilidade com que, na sua turva visão dos acontecimentos, a sua personalidade lhe granjeava grandes e novas amizades.

Ora aqui chegados, já eu o tinha catalogado como bêbado, mas ainda o meu novo amigo tinha a camisa para dentro das calças, articulava frases de razoável coerência, mantinha-se ordeiramente sentado na mesa que lhe havia sido destinada, e não havia urinado nas calças de caqui.

Pequei por antecipação no diagnóstico se é como digo, dir-me-ão vocês, com alguma razão. Não serei um Nostradamus dos bares e tabernas, mas já vi este filme por mais de uma vez. Nalguns casos, longínquos, terei estrelado.
Devo ter permanecido uns minutos absorvido pela conversa. Quando olhei para a mesa, já ele tinha desaparecido. Da mesa, mas não do alcance da vista. Estava agora ao balcão, agarrado aos dois empregados, a ensinar-lhes os fundamentos daquilo que penso serem canções tradicionais da sua região natal. Este olhavam alternadamente para ele e para nós, os outros habitantes deste estranho mundo em Sint Antonius. Quando nos calhava a vez de sermos observados riam como quem diz “Para o que lhe havia de dar…”.

E o triste fim do babarruxo já vocês conhecem porque comecei por aí arruinando a surpresa: uns minutos depois, já esfrangalhado, devidamente urinado e desprovido de qualquer honorabilidade, saiu em braços, não como um vencedor, aplaudido e laureado, mas como um reles bardazinas, alheio aos olhares de comiseração com que optámos por guardar uma última recordação sua.

PS: peço desculpa pela utilização de palavras inventadas por mim mais para o fim do texto, mas tinha esgotado todos os sinônimos de “bêbado” de que me recordava, e não queria parar o curso da história uma vez que ia embalado.

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Impossível fingir sanidade

por Fulano de Tal, em 04.01.16

Um homem comete um pequeno crime. Pode estar perante 3 a 5 anos de prisão. Decide então alegar insanidade, na esperança de ser enviado para um hospital simpático, onde umas enfermeiras jeitosas tratarão convenientemente dele, trazendo-lhe ocasionalmente fatias de pizza. Três semanas ou quatro de medicação e aí vai ele de volta à sua vida, que tem mais que fazer. Assim lho disseram.

Fingir insanidade é fácil. Recorre a guiões de filmes de terror e ficção científica e convence o pessoal médico que o examina que, de facto, está louco.
Talvez tenha exagerado no papel porque ao invés de um hospital simpático é enviado para o asilo psiquiátrico para onde são enviados toda a sorte de psicopatas, violadores, pedófilos e demais vis criminosos.

Nunca mais consegue convencer ninguém de que está são. Como se comporta um homem são? Como se senta um homem são? Ao tornar-se consciente da sua necessidade em aparentar sanidade, todos os gestos lhe parecem exagerados. Ao suaviza-los ficam artificiais. Especialmente naquele ambiente onde todos esperam que se comporte como um louco.

O seu diagnóstico foi feito à entrada, e qualquer que seja a sua estratégia tem certamente uma razoável explicação psiquiátrica: se é amigável com os o que o rodeiam, é visto como “estando a reagir positivamente ao ambiente”, se recusa confraternizar com os restantes, é visto como “estando a ter um comportamento antissocial”. Em ambos os casos recomenda-se a sua permanência na instituição. E ali permanece há 12 anos, convivendo com loucos apesar de se encontrar no seu perfeito juízo.

Um dia resolve agir com naturalidade e comentar os temas do dia-a-dia com a enfermeira, na esperança que esta possa interferir por si. Tinha recebido um número da “Scientific American” em que numa história se relatava como o governo dos EUA estava a treinar zangões para farejar explosivos. Comentou essa história, e como era interessante, com a enfermeira. Pensou ter feito um bom trabalho, até ler no seu relatório médico que alguém havia escrito “Acredita que o exército dos EUA treina zangões para farejar explosivos”.

 

* * *


Gostava de ter pensado nesta história, mas na realidade apenas pensei que era interessante partilhá-la. O livro que ando a ler chama-se “The psycopath test” de Jon Ronson e isto tudo passa-se no único capítulo que li, o primeiro.

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