Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Conto de Natal inspirado numa personagem real

por Fulano de Tal, em 24.12.15

Nunca me tinha apercebido de como o Bruxo era parecido com o Pai Natal até hoje. Um Pai Natal aporcalhado. Na realidade talvez apenas duas coisas os assemelhem. Ambos são gordos e têm uma barba enorme. A barba do Pai Natal imaculadamente branca, a barba do bruxo cinzenta e com a mácula própria da gordura e restos da ceia de anteontem. A barriga do Pai Natal a coberto do seu impecável fato encarnado, a do Bruxo descoberta... pela camisa cheia de nódoas, rota e aberta até ao umbigo.

 

O Pai Natal desloca-se num trenó puxado por renas, e o Bruxo desloca-se numa pequena motorizada, pequena para o seu tamanho e peso. A motorizada move-se por isso sempre com grande esforço e em marcha lenta. À velocidade perfeita para que todos possam olhar e dizer “Lá vai o Bruxo”. Um pouco mais rápido não se daria por ele, um pouco mais lento e ele poderia ouvir-nos e não gostar da graça. A velocidade perfeita para que o cigarro mata-ratos não se apague com a deslocação de ar.

 

Usa um capacete redondo que na sua cabeçorra assenta como um kipá judaico, cobrindo apenas uma pequena parcela do cucuruto. Os elásticos do capacete não dão a volta à sua cara, pelo que ficam dependurados de lado. Espero que o Bruxo nunca precise da proteção do capacete, pois lhe será manifestamente insuficiente.

 

Por vezes a mulher do Bruxo encavalita-se naquela espécie de banco de trás da motoreta, formando um corpo único, de tal forma ela enlaça a sua barriga enorme, como uma carraça enorme acocorada no seu hospedeiro.

 

E lá vai o Bruxo, com a barriga a assentar no depósito da Zundapp, pernas abertas e kipá de metal, com os elásticos, as barbas e a camisa ao vento, e uma carraça enorme acocorada nas suas costas a levar com o fumo do mata-ratos e do escape da motoreta. Vrrumm Vrummm. Aposto que não vai distribuir presentes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os tomates do gorducho da SATA

por Fulano de Tal, em 12.12.15

Imaginem que precisam de ir a Antequera. E até têm um amigo que mora em Sevilha e está disposto a dar-vos uma boleia caso consigam ir pelos próprios meios até à Andaluzia. Têm duas opções:

1. Voam para Sevilha e vão com o vosso amigo de carro. 1 horita e meia.
2. Voam para Málaga e dali a Antequera é rápido.

...

Também existem duas opções de vôos convenientes, tanto para Sevilha como para a Málaga. A primeira opção é ir e vir com a TAP, por 300 Euros. Nada mau. inclui a bucha e com sorte uma edição nova da revista com mais uma crónica do Gonçalo M. Tavares. A segunda opção é ir com a TAP e vir com a SATA, ou ir com a SATA e vir com a TAP.

Os voos da TAP são exatamente os mesmos, o que muda é o da SATA. As opções com a SATA custam 1900 Eur e 2400 Eur, caso seleccionem a ida ou a vinda com eles, respectivamente.

Eu repito: 300 Eur. vs. 1900 Eur (na melhor das hipóteses). Mudando apenas um dos vôos.

A SATA pertence ao Governo Regional dos Açores. Percebo-lhes sagacidade na construção do preço. Perdem anualmente 30 Milhões de Euros (sim, dei-me ao trabalho de ir ver o relatório e contas), e a cada ano perdem mais 40% que no anterior. Mas lá cagança não lhes falta, é só certificações e acção social, e coiso. O desplante de pedir 2400 Euros por um bilhete de avião num percurso de 600 quilómetros é d'homem!

Vou mandar uma carta ao gorducho que serve de presidente de CA àquela chafarica a dar-lhe os parabéns pelo excelente par de tomates que apresenta.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Inovação em Portugal

por Fulano de Tal, em 11.12.15

Encontro Nacional de Inovação, há meia dúzia de dias.

600 Inscritos. Mais de 90% de fato e gravata. Todos cinzentos e azuis. Média de idades ronda os 60 anos. Automóvel mais frequente: BMW série 5 (e acima). Motoristas. Muitos. Cerimónia de encerramento pelo Presidente Cavaco. Local: Culturgest.

Lêem-se discursos a partir de folhas de papel. Não faltam os ministros, secretários de estado. Ouvi mesmo um agradecimento à presença dos “representantes do corpo diplomático”. Que raio fazem aqui? Convidados a orar, empresas que gastam muito dinheiro em inovação.

Entretanto lá fora putos que andam de bicicleta desenvolvem, sem dinheiro, ideias geniais. Não podem participar porque não têm gravata, nem BMW, nem motoristas que os tragam até aqui. Mesmo que tivessem não podiam discursar, encantar-nos com as suas ideias e entusiasmo. Porque não conseguem provar perante conselhos consultivos que ideias e entusiasmo valem muito mais que dinheiro.

Felizmente este não é o retrato da Inovação em Portugal. Este nem é um retrato. É um quadro. Pintado por quem se apoderou da palavra Inovação, mas é incapaz de se apoderar do seu significado. Um quadro fatela e sem chispa nenhuma.

Falam de startups. Aposto que não conhecem nenhuma. Apetece-me perguntar ao ministro “Sôtor Caldeira Cabral, diga-me aí o nome de uma startup”.

Entra o CEO da Frulact.

"Nós na Frulact" (diz o CEO da Frulact) "temos uma equipa de ID a analisar aqui que será a nossa dieta daqui a 10 e 20 anos e temos acesso a informação importante e até surpreendente. Dou-vos um exemplo, temos falado muito em proteínas, primeiro a animal e depois a vegetal. Pois nós já estamos a trabalhar na proteína dos insetos. E na Frulact já podemos provar iogurte por exemplo de grilos e gafanhotos."

(Sala ri-se nervosamente, sendo audíveis vómitos provenientes da 6ª fila).

Adeus Frulact. Foste uma empresa muito inovadora e depois morreste afogada em inovação.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Igualdade de género

por Fulano de Tal, em 07.12.15

Lamentavelmente não consigo adicionar ficheiros Mp3 aqui. Porque estive 10 segundos a gravar o som ambiente de um local onde estive. Se no final deste post tiverem interesse em ouvir, posso enviar-vos por email, se o deixarem na caixa de comentário.

Eu sou um grande fã da igualdade de género. Mas estou convencido por outro lado que por mais que eu faça em prol desse desígnio, existem coisas que nós Homens não conseguiremos nunca igualar.

Hoje estive numa reunião em Bruxelas, num sossegado centro de conferências. Salas hermeticamente insonorizadas, ambiente calmo, tranquilo. Fui ali trazido por um táxi elétrico e um condutor com quem não troquei uma palavra. Mesmo as máquinas de café, extremamente silenciosas. Com todo o processo a decorrer perante os meus olhos (torrefação do café, moagem do grão, infusão quente), nada mais ouvia que o tranquilo verter do café nos copos e o chilrear de uns pássaros na rua. Os copos, de papel, absorvendo o impacto das gotas de café com um suave "pop" "pop". Na realidade, talvez a torrefação não fosse feita ali e se tratasse apenas da minha imaginação, embalada pela taciturnidade do local, a insinuar partes do processo que obviamente não pertencem numa máquina Lavazza.

Numas das ocasiões em que me escapuli da sala, a pretexto de atender um telefonema urgente, cruzei-me com o coffee break de outra reunião que decorria ao lado. “Women in Leadership” era o nome deste acontecimento que reunia dezenas de mulheres com ares de executivas.

O silêncio quase bucólico do local havia sido rompido por um som permanente que fazia a nossa reunião parecer-se com um encontro de monges budistas. O barulho não se media em décimos de bel, mas em bel's inteiros. Vários.

Mulheres, muitas mulheres falando ao mesmo tempo, alto, rindo, interrompendo-se alegremente. Gritos, animação, muita. Aquilo que entre homens seria considerado desrespeitoso até, era ali um sinal de vibrante atividade.

Nunca conseguiremos nós, reunindo apenas homens, igualar a vibrante azáfama de um encontro de mulheres. Pena que não possam ouvir a minha gravação.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Deixe o seu comentário caso tenha gostado de passar por aqui