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A vida dura de um caixa do Starbucks

por Fulano de Tal, em 19.11.15

“To drink here or to go?” Foi esta a pergunta que eu não antecipei. Ou melhor, o que não antecipei foi o impacto da minha resposta.

Respondi sem chispa: “I’ll drink here”. E com isto, tão simplesmente, toda a minha estratégia ruiu.

Deixem-me voltar um pouco atrás.

...

Aeroporto de Bruxelas e eu com algum tempo uma vez que ele se juntarão umas pessoas que chegam apenas daqui a umas horas. Resolvo passar um pedaço no Starbucks, pelo café e pelos watts que generosamente brotam das fichas junto à parede.

Na fila apercebo-me do trabalho ingrato que cabe a um caixa do Starbucks num aeroporto.

“What’s your first name sir?” “Arhippa”.
“What’s your first name, madam?” “Gökçek”
“What’s your first name, sir?” “Bröndólfur”

Escrever o nome próprio dos viajantes nos copos de papel é a última coisa que queremos estar a fazer num hub internacional de transporte de passageiros, podem crer. Esta ideia de escrever o primeiro nome é ótima quando as pessoas se chamam Mark, Paul, Joe, Mary, Ann, como qualquer Americano. Mas experimentar isto em Islandeses, Turcos, Senegaleses já não é tão brilhante.

Ali começou a germinar o meu brilhante plano. Simples. A executar em 2 passos:

1. Quando questionado, diria que o meu nome era Bill. Este primeiro passo visava o vislumbre de um suspiro de alívio na face do caixa. Especialmente porque à minha frente na fila esperava a sua vez o gigante Bröndólfur.
2. Tiraria uma foto ao copo com o nome Bill e contar-vos-ia a história. Este segundo passo visava o gáudio passado o momento de rebeldia.

“What’s you first name, sir?”
“Bill” (riso nervoso)
Caixa olha para mim surpreendida. Não quer acreditar, depois de perder 5 minutos em explicações sobre tremas e terminações nórdicas com o Islandês.
“To drink here or to go?”
Ainda nervoso respondo “I'll drink here”.

E foi neste momento que o meu plano ruiu, porque um expresso para beber no local é servido numa chávena de vidro.

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O meu desprezo por liliáceas sem valor

por Fulano de Tal, em 07.11.15

Em minha casa comíamos até ao fim o que estivesse no prato. Normalmente cabia à minha mãe dosear as quantidades e ela tinha a precisão de uma norma ISO, mas isso era indiferente. Mesmo que lhe escapasse a mão, o que houvesse no prato tinha de se comer até ao fim.

Se não me apetecia, tinha de ouvir a lenga-lenga: “tantos meninos que não têm o que comer”.

E não importava se gostava muito, pouco ou nada. Se era um suculento arroz de cabidela, ou um execrável pirão. Estava no prato, marchava para o bucho. Porque havia meninos que nada tinham para comer.

Aprendi a respeitar os alimentos por causa disto. Se tenho de cozinhar, descasco as batatas retirando apenas uma película da casca, quase transparente. Não por qualquer preocupação com os nutrientes, ou por ser poupadinho, mas porque me está nos genes não desperdiçar comida. Se o pão dura de um dia para o outro, faço torradas. Mesmo para com ingredientes que não ingiro tenho deferência e custa-me ver comida desperdiçada.

Exceto, e é este o tópico deste post, cebola. A cebola inspira-me pouco mais que desprezo e desdém. Desde logo pelo preço. Enche-se um saco com cebolas e paga-se pouco mais de meia dúzia de cêntimos. Os próprios produtores valorizam em nada o suor que dedicam a esta miserável raiz.

Eu uso meia cebola num refogado, cortada em 3 rodelas grandes passíveis de remoção rápida. Mas lá está, o meu menosprezo pelas liliáceas em geral, mas esta em particular, faz com que não aproveite a segunda metade. Corto ao meio sem cuidado, e o resto que não uso vai fora. Se estou a mais de dois metros do lixo, encesto dali mesmo como o Michael Jordan.

É este o pouco-caso que faço da cebola.

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Noticias antiquadas

por Fulano de Tal, em 02.11.15

A ver a notícia das cheias em Albufeira dou-me conta de como é antiquada esta forma de “dar” notícias. Tão previsível.

Grandes planos da tragédia filmada de um local alto. Essencial capturar rápidos de lama e água da chuva. Transeuntes observam preferencialmente envoltos em capas de plástico de cores garridas, sendo o amarelo e o laranja os favoritos televisivos.

Entra o popular que vive aqui há um porradão de tempo e nunca viu nada assim. Garante que há 15 ou 20 anos houve q...ualquer coisa, mas nada que se assemelhasse.

Entra o político local a expressar consternação, dar conta do caráter extraordinário e imprevisível do fenómeno, o que o iliba de responsabilidade, e a clamar por calamidade pública para sacar o subsídio.

Entra o especialista que debita com autoridade generalidades. Preferencialmente um professor universitário. Garante que o fenómeno se deve à precipitação de x milímetros cúbicos em poucos minutos. Fala nos inevitáveis coletores e de como são estreitos. Fala da necessidade de permeabilizar as cidades já de si tão impermeáveis. Espaços verdes.

Entra o político nacional. Também consternado e a prometer solidariedade e uma análise rápida à situação e se necessário for, mobilizar meios.

Termina com imagens de populares a limpar lama das casas.

* * *

Eu dispensava tudo isto porque tudo isto eu já sabia. Que as cheias são assim, com água. Que a memória dos populares é curta. Que a vontade dos políticos é aparecer como se estivessem ao lado das vítimas não à sua frente, explicando-se. Que se os coletores fossem largos a água escoava. Que se existissem mais espaços verdes a água drenava por ali.

Eu cá dava as notícias de forma diferente. Informava-se à mesma, mas dispensava-se o especialista em generalidades, o politico local e o nacional, e o popular que nunca viu nada assim. Havia espaço para o inglês que apesar da tragédia se cobriu de creme protetor solar e foi para a esplanada arruinada esperando serviço. Havia planos subaquáticos de objetos pessoais submersos. E havia espaço para viagens às cavalitas do bombeiro nas motas de água.

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