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“Suturamos, Drª?” Cerro os olhos com força. Porque é que as auxiliares dos dentistas falam sempre no plural, como se elas fossem fazer o trabalho de ortodontia? A mim, que já entro nervoso, não me descansa nada.
“Arrancamos?”, “Bochechamos?” Agora o plural envolve-me a mim também. É como se os três, eu, ela e a dentista, tivéssemos de executar esta tarefa a 6 mãos. Ou a 3 bocas. Quem sabe com a mesma água.

“Isto está bonito. É o do siso. Já não tem coroa.” Logo eu que sou mo...nárquico. Um dente sem coroa. Arranque-se, porra!

“É como quiser”. Diz a doutora.
“Como eu quiser, Drª?!”
“Sim, se quiser arrancar, arrancamos. Se quiser deixar ficar, faz só antibiótico e depois vem ao Dr. Pedro”

“Sabe, a mim dói-me. Por isso vim cá. Desenvolvi este raciocínio maluco de que se mo arrancar deixa de doer”.

“Então, vá. Sente-se aí novamente”. Saca dos instrumentos. O meu pé começa a bater no fundo da cadeira. “Está nervoso?” “Muito”.

“Esta é a pior parte”. Reteso-me na cadeira. Sinto os abdominais a contraírem-se, pela primeira vez desde aquela ida ao ginásio, em 1994. Sustenho a respiração. Sempre de olhos fechados. Acredito com toda a força que sou capaz de suster a respiração durante todo o procedimento, e que esse facto auxilia na prevenção da dor. Não sei porquê.

“Não esteja nervoso, quanto mais nervoso fica mais lhe vai doer”. Fico mais nervoso.

Sinto o líquido amargo a escorrer pela garganta enquanto a língua ameaça ruir para uma das bochechas e ali ficar, inane.

“Bochechamos?”, diz a auxiliar. Não tenho forças nem fôlego para gracejar com aquilo embora me apetecesse. Bochecho sozinho o que parece não causar estranheza à fulana.

Ruídos de esmalte a partir-se. “Não se assuste, é mesmo assim”. É mesmo assim mas não devia ser. Esta prática selvagem já devia ter avançado com a civilização e não ter ficado ali, parada no tempo, à mercê de seringas e alicates. “Se estiver a doer diga, que temos ali muita seringa com anestesia”. Esta afirmação não me tranquiliza, e ensaio nova apneia, enquanto enfio as mãos, de punhos cerrados, nos bolsos das calças. Era aquilo ou um murro na tromba da Drª.

“Pronto. Com o dente veio um bocadinho de osso e estou só a retirar as aparas do osso”. Decido-me pelo murro na tromba. Estou a tirar as mãos das bolsos das calças quando oiço “Bochechamos?”

“Não”, diz a Drª. “Hoje não vai bochechar. Nem fumar, nem comer sólidos”. Aparentemente a Drª acaba de me safar da inépcia da auxiliar que me podia ter matado com aquele bochecho solidário. Volto a meter as mãos nos bolsos sem que ela perceba as minhas intenções originais.

Agora já estou nos braços dos meus melhores amigos. Clavamox e ben-u-ron que me faz sempre lembrar o Charlton Heston.

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