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Maggie, a pequena octópode de 8 mm

por Fulano de Tal, em 22.10.15

Maggie é uma pequena aranha que há dois dias não faz outra coisa senão tecer finos fios de seda entre o volante do meu carro e as minhas orelhas. Se a pudesse dispor, totalmente espalmada e com as suas patitas estendidas sem a aleijar, o que apenas é possível em abstrato, não mediria mais que 8 mm, de ponta a ponta. Mas a sua capacidade para tecer e equilibrar-se na sua obra é incrível.

 

Há dois dias que ando em viagem e lá anda ela, do volante para a minha orelha e depois par...a o volante. Nunca percebi como é que ela faz o primeiro percurso até à minha orelha. Ou se sempre esteve na minha orelha e apenas se desloca para o volante quando finalmente chego ao carro. Quando dou por mim, estou na portagem dos Carvalhos e o fio já está tecido e Maggie encavalitada nele. Não creio que tenha a pretensão de caçar quaisquer insetos no meu inóspito automóvel. Espero estar enganado, não vá aquilo ser afinal o Tromba Rija dos pulgões e outros afídios.

 

Sei que é um octópode, porque hoje entre Antuã e a Mealhada se deixou balançar indolentemente no fio que ela própria teceu e pude contar-lhe as patas. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8. 8 patas. Octópode. E é tudo quanto sei sobre ela. Na realidade nem sei se é uma ela. É apenas um desejo que formulo porque sei que no mundo dos artrópodes é frequente as fêmeas em algum momento devorarem os machos. Que desperdício de sensibilidade teria sido eu poupar esta boa aranha durante dois dias para acabar devorada por uma amante.

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“Suturamos, Drª?” Cerro os olhos com força. Porque é que as auxiliares dos dentistas falam sempre no plural, como se elas fossem fazer o trabalho de ortodontia? A mim, que já entro nervoso, não me descansa nada.
“Arrancamos?”, “Bochechamos?” Agora o plural envolve-me a mim também. É como se os três, eu, ela e a dentista, tivéssemos de executar esta tarefa a 6 mãos. Ou a 3 bocas. Quem sabe com a mesma água.

“Isto está bonito. É o do siso. Já não tem coroa.” Logo eu que sou mo...nárquico. Um dente sem coroa. Arranque-se, porra!

“É como quiser”. Diz a doutora.
“Como eu quiser, Drª?!”
“Sim, se quiser arrancar, arrancamos. Se quiser deixar ficar, faz só antibiótico e depois vem ao Dr. Pedro”

“Sabe, a mim dói-me. Por isso vim cá. Desenvolvi este raciocínio maluco de que se mo arrancar deixa de doer”.

“Então, vá. Sente-se aí novamente”. Saca dos instrumentos. O meu pé começa a bater no fundo da cadeira. “Está nervoso?” “Muito”.

“Esta é a pior parte”. Reteso-me na cadeira. Sinto os abdominais a contraírem-se, pela primeira vez desde aquela ida ao ginásio, em 1994. Sustenho a respiração. Sempre de olhos fechados. Acredito com toda a força que sou capaz de suster a respiração durante todo o procedimento, e que esse facto auxilia na prevenção da dor. Não sei porquê.

“Não esteja nervoso, quanto mais nervoso fica mais lhe vai doer”. Fico mais nervoso.

Sinto o líquido amargo a escorrer pela garganta enquanto a língua ameaça ruir para uma das bochechas e ali ficar, inane.

“Bochechamos?”, diz a auxiliar. Não tenho forças nem fôlego para gracejar com aquilo embora me apetecesse. Bochecho sozinho o que parece não causar estranheza à fulana.

Ruídos de esmalte a partir-se. “Não se assuste, é mesmo assim”. É mesmo assim mas não devia ser. Esta prática selvagem já devia ter avançado com a civilização e não ter ficado ali, parada no tempo, à mercê de seringas e alicates. “Se estiver a doer diga, que temos ali muita seringa com anestesia”. Esta afirmação não me tranquiliza, e ensaio nova apneia, enquanto enfio as mãos, de punhos cerrados, nos bolsos das calças. Era aquilo ou um murro na tromba da Drª.

“Pronto. Com o dente veio um bocadinho de osso e estou só a retirar as aparas do osso”. Decido-me pelo murro na tromba. Estou a tirar as mãos das bolsos das calças quando oiço “Bochechamos?”

“Não”, diz a Drª. “Hoje não vai bochechar. Nem fumar, nem comer sólidos”. Aparentemente a Drª acaba de me safar da inépcia da auxiliar que me podia ter matado com aquele bochecho solidário. Volto a meter as mãos nos bolsos sem que ela perceba as minhas intenções originais.

Agora já estou nos braços dos meus melhores amigos. Clavamox e ben-u-ron que me faz sempre lembrar o Charlton Heston.

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Molho de mostarda

por Fulano de Tal, em 05.10.15

“Blá blá blá blá blá… e de entre os condimentos que constam da carta para acompanhar o bife escolhemos o molho de mostarda.” Pedido feito. Sorrisos.

 

Minutos depois inicia-se a satisfação do pedido. Blá blá blá blá blá… bifes. Não se avistando o molho de mostarda interroga-se o funcionário. “O molho de mostarda?” Molho de mostarda. Molho de mostarda. Molho de mostarda. Funcionários questionam-se numa hierarquia que vai da camareira ao chefe de sala e de volta à camareira. O molho de mostarda já vem.

 

Passam-se alguns momentos e é apresentando um pires com uma borrifadela abundante de mostarda. Olhares de surpresa entre os comensais. “Se eu tivesse pedido o molho de cogumelos surpreender-me-ia com dois magníficos cogumelos acabados de colher?”. Piada não colheu qualquer reação. “Isto não é molho de mostarda. É mostarda”. Pois que não pretendíamos mostarda mas sim um molho que tornasse o bife suculento.

 

Mostarda. Mostarda. Mostarda. Voltam os cochichos entre funcionários, hierarquia acima e hierarquia abaixo. Tinha havido um engano. O molho estava a ser preparado e desta vez estaria acima de qualquer crítica. Palavra de camareira. Sorrisos cúmplices entre camareira e comensais.

 

Mais um pedaço adiante, chega uma pequena taça fumegante com mostarda liquefeita pela ação exclusiva de um micro-ondas. Pude comprovar isso mesmo, colocando o indicador primeiro na taça e depois no palato. “Oiça: o facto de aquecer a mostarda não faz da mostarda menos mostarda. O facto de ela mudar de estado e ser agora liquida, não chega para configurar um molho”.

 

Mostarda liquida. Mostarda liquida. Mostarda liquida. Azáfama entre funcionários que segredam entre si e olham para nós. Funcionária sénior acerca-se da mesa. “A cozinheira é nova. Não sabe como se prepara o molho”.

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