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Meu pai na Corredoura

por Fulano de Tal, em 06.08.15

Trata-se de uma história contada pelo meu pai, num dia raro em que ele se sentou bem-disposto numa esplanada e desatou a conversar. Procurei manter a linguagem o mais aproximada da realmente usada, bem como as pausas dramáticas, sem as quais isto não seria uma história, ou seria uma sem jeito nenhum. Passei-a a limpo como me lembrei, depois li-a, ri-me como não me ria há muito tempo e decidi, hesitante, partilhá-la. Tem um certo ar pitoresco, e ao mesmo tempo soa a lição de vida. Se é susceptível a linguagem de carroceiro, o melhor é não ler.

 

Olha, uma vez fui à Corredoura. Tinha este braço… olha, ainda aqui tenho a marca (apontando para o cotovelo). Tenho uma cicatriz, levei um coice da mula lá na quinta. E depois, este osso ficou logo aqui de lado, mas eu não disse nada ao meu pai.” “Ao fim de um mês não dobrava o braço.” “Para comer, pegava na ponta da colher e fazia assim… “ olhos arregalados, o braço estendido segurando uma colher imaginária entre o indicador e o anelar, e a cabeça movendo-se lentamente ao encontro da colher. (risos) “Já andava assim há um mês e tal, o osso está assim, de lado, e depois encarnou naquele sítio… “

Um dia à noite, a minha irmã mais velha diz assim: “Óh pai, olhe como o Necas faz para comer”. Olhou para mim, olhos bem abertos, como que se subitamente sobressaltado.

“O senhor faça lá!” Peguei na colher imaginária, braço bem estendido, olhos arregalados, e lá fui novamente com a boca na direção da colher imóvel.

“Isto é que são umas bestas. Cara… anda um gajo aqui…“, não sei quê, “para ficarem bons … são uns aleijados.”

Chega-se ao pé de mim, manda-me um estalo ao focinho, c’um ca&%$o… virei logo o pescoço para o outro lado.

No outro dia, Corredoura. Que eram os gajos, os Coelhos, os velhos Coelhos, dois irmãos já velhos, mas cuidado! Para consertar ossos… fui lá por isto (aponta para o joelho), fui lá por isto (aponta para o cotovelo), o meu pai também lá foi, e o meu irmão … quando a gente tinha um osso fora do lugar: Corredoura.

O gajo … viu o que era.. não é ? Viu que isto já estava encarnado noutro sítio. Disse para o meu pai:

“O senhor passa aqui para trás”, e lá lhe piscou o olho, não falou com ele, mas piscou-lhe o olho, como que a dizer: ”Agarre-o com força!”

E ele põe-se aqui à minha frente, sentado num banco. Eu com as pernas dentro das dele. O gajo manda-me assim esticar o braço, palma para cima, com uma mão pressiona o cotovelo para cima, e com a outra puxa a palma para diante. Piscou o olho ao meu pai, para me agarrar, e de repente “trás!”

Catano, carrega-me aqui no osso que ele foi mesmo para o sítio. Até deu um estalo. Só que eu com aquela dor, pumba, dei-lhe uma canelada que o gajo ficou do car&%$o….” (risos) Não é que o gajo vai e “trás!”, manda-me um chapadão, que fiquei com as trombas…. Eu nem via, até vi estrelas. (mais risos)

Fez-me dobrar o braço pela dobradiça uma data de vezes, mas eu à primeira vez, apanho o gajo pela canela, e o gajo dá-me aquele estaladão. O meu pai depois disse-lhe:

“Oh senhor Coelho, também não era preciso fazer isso”. Pareceu-lhe mal. ”Oh senhor Coelho… oh”…

Depois ele disse para o meu pai: “Agora o senhor, duas vezes por dia, faz-lhe o mesmo”, referindo-se a dobrar o braço várias vezes pela dobradiça. Olha, a minha mãe fugia de casa. Chamava dois homens lá da quinta, dois servos, para me agarrarem. E o meu pai como era rude, levantava-se, agarrava-me como o outro lhe tinha dito, e trás, trás, trás… várias vezes, e eu c’um ca&%$#o… as dores que eu passei. Andei 15 dias assim, primeiro que o osso ganhasse …. ganhasse… e depois já ia sozinho, o braço a dobrar lentamente e o meu pai a dizer: “atar o nó da gravata, vá”.

A minha mãe fugia, quando chegava àquela hora, a minha mãe fugia, para não me ouvir gritar. O que eu passei quando era garoto. Se fosse preciso a gente atirava-se dali de cima da eira, para cima da carroça com palha, mas se a palha era pouca, lá iam os artelhos pró galheiro.

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