Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Statler e Waldorf

por Fulano de Tal, em 21.08.15

Só me lembram o Statler e o Waldorf, estes dois. O primeiro tem um cabelo totalmente penteado para trás, ligeiramente comprido e totalmente grisalho, besuntado com o que deve ser uma cera extraforte. Azedo e sabichão. O segundo tem uma farta cabeleira desgrenhada, totalmente branca, e uma barba também totalmente branca. É simpático e sorridente.

Em conjunto devem ter 140 anos, para cima.

Quando os encontro de manhã à porta do escritório, o primeiro responde às minhas saudações com um seco “Bom dia”, e o segundo com um caloroso “Ora viva, está bom? Bom dia!”. Penso que são uma espécie de guardiões de um dos espaços, que pertence a uma obscura associação empresarial que pelo nome e mercado em que se move, conta com 2 associados, talvez três. Digo “guardiões” porque estão sempre na porta da rua. O primeiro a fumar e a falar, e o segundo a fazer companhia, ouvindo.

O primeiro veste uns fatos claros e normalmente uns sapatos de verniz bicudos e com atacadores. Ficam-lhe mal e dão-lhe um ar sombrio que condiz com o seu discurso. O segundo veste umas calças garridas (podem ser vermelhas, como hoje), com sapato de vela e um polo. Hoje abdicou das meias.

O primeiro, independentemente do que a sua razão observa, conclui sempre o que seu preconceito pré-determinou. O segundo é mais conciliador, mas como não quer criar mau ambiente com este seu improvável companheiro, vai assentindo e argumentando até capitular perante a veemência de Statler.

Habitualmente o primeiro está a discursar sobre uma qualquer ocorrência, carregando-a de conotação política, ainda que despropositadamente. É sarcástico e duro, nunca se ri, e se passo por ele eleva a voz, cooptando-me como ouvinte. Faz questão que eu saiba o que ele pensa sobre as empresas que se dedicam a fabricar o salame que é vendido nas máquinas de vending do 1º piso. “Se aquilo faz mal à saúde, devia haver um governante que tivesse a coragem de proibir aquilo de ser vendido. É ou não é !?!?!” Olha-me de soslaio. A pergunta, embora retórica, é para mim.

É precisamente quando eu passo que ele se torna mais agressivo, sarcástico e assertivo.

O avô da Heidi vai ouvindo. “Mas se há quem goste de salame… olhe que cada um tenha a liberdade de optar”. Olha para mim, como que a pedir-me que entenda que embora estejam juntos eu não o devo julgar pelo comportamento do outro.

“Mas você acha que as gentes são capazes de optar pelo que é melhor para elas?!!?!!? É preciso é coragem e pulso forte, que é o que não existe neste país.” Ai este país… é tão maltratado por ele.

“Pois. Talvez não sejam… Ora viva! Está bom? Bom dia!”

Autoria e outros dados (tags, etc)

Observador

por Fulano de Tal, em 20.08.15

Hoje ia-me passando com o fulano ao nosso lado na praia. Não era alto nem baixo. Não era velho nem novo. Talvez uns 35 anos. Sempre a olhar para mim, e a rabiscar não sei o quê num papel, furiosamente. Olhava, rabiscava. Olhava, rabiscava. Se eu ostensivamente o encarava, ele desviava o olhar, nervoso. Todo ele tremia. Nunca tirou as sandálias e as meias, como que a pensar que poderia ter de abandonar a qualquer momento. Quando finalmente se foi embora deixou cair acidentalmente o papel em que rabiscava, e afastou-se amparado por um casal idoso que presumo serem os seus pais.

O que se segue é o que lá estava escrito (ainda estou todo arrepiado): “O meu nome é Monteiro. Raramente cometo erros como o de hoje. Eu cá não sento onde calha quando chego à praia. Por isso fico uns bons 5 minutos ali em cima, a olhar para as clareiras na areia, e tentando organizar os banhistas mais próximos pelas respetivas profissões. Na praia o profissional oculta o seu ofício. Transforma-se naquilo que ambiciona ser, e não revela aquilo que afinal é. E esse é o meu mister. Vejo a realidade despida de toda essa ocultação. Detesto ficar, por exemplo, ao lado dos trolhas. Não por lhes adivinhar humilde condição, mas porque em menos de nada estão a construir castelos para as crianças. Os castelos dos trolhas têm rebites manuelinos e outra ornamentação que nenhum outro profissional se propõe executar. Na ausência de uma boa betoneira, revela-se o artesão, o artista. Ou contabilistas. Os contabilistas são outros que evito. São fáceis de detetar, porque vivem em permanente excitação debaixo dos seus chapéus de cores muito garridas. Vertem caipirinhas e buscam aventura em cada decisão. São os primeiros a alugar gaivotas. Querem fazer todas as excursões, e suspiram para que o barco naufrague, que a banana vire, que o parapente se despenhe. Algo que traga agitação às suas miseráveis vidas. Escolhi hoje, como sempre faço, a clareira orlada pelos biscateiros com família, pelos polícias, pelos lavadores de janelas com cordas. Gente com vidas agitadas e que apenas quer descansar. E agora estou aqui e à minha frente quem vejo? Gostava de responder, mas este fulano intriga-me como o raio. Por um lado parece um rufia, igual aos outros que por aqui andam, e parece querer descansar, mas a cada 5 minutos é levado pela mão pela versão mínima dele próprio, e submerge mar adentro com o garoto ao colo. Depois volta. Vai e volta. Vai e volta. Já fez isto mais de 10 vezes e só estamos aqui há 2 horas. Parece querer descansar mas não descansa. Parece infeliz quando é forçado a ir, mas vem feliz no retorno. E depois hidrata-se, mas com o que parece ser um sumo de pera. Será um tendeiro, um barista? E o que é aquilo? Uma sande de pão com chouriço? Será um chef famoso? Procuro as ocultações mas este eu não decifro. Com quatrocentos mil diabos zarolhos, que fará este homem? Mãe, mãe, temos de ir, temos de ir…”

Autoria e outros dados (tags, etc)

História universal para xoninhas

por Fulano de Tal, em 20.08.15

Se há área onde conto, de entre os meus amigos, com alguns dos mais geniais profissionais em Portugal (e isso, nesta área em concreto, equivale a dizer “dos melhores do Mundo”), é a área das tecnologias de informação.

Foi com estes xoninhas que aprendi muitas das coisas que hoje julgo saber.

E quero retribuir aos nerds com uma pequena história que lhes dirá muito, e que julgo poucos conhecerão, porque nunca foi escrita em pseudo-código, e os marrões têm pouca paciência para histórias: a origem do nome Bluetooth, para designar a tecnologia que usamos hoje nos telemóveis, etc.

Harald Blåtand.

Harald Blåtand, ou Haroldo I. Blåtand, que se foi traduzindo por Dente Azul, ou Blue Tooth. Consta que ganhou este nome pela sua predileção pelo consumo de mirtilhos, ou simplesmente por erro de tradução para o inglês, uma vez que em Old Norsk teria mais o significado de “pele escura”.

Unificou as tribos vikings Norueguesas, Suecas e Dinamarquesas, cristianizando-as (os maiores pagãos da história, note-se), em apenas 10 anos. É essa unificação que se pretende homenagear, numa tecnologia que unifica a comunicação entre sistemas digitais.

O logo do Bluetooth, é aliás construído por duas runas, que representam as iniciais do seu nome: a Hagall, e a Berkana.
Vá marrões, continuem lá o bom trabalho, e esta noite comentem esta história nos vossos fóruns, em binário, ou lá onde é que vocês passam as noites.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Individuos na posse de informação privilegiada

por Fulano de Tal, em 19.08.15

Deve ser a minha expressão corporal, ou uma feromona qualquer que exalo, mas julgo poder dar por confirmado que atraio homens de meia-idade que se encontram na posse de informação privilegiada.

É verdade. Não atraio por exemplo, indivíduos que não possuam outra informação para além daquela que é pública. Apenas homens na posse de informação sensível, à qual apenas eles tiveram acesso.

Por alguma razão que desconheço, uma vez na posse dessa informação, esses homens sentem uma urgência em partilhá-la comigo. Não se trata contudo de uma pedagógica partilha. Estes homens pretendem dominar-me com a informação. São como umas Dominatrix barrigudas, de meia-idade e barba de 3 dias. E sem as calças de couro negro.

Um exemplo. Chego à praia, armo o chapéu, largo a cadeira e detenho-me uns segundos a avaliar o estado do mar. “Estacionou ali?”, uma voz ao meu lado. Viro-me, e vejo um fulano de calções e óculos escuros espelhados, ainda a apontar para o local onde deixei o carro. “Sim…” “Esta praia tem 4 passadiços. Este é o último deste lado. O primeiro do lado de lá, está a ver? Ao pé da bandeira ao fundo… Aí é onde a praia é melhor. Não tem tanta gente” “E porquê?” “Porque aqui o parque é gratuito e ali é pago”. Ficamos os dois em silêncio, a matutar na informação. Ele arranca para o lado da praia onde se está melhor, e eu fico ali, no lado dos pelintras que não pagam estacionamento.

Outro exemplo. Vou ao supermercado. Enquanto a prole faz o circuito frutas, padaria, peixaria, carnes, cereais, eu dirijo-me aos vinhos. Fico ali indeciso a ler os rótulos. “Olhe que esse é verde”, ao meu lado um individuo de calções e óculos escuros espelhados no topo da cabeça. “É”. “Se vai escolher um verde, leve aquele”, apontando para uma garrafa lá atrás. “É melhor?” “Eles colocam todos estes à frente porque têm um contrato melhor com o produtor, e querem que a gente os leve, mas se afastarmos a primeira fila de garrafas, encontramos os melhores vinhos.” Fico a ler o rótulo da garrafa que me indicou, enquanto ele se afasta. Consigo vê-lo no canto do olho, a falar com a mulher e apontar para mim. Parece-me que riem ambos, mas não sei de quê.

Ainda um terceiro exemplo. Passeio pela vila, depois do jantar. Acerco-me de uma pastelaria que me parece ter bom aspeto.

“Um café e um…”, ia a apontar para o jesuíta na montra, quando uma mão me impede o movimento. Ao meu lado um homem de calções e óculos de ver ao longe, agarra-me firme o dedo. “Se quer um jesuíta, vá ao Carmelo, é três portas mais à frente e tem os melhores jesuítas do Algarve”.

“Por acaso ia…”, tento soltar o dedo daquele grip firme, o que consigo a custo.

“Estes não são frescos?”

“Frescos são. Disso não há dúvida. Mas no Carmelo parecem derreter-se na boca. Antigamente eu comia jesuítas onde calhava. Agora sou capaz de me guardar 3 semanas se sei que vou passar por aqui, só para ir lá. Aqui só bebo café e bebidas engarrafadas… por causa da esplanada”.

E isto só para ilustrar. Vou encontrando populares que sabem onde se come o melhor peixe, qual a melhor água engarrafada, qual o melhor percurso para se chegar a um determinado local, onde se podem comprar jornais que não sujam as mãos, como se pode capturar um safio. Por vezes são pequeninas diferenças que tornam uma alternativa favorável sobre outra, como a existência de menos um semáforo, ou as três pedrinhas de sal que o chef bota no robalo.

Mas estes populares possuem informações de tal forma minuciosas que se fosse possível colecionar e injetar todo este conhecimento num único popular, teríamos uma versão extremamente irritante de algo que seria o cruzamento perfeito entre o Barbas e o Cláudio Ramos.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tozé, o filho da Teresinha

por Fulano de Tal, em 17.08.15

Se há história que merece ser contada é a do Tozé, o filho da Teresinha. Lembrei-me dele hoje ao vê-lo na festa da minha aldeia, com uma T-Shirt com os dizeres “Vencedor da Taça da Liga 2013/2014”.

Conheci-o bem a certa altura, porque é mais ou menos da minha idade. A ele e ao irmão mais novo, cujo nome não lembro. Eram os filhos da Teresinha e isso era tudo quanto precisávamos de saber.

Se na altura tivesse que apostar em qual deles morreria de overdose, punha as fichas todas no Tozé. Mas quis o destino que fosse o irmão. Começava a vê-lo ao longe e já lhe adivinhava a frase:

“Não pagas nada?” dizia ele em voz alta e pensava eu sincronamente para comigo. Normalmente pagava.

Acho que nunca o vi, ou raramente o fiz, que não estivesse de muletas, engessado, e numa certa altura da vida dele e da minha, com uns ferros enfiados na perna, que saiam por fora acima do joelho, e voltavam a entrar um pouco mais abaixo.

Semana sim, semana não, o Tozé espetava-se na motorizada. E não era por ser especialmente mau condutor, mas o Tozé tinha uma relação com a bebida que desaconselhava a condução. À intensidade desse vício correspondia o apetite do Tozé pelas festas de verão. Era quando eu o via, e era quando ele mais se espetava na motorizada, precisamente porque era verão e as festas não são sempre no mesmo sítio e obrigam à locomoção.

No início os ossos do Tozé regeneravam-se como os de qualquer outra pessoa, mas ele partia-os teimosamente no mesmo sítio sem os deixar sarar, e eles começaram a negar-se a colaborar. Daí os ferros, que para o Tozé funcionavam como auxiliar na cura, mas também como aquelas coleiras que se colocam aos cães com sarna, que os impedem de se coçar. Ao Tozé era incómodo para conduzir.

Depois ouvi que começaram a cortar-lhe pedaços do osso e o que é certo é que ele agora tem uma perna mais curta que a outra e manca. Nunca conheci o pai da Tozé, mas ouvi dizer que morreu da bebida, e com o braço dorido da pancada que aviava na Teresinha. A Teresinha sobreviveu-lhe pouco tempo. O irmão desgraçou-se, e o Tozé, que era o mais maluco dos quatro sobrevive até hoje, sabe Deus como.

E isto a propósito de o ter visto hoje, com a sua nova esposa, bastante apaixonado. Contaram-me que uma associação que há em Fátima foi lá reconstruir a casa em que vivem, e o que é certo é que ele me pareceu muito bem. Superbock numa mão, cigarro noutra, dançando tão desenvoltamente quanto a sua perna curta lhe permitia. Quando nos habituamos a ver uma pessoa a caminhar sempre por uma ladeira abaixo, nunca nos ocorre que ele possa subir a ladeira. Boa, Tozé!

Autoria e outros dados (tags, etc)

As sandes da TAP

por Fulano de Tal, em 14.08.15

Diário de bordo interestelar, 29 de Novembro de 2089, a bordo da nave de exploração espacial Galactica, da federação estelar aliada, já pouco resta para alimentar os esquálidos tripulantes. Se não encontrarmos um planeta habitável nos próximos 3 dias entraremos numa órbita infinita, não tripulada. Apenas restam estas sandes CLSE/R R1.

sandetap.jpg

 

O primeiro "sabor a casa" quando estamos em viagem é a TAP. As fardas horríveis e coçadas pelo uso dos tripulantes, em azul escuro carregado, combinado com vermelho vivo. Aquelas echarpes que as meninas usam, mais os lenços dos aeromoços. O Inglês mal amanhado com que repetem as instruções. Mas ainda assim, os sorrisos que trocamos em Português. Português, pela primeira vez em 4 ou 5 dias. Sabe bem. "Bem vindo", ou mesmo só "Olá", em vez dos "schuss" e "auf wiedersen" dos últimos dias. E as nossas aeromoças marotas são mais giras que as outras, e admito também que os aeromoços, mesmo este gordo suado que anda a fazer as vendas a bordo, são mais giros que os outros.

Se eu for a ver bem, a TAP é como aquela primeira refeição depois de uma greve de fome. Sabe bem, embora seja a mesma bosta de sempre que nos servem na prisão. Sim, porque não conheço ninguém que tenha feito greve de fome em liberdade (hum... refletir sobre este tema lateral num outro post). Sabe bem porque estávamos esganados de fome.

A TAP é tradição. Tudo é pensado para ser familiar. Como estes assentos em napa, que fazem lembrar o revestimento daquele sofá que os nossos avós tinham. Ou a carpete cheia de nódoas de café. Ou a cortina que separa a 1ª classe da 2ª. Que se passará do lado lá, quando a cortina está corrida ?

A TAP é Portugalidade.

Isto a propósito da sande que me serviram hoje.

23 minutos e meio a limpar os ingredientes, pacientemente, com aquele pedacinho de plástico que faz de colher de café e engoli-a de um trago. Era nojenta, mas soube-me a pato. Minto, soube-me a Portugal. Um Portugal um pouco diferente, como verão adiante. Foram 23 minutos e meio em que o atónito colega ocasional que se sentou hoje a meu lado me observou a retirar aquela rúcula que se entranha no queijo, os tomates cherry cortados em lâminas que ensopam o pão e o fecundam com as suas sementes, os coentros que impestam tudo com o seu odor horrível.

Coube-me uma CLSE/R R1.

A CLSE/R R1 tem nada mais nada menos que 43 ingredientes. Lembram-se de quando uma sandes se fazia com pão, cortava-se ao meio, e largava-se lá dentro uma grossa fatia de fiambre ? Nada disso. A TAP resolveu pegar nessa experiência tão Portuguesa e levá-la ao extremo.

Vejamos. Um papo-seco ? Não. Pão Nórdico. O Pão Nórdico (será Norueguês ? Sueco ? Finlandês ? Apenas disponível no Pólo?) contém vários ingredientes exóticos. Exatamente o que não se esperaria de um nórdico, o elemento surpresa: fibras de beterraba. É aqui que entra a Portugalidade, pegamos naquilo e damos-lhe "um jeito". Julgo que no Pólo Norte nem há beterrabas. Aquilo somos nós, a TAP, a trabalhar.

Salmão Fumado. Fumado com quê ? Fumo de madeiras nobres. Soube-me mesmo bem, embora depois de passado aquele êxtase inicial, pelo sabor que me ficou na boca, julgo que terá sido fumado no Camel Smoking Lounge em Zurique.

A TAP criou a CLSE/R R1 em jeito de homenagem a Mandela, ou a Pussy Riot ("a" pussy riot). Estou certo que ambos, findas as respetivas greves de fome, a achariam deliciosa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Só se geme uma vez

por Fulano de Tal, em 12.08.15

Mais uma história ouvida numa tarde de vagar e é sobre … não sei bem.

Talvez seja sobre a necessidade de permanecer forte na adversidade. Ou então é só uma parvoíce como muitas que me fazem rir. Mas é uma parvoíce escatológica, pelo que vos peço que leiam apenas se não forem impressionáveis.

 

Eu uma vez, aconteceu-me isto. Comi peixe hoje, vamos lá. Comi peixe hoje, e sei que engoli uma espinha. Engoli uma espinha! "Era assim… não, assim!", e faz um gesto a mãos ambas com os dois indicadores estendidos para diante, demonstrando uma razoável distância entre eles.

Uma espinha grossa, assim mais ou menos (ainda os indicadores para diante). Ao fim de dois dias, vou à casa de banho, e …! Umas dores do caraças! …  (risos)

“Mas que merda é esta?” Lembrei-me logo: "olha, a espinha que engoli há dois dias”

Unto o dedo com sabão…” Esta frase é acompanhada de um gesto que se inicia com o indicador da mão direita apontado ao céu, e movimentos circulares da outra mão em redor, como que espalhando uniformemente o unguento. O dedo, sempre em riste, faz então um círculo amplo, como que simulando uma aproximação ao reto. Meto no… e toco na espinha.” (risos) “Toco na espinha, pá!”

Mas pensei… com certeza que vira, vai virar e vai sair. No outro dia, outra vez a mesma coisa. Vamos para o Hospital. Fui ao Hospital.

“O senhor o que é que tem?”

“Tenho uma espinha atravessada no ânus” “

A gaja lá no papel pôs: “Um objeto estranho no ânus”” (Risos). Um objeto, ou uma merda qualquer, estranha no ânus. Foi assim que a gaja pôs.

"Passe aí para dentro”

Um cabrão d’um médico. “Que objeto é esse?”

“É uma espinha”

“Como é que o senhor sabe que é uma espinha?”

“Porque eu há dois dias comi peixe e engoli a espinha!”

“Mas tem a certeza?” e o gajo a insistir, o cabrão.

“Tenho a certeza absoluta. Eu toco-lhe!”, “Eu toco-lhe. Eu meto o dedo e eu toco-lhe”

“Sim, senhor”, novamente gestos como que simulando o médico a escrevinhar qualquer coisa num papel.

“Vá para outro…” mandou-me para outro… para um cirurgião.

“Então… então o senhor o que é que tem ?”

“Tenho uma espinha enfiada no ânus”

“Mas tem a certeza que é uma espinha?”

“Tenho sim senhor”

Chama a enfermeira, olha assim para ela: “Deite este senhor aí na marquesa”. Lá fui, assim deitado de lado.

“Eu toco-lhe, sôtor” “Untei o dedo com sabão e toco-lhe”

Eu julguei que o gajo me ia, pois… por vaselina, ou por uma merda qualquer… não, o cabrão mete o dedo do gajo, com a luva, faz-me assim (gesto com o indicador para diante, em gancho), e tufa… puxou e rasgou-me aquilo tudo, o cabrão. Então, a puxar aquilo… aquilo está atravessado, para sair… faz uma ranhura não é ? Eu julguei que o gajo me ia anestesiar ali, ou quê… qual quê! E depois o gajo:

“Eh pá, o senhor tinha razão”.

Catano… eu a dizer-lhe tudo, e o gajo ainda a duvidar. Eu estava à espera que ele me anestesiasse, e depois com uma pinça, pegasse numa ponta, e a girasse, não sei quê e tal … não, luvas, e zás… fazem isto já de propósito, para a gente não ter tempo de estar lá a gemer nem nada. Só geme uma vez.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Meu pai na Corredoura

por Fulano de Tal, em 06.08.15

Trata-se de uma história contada pelo meu pai, num dia raro em que ele se sentou bem-disposto numa esplanada e desatou a conversar. Procurei manter a linguagem o mais aproximada da realmente usada, bem como as pausas dramáticas, sem as quais isto não seria uma história, ou seria uma sem jeito nenhum. Passei-a a limpo como me lembrei, depois li-a, ri-me como não me ria há muito tempo e decidi, hesitante, partilhá-la. Tem um certo ar pitoresco, e ao mesmo tempo soa a lição de vida. Se é susceptível a linguagem de carroceiro, o melhor é não ler.

 

Olha, uma vez fui à Corredoura. Tinha este braço… olha, ainda aqui tenho a marca (apontando para o cotovelo). Tenho uma cicatriz, levei um coice da mula lá na quinta. E depois, este osso ficou logo aqui de lado, mas eu não disse nada ao meu pai.” “Ao fim de um mês não dobrava o braço.” “Para comer, pegava na ponta da colher e fazia assim… “ olhos arregalados, o braço estendido segurando uma colher imaginária entre o indicador e o anelar, e a cabeça movendo-se lentamente ao encontro da colher. (risos) “Já andava assim há um mês e tal, o osso está assim, de lado, e depois encarnou naquele sítio… “

Um dia à noite, a minha irmã mais velha diz assim: “Óh pai, olhe como o Necas faz para comer”. Olhou para mim, olhos bem abertos, como que se subitamente sobressaltado.

“O senhor faça lá!” Peguei na colher imaginária, braço bem estendido, olhos arregalados, e lá fui novamente com a boca na direção da colher imóvel.

“Isto é que são umas bestas. Cara… anda um gajo aqui…“, não sei quê, “para ficarem bons … são uns aleijados.”

Chega-se ao pé de mim, manda-me um estalo ao focinho, c’um ca&%$o… virei logo o pescoço para o outro lado.

No outro dia, Corredoura. Que eram os gajos, os Coelhos, os velhos Coelhos, dois irmãos já velhos, mas cuidado! Para consertar ossos… fui lá por isto (aponta para o joelho), fui lá por isto (aponta para o cotovelo), o meu pai também lá foi, e o meu irmão … quando a gente tinha um osso fora do lugar: Corredoura.

O gajo … viu o que era.. não é ? Viu que isto já estava encarnado noutro sítio. Disse para o meu pai:

“O senhor passa aqui para trás”, e lá lhe piscou o olho, não falou com ele, mas piscou-lhe o olho, como que a dizer: ”Agarre-o com força!”

E ele põe-se aqui à minha frente, sentado num banco. Eu com as pernas dentro das dele. O gajo manda-me assim esticar o braço, palma para cima, com uma mão pressiona o cotovelo para cima, e com a outra puxa a palma para diante. Piscou o olho ao meu pai, para me agarrar, e de repente “trás!”

Catano, carrega-me aqui no osso que ele foi mesmo para o sítio. Até deu um estalo. Só que eu com aquela dor, pumba, dei-lhe uma canelada que o gajo ficou do car&%$o….” (risos) Não é que o gajo vai e “trás!”, manda-me um chapadão, que fiquei com as trombas…. Eu nem via, até vi estrelas. (mais risos)

Fez-me dobrar o braço pela dobradiça uma data de vezes, mas eu à primeira vez, apanho o gajo pela canela, e o gajo dá-me aquele estaladão. O meu pai depois disse-lhe:

“Oh senhor Coelho, também não era preciso fazer isso”. Pareceu-lhe mal. ”Oh senhor Coelho… oh”…

Depois ele disse para o meu pai: “Agora o senhor, duas vezes por dia, faz-lhe o mesmo”, referindo-se a dobrar o braço várias vezes pela dobradiça. Olha, a minha mãe fugia de casa. Chamava dois homens lá da quinta, dois servos, para me agarrarem. E o meu pai como era rude, levantava-se, agarrava-me como o outro lhe tinha dito, e trás, trás, trás… várias vezes, e eu c’um ca&%$#o… as dores que eu passei. Andei 15 dias assim, primeiro que o osso ganhasse …. ganhasse… e depois já ia sozinho, o braço a dobrar lentamente e o meu pai a dizer: “atar o nó da gravata, vá”.

A minha mãe fugia, quando chegava àquela hora, a minha mãe fugia, para não me ouvir gritar. O que eu passei quando era garoto. Se fosse preciso a gente atirava-se dali de cima da eira, para cima da carroça com palha, mas se a palha era pouca, lá iam os artelhos pró galheiro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Fim do defeso

por Fulano de Tal, em 01.08.15

Bem, fartei-me de mangar com o gajo.

Há muito que não me ria tanto.

O gajo assim pra mim: “O que é isto Sérgio? Pipocas ?... depois do café ?”

E eu nada. Só me ria. Passado um bocado, o gajo novamente: “Fogo! Magnum amêndoas… mas que raio estás a fazer?”

Eu nada. Parti-me todo. O melhor foi daí a nada: “Bifana??!?!?” Atira-me o gajo.

Os estômagos esquecem com muita facilidade o que é uma ida à bola.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os pés no pós-férias

por Fulano de Tal, em 01.08.15

“Olá Pés!”

“Desculpem, nós conhecemo-nos?”

“Ai estes pés. Têm uma memória imediata prodigiosa, mas uma memória remota horrível. Apenas não nos vimos durante 15 dias e já não nos reconhecem”.

“M… M… Meias ?”

“Sim!”

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Deixe o seu comentário caso tenha gostado de passar por aqui