Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Joel, o taxidermista

por Fulano de Tal, em 27.07.15

Chocante. Não havia praticamente ninguém que não classificasse desta forma a exposição que chegou a Manheim, onde vivi 2 anos com os meus pais, em 1997: Koerperwelten. Corpos humanos, doados à ciência, e preservados por uma técnica inovadora inventada por um anatomista alemão.

Corpos verdadeiros, de pessoas outrora vivas, e que ali eram exibidos para que os estudiosos e os leigos pudessem observar a constituição de cada músculo, de cada órgão. Plastinação, era o nome da técnica, e posso afiançar-vos, bastante impressionante para um rapazito de 10 anos.

“Não devíamos ter trazido o Joel”, lembro-me de ouvir à minha mãe. Mas já eu me tinha deixado enlevar pelo excelente estado de conservação e verosimilhança ao ser vivo que aqueles cadáveres apresentavam. Enquanto os outros meninos se interessavam pela vida e obra de futebolistas e estrelas de cinema, eu passei a ansiar por conhecer mais detalhes da vida de Gunther von Hagens e Etienne François-Turgot.

Às coleções de carrinhos e soldadinhos dos coleguinhas de idade comparável, passei a contrapor os frasquinhos com besouros preservados em líquido, e a vasta coleção de nauseabundos esquilos, ratos e castores. Os meus bolsos não carregavam berlindes, mas pequenos tornos, pinças e limas, arame galvanizado, pincéis, algodão em rama, gomas, ceras, lacres e lacas. Todos sabiam quando estava prestes a chegar pelo tilintar constante dos materiais.

Data desta idade o meu interesse pela taxidermia, embalsamento, empalhamento e mesmo mumificação. Por esta ordem cronológica decrescente, que é como o conhecimento nos chega quando começamos a puxar o novelo.

Os meus pais tiveram de passar a conviver com o cheiro de soluções de formol, ou com as minhas tentativas de sintetizar natrão.

A cada passo encontrava dicotomias que me suscitavam um interesse cada vez maior: era uma arte ou uma ciência? Era ético ou imoral? Aves ou mamíferos? Estudo ou exposição?

Mais tarde percebi que podia moldar a perceção que o público retém de certos animais. Se deixasse vislumbre da ameaçadora gengiva de um tigre, tornando visíveis os dentes afiados, exaltava a sua ferocidade. Se optasse por lhe colocar uns olhos grandes e melosos, assemelhá-lo-ia ao dócil gato doméstico.

Nunca deixei contudo que a estética sobreviesse à técnica. Um perfeccionista mas não um esteta. Nunca fui de montar dioramas. Interessou-me sempre mais evitar que a natureza seguisse o seu curso e que os materiais orgânicos se perdessem na via lógica da putrefação, que representar o animal no seu habitat. Para isso aí estão os biólogos. Mas que sabem eles da curtição de uma pele? Das dificuldades únicas que apresentam a preservação de uma cutícula, de uma unha ou de um bico de uma ave? Ou como eliminar as exalações que atraem insetos?

Com toda a naturalidade fui sendo absorvido por trabalhos de preservação de cadáveres para estudo. Evitar os fenómenos cadavérico-destrutivos é praticamente dar uma segunda vida aos sujeitos do meu ofício. Primeiro pequenos mamíferos e algumas aves, depois mamíferos maiores e eventualmente humanos.

Ao contrário da taxidermia pura, onde apenas a pele é aproveitada para, digamos, vestir um manequim com a forma plasticizada do animal, na preservação de cadáveres para estudo é importante garantir que os tecidos apresentem uma sensação de incisão semelhante à do animal vivo, e uma boa aparência geral. De nada servem as técnicas que envolvem a montagem de manequins rígidos.

Se nunca tive dúvidas de que este era um chamamento vocacional, tive-as de sobra quando houve que optar por um determinado percurso académico. As capacidades inatas eu possuía-as, era razoavelmente hábil com as mãos, e tinha um enorme sangue frio na presença da morte. Mas as capacidades técnicas provinham de muitos e distintos campos. Não existe propriamente um curso superior de taxidermia. Os primeiros mumificadores eram aliás sacerdotes, embora tivessem alguns conhecimentos básicos de anatomia. Esta, por sua vez, é estudada essencialmente em cursos de medicina, e alguma coisa em veterinária. Mais recentemente em cursos de engenharia biomédica. Por outro lado os conhecimentos de química são essenciais, assim como os de biologia. Existe até quem se apelide de geógrafo de animais sem vida. Finalmente muitas das técnicas beneficiariam de uma formação em artes plásticas.

Tornei-me presença habitual nos workshops do Museu Nacional de Ciência e História Natural. “Fotografia na Zoologia e Antropologia”, “Uma viagem à pele humana”, entre outros. Juntei-me a grupos de discussão que lia e discutia os grandes manuais de taxidermia e as conclusões de Mauduyt ou Bécoeur. Debatíamos acaloradamente os benefícios e os malefícios da utilização de arsénico em pó, cânfora, ou como remover completamente a gordura dos tecidos e músculos. Nos momentos de maior relaxamento argumentávamos livremente sobre a possibilidade de criar animais, a partir de partes de outros, que assombrassem quem os visse expostos. Como o ornitorrinco de Shaw, ou os grifos do Museu de História Natural de Londres.

Foi num desses dias dedicados à rogue taxidermy, que conheci Marta.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Deixe o seu comentário caso tenha gostado de passar por aqui