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Interdições e estipulações

por Fulano de Tal, em 19.07.15

A Capitania do Porto de Faro determina todos os aspetos que se prendem com o veraneio nas praias do Algarve. Nada é deixado ao acaso.

Estas determinações estão divididas em duas categorias: as estipulações e as interdições. Ambas jazem sob a forma de Edital afixado nas principais barras, canais de navegação e outros espaços interiores navegáveis. Apesar do caráter pouco público destes locais, existe toda uma rede de amplificação que espalha a notícia como um rastilho de pólvora. Ainda a cola do edital que interdita a “apanha de espécies bivalves” (sacanice para conquilha) está húmida, e já o Lisboeta na ilha de Tavira com a sua patética garrafa de litro e meio está a ser autuado.

Estas determinações impactam a vida dos banhistas, mas acima de todos impacta a vida dos que vivem da vida dos banhistas. Estou obviamente a pensar em particular, mas não excluindo outros profissionais do verão, nos vendedores de bolinhas.

A primeira ocorreu em Abril, por alturas do concurso público que atribuiu licenças, praia a praia, para a venda de bolinhas. Pastelarias históricas, que em muito contribuíram para o desenvolvimento da bolinha enquanto doçaria de verão, perderam as suas licenças. A Pastelaria Ferramacho, a título de exemplo, foi excluída do licenciamento na Manta Rota. Da Ferramacho chegou-nos durante anos, não apenas a fritura em lume brando das bolinhas, como o coxo que as vendia. Perdeu-se assim um excelente coxo. O argumento da Capitania, defensável à luz na lei do licenciamento e concessionamento balnear, é o do padronização das ofertas, essenciais à projeção no exterior da imagem de um Algarve confiável, mais do agrado do turista.

Mais para o final de Maio, surgiu a determinação que estipula uma tipologia de vendedor de bolinhas. Se o coxo não tivesse sido eliminado pela exclusão da sua entidade empregadora, tê-lo-ia sido pelo seu caminhar não convencional. Esta determinação, assinada pelo Capitão do Porto, Capitão-de-mar-e-guerra Paulo Isabel, ele próprio, estipula um cânone para o vendedor. Apenas homens, entre os seus 25 e 35 anos, atléticos e bronzeados, conversadores, que não ostentem nenhuma dificuldade motora ou de outra índole. Exclui mormente os alopécios, os coxos, os marrecos, os gagos e obviamente as mulheres, ainda que estas não padeçam de nenhuma das incapacidades acima. Perante a indignação das associações feministas do Barlavento ao Sotavento, que defendia igualdade de tratamento para homens e mulheres (estava por exemplo disposta a aceitar a exclusão de marrecas, gagas e coxas, e a substituir a alopecia por outra enfermidade mais prevalente entre o sexo feminino, como a pele casca de laranja), escuda-se a Capitania no pretexto de que a jornada de trabalho na areia potencia perdas de produtividade e ânimo à medida que se caminha para as horas mais cercas aos entardecer. A coberto do estudo da Associação Folclórica e Recreativa de São Brás de Alportel (AFRSBA), que verificou por amostragem que essas perdas de produtividade atingia sobremaneira as mulheres e em particular, de entres estas, as grávidas, estipula a Capitania que, pois, se excluam todas, grávidas e estéreis, desta atividade. E deste parecer lavra e faz público o edital.

Sem surpresa, em início de Junho, e novamente através de edital, veio a Capitania dar enquadramento legal aos slogans dos vendedores. Expressamente interdita é a brejeirice e absolutamente essencial é a rima, tida pelo Capitão-de-mar-e-guerra Isabel, como uma tradição tipicamente Algarvia. Para exemplificar avança a Capitania com dois exemplos: “Olha a bolinha Andrade, que prima pela Qualidade” é aceite, ao passo que “Olha a bolinha Palmelão, para depois do palmadão” é claramente excluída, sendo até sugerida a versão (esta aceite) de “…para depois do escaldão”.

Finalmente, em Junho, e a par da interdição dos Jesuítas, praia sim, praia não, vem a Capitania dar razão e voz à Associação de Pequenos Produtores do Algarve (APPA), estipulando um leque de ingredientes aceites na confeção: 1. A farinha deve conter um mínimo de 50% de farinha de Alfarroba, ou ser dela 100% constituída (esta exceção abriu espaço à bolinha de Alfarroba, hoje tão popular). 2. A raspa de limão é absolutamente interdita, sendo antes substituída pela raspa de laranja algarvia, a única aceite. 3. O leite a usar deverá provir de vacas algarvias certificadas, ou no caso de alguma esposa de colaboradores da Capitania se encontrar a aleitar, é também aceite esta proveniência. O edital infra é assinado conjuntamente pelo Capitão-de-mar-e-guerra Isabel (da Capitania), pela cônjuge, e pelo Inspetor Geral da ASAE, Pedro Gaspar.

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A minha cadeira de praia

por Fulano de Tal, em 19.07.15

Eis a minha cadeira de praia. Ela não é muito bela. Mas a estrutura reforçada do alumínio permite suportar maiores pesos. O alumínio não é um material muito nobre, mas o banho de zinco aplicado no processo de galvanização evitará a corrosão por água salgada. Os polímeros não têm a textura dos algodões, mas têm a têmpera do material que resulta de um processo de reação e combinação química.

Além disso são duráveis, para além de laváveis, não acumulando mofo.

Não é exatamente como a tinha imaginado, e não é o que tinha ambicionado para mim. Em vez das longas pernas em madeira, e vestido em fino algodão branco, quis o destino que me coubessem umas curtas em alumínio e a faixa de poliamida, ou lá o que é este polímero, em listas de cores garridas. Ainda assim possuo-a.

No areal erótico da praia do Barril, e enquanto passo a palma da mão pelas suas pernas suaves, embora geladas, dou-me conta que é bastante diferente do que eu tinha imaginado. Diferente mesmo do que tinha ambicionado para mim. Mas cumpre a sua função. E funcionalidade é algo que se começa a apreciar verdadeiramente a partir de uma certa idade. Quando já não somos acometidos por luxuriosos caprichos nos fazem perseguir um sonho, um ideal de beleza.

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