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Agora a sério. Qual a pilhéria do naturismo?

por Fulano de Tal, em 30.07.15

Gostava que alguém me explicasse a pilhéria do naturismo. Isso. De andar nu na praia. Prescindo de explicações sobre outras formas de naturismo que não envolvam andar nu na praia. Basta-me perceber essa, e estou certo, daí depreenderei todas as outras, sem falsas modéstias o digo, eu que não sou dos mais vagarosos a raciocinar.

Será uma espécie de tomada de posição? No sentido que decorre da nudez uma maior ligação à Natureza? Já lhe dei milhentas voltas, e não entendo a diferença, desse ponto de vista entre o andar nu, e o vestir uma pequena sunga em tons de salmão ou um biquíni brasileiro. Há ali meia dúzia de centímetros quadrados que nunca sentirão o vento quente do Saara, mas nada que se sobreponha aos prejuízos que da decisão se produzem: ter de caminhar o triplo para chegar a uma zona de praia mais ou menos deserta, forçosamente banhar-se em praias sempre não vigiadas, e uma total ausência de apoios de praia. Inicialmente até me ocorreu que era por exibicionismo. Mas ao ver os naturistas de hoje, e a menos que padeçam de total incapacidade para a auto crítica, essa é uma hipótese sem viabilidade.

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Hollywood - férias a acabar

por Fulano de Tal, em 29.07.15

Há uma música do Rui Veloso que começa numa toada ligeira e divertida.

 

A rapariguinha do shopping

Bem vestida e petulante

Desce pela escada rolante

Com uma revista de bordados

Com um olhar rutilante

E os sovacos perfumados

 

Mas que já próximo do fim toma um rumo estranho e acelerado.

 

Como uma estrela decadente

Dos bastidores de hollywood

 

Aqui o Rui Veloso, começa freneticamente a dizer… “Hollywood! Hollywood! Hollywood!” enquanto uma bateria em fundo acelera o compasso. Sabemos que está próximo do fim. Rui acelera para o fim. Vai acabar. Vai acabar. Vai acabar. Mais rápido. Vai acabar. Acabou. As minhas férias acabam de segredar-me: "Hollywood".

 

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Joel, o taxidermista II

por Fulano de Tal, em 28.07.15

Marta era um animal estupendo. Com mais frequência me chegavam humanos à mesa em fórmica que arminhos, cuja existência em território nacional apenas se deu por provada há cerca de 30 anos. E esta fêmea era um magnífico exemplar, completamente branco.

O nome era enganador. Sendo da família das martas, os arminhos eram contudo animais únicos. Fora trazida pela proprietária poucas horas após o seu passamento, condição essencial para que pudesse ser preservada. Tinha sido companhia e pretendia Olívia, pois assim atinei que se chamava, que o continuasse a ser. Não reparei muito em Olívia. Anotei apenas os seus dados e troquei circunstancialmente informações sobre a complexidade do trabalho, prazos e orçamentos. Mas reparei que era bonita para lá do normal que antecipava eu de uma mulher solitária que tem um arminho por companhia. Isto pude eu ver por isso o descrevo e mais não tive interesse porque o tempo urgia para Marta.

Assim que a porta se cerrou pude analisá-la melhor. Era visível a marca do atropelamento, que havia deixado uma pequena mancha de sangue no pêlo. Limpei cuidadosamente com algodão e água fria. Na secagem segui o meu próprio protocolo: uma mistura de serradura muito fina e farinha de batata para absorver a humidade, seguido de escovagem. Procedimento repetido uma, duas, três vezes, tantas quantas forem necessárias. A incisão neste tipo de animais é feita longitudinalmente, a todo o comprimento do abdómen. Aos 10 anos a mão fraquejava-me neste momento, mas aos 28 nada sinto para além da firmeza do pulso. Com o auxilio da faca e dos dedos comecei a separar a carne da pele, sendo que durante toda esta operação continuei a polvilhar a farinha de batata, para que o sangue e a gordura não sujassem a pele.

Estava especialmente atento para não perfurar as glândulas que estes animais têm na base da cauda, que se rompidas tornariam o ar pestilento. Foi neste momento que senti o objeto metálico preso na parte interior de Marta. De início pensei que seria um osso sobressaliente, porventura por azo do atropelamento, mas rapidamente percebi estar na presença de um no qual identifiquei o que me pareceu ser o desenho, ainda que tosco, de um olho aprisionado numa forma hexagonal, que mais não eram que dois triângulos avessos um ao outro. Detetei ainda as letras A n k h, monogravadas. Estranho achado carregava este arminho. Mais estranho porque ali havia sido colocado. Não resultava de uma ingestão acidental, que poderia ter acontecido pela voracidade desta espécie. Tinha sido deliberadamente cosido na proximidade do sacroilíaco, onde não causasse dificuldades maiores de locomoção.

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Joel, o taxidermista

por Fulano de Tal, em 27.07.15

Chocante. Não havia praticamente ninguém que não classificasse desta forma a exposição que chegou a Manheim, onde vivi 2 anos com os meus pais, em 1997: Koerperwelten. Corpos humanos, doados à ciência, e preservados por uma técnica inovadora inventada por um anatomista alemão.

Corpos verdadeiros, de pessoas outrora vivas, e que ali eram exibidos para que os estudiosos e os leigos pudessem observar a constituição de cada músculo, de cada órgão. Plastinação, era o nome da técnica, e posso afiançar-vos, bastante impressionante para um rapazito de 10 anos.

“Não devíamos ter trazido o Joel”, lembro-me de ouvir à minha mãe. Mas já eu me tinha deixado enlevar pelo excelente estado de conservação e verosimilhança ao ser vivo que aqueles cadáveres apresentavam. Enquanto os outros meninos se interessavam pela vida e obra de futebolistas e estrelas de cinema, eu passei a ansiar por conhecer mais detalhes da vida de Gunther von Hagens e Etienne François-Turgot.

Às coleções de carrinhos e soldadinhos dos coleguinhas de idade comparável, passei a contrapor os frasquinhos com besouros preservados em líquido, e a vasta coleção de nauseabundos esquilos, ratos e castores. Os meus bolsos não carregavam berlindes, mas pequenos tornos, pinças e limas, arame galvanizado, pincéis, algodão em rama, gomas, ceras, lacres e lacas. Todos sabiam quando estava prestes a chegar pelo tilintar constante dos materiais.

Data desta idade o meu interesse pela taxidermia, embalsamento, empalhamento e mesmo mumificação. Por esta ordem cronológica decrescente, que é como o conhecimento nos chega quando começamos a puxar o novelo.

Os meus pais tiveram de passar a conviver com o cheiro de soluções de formol, ou com as minhas tentativas de sintetizar natrão.

A cada passo encontrava dicotomias que me suscitavam um interesse cada vez maior: era uma arte ou uma ciência? Era ético ou imoral? Aves ou mamíferos? Estudo ou exposição?

Mais tarde percebi que podia moldar a perceção que o público retém de certos animais. Se deixasse vislumbre da ameaçadora gengiva de um tigre, tornando visíveis os dentes afiados, exaltava a sua ferocidade. Se optasse por lhe colocar uns olhos grandes e melosos, assemelhá-lo-ia ao dócil gato doméstico.

Nunca deixei contudo que a estética sobreviesse à técnica. Um perfeccionista mas não um esteta. Nunca fui de montar dioramas. Interessou-me sempre mais evitar que a natureza seguisse o seu curso e que os materiais orgânicos se perdessem na via lógica da putrefação, que representar o animal no seu habitat. Para isso aí estão os biólogos. Mas que sabem eles da curtição de uma pele? Das dificuldades únicas que apresentam a preservação de uma cutícula, de uma unha ou de um bico de uma ave? Ou como eliminar as exalações que atraem insetos?

Com toda a naturalidade fui sendo absorvido por trabalhos de preservação de cadáveres para estudo. Evitar os fenómenos cadavérico-destrutivos é praticamente dar uma segunda vida aos sujeitos do meu ofício. Primeiro pequenos mamíferos e algumas aves, depois mamíferos maiores e eventualmente humanos.

Ao contrário da taxidermia pura, onde apenas a pele é aproveitada para, digamos, vestir um manequim com a forma plasticizada do animal, na preservação de cadáveres para estudo é importante garantir que os tecidos apresentem uma sensação de incisão semelhante à do animal vivo, e uma boa aparência geral. De nada servem as técnicas que envolvem a montagem de manequins rígidos.

Se nunca tive dúvidas de que este era um chamamento vocacional, tive-as de sobra quando houve que optar por um determinado percurso académico. As capacidades inatas eu possuía-as, era razoavelmente hábil com as mãos, e tinha um enorme sangue frio na presença da morte. Mas as capacidades técnicas provinham de muitos e distintos campos. Não existe propriamente um curso superior de taxidermia. Os primeiros mumificadores eram aliás sacerdotes, embora tivessem alguns conhecimentos básicos de anatomia. Esta, por sua vez, é estudada essencialmente em cursos de medicina, e alguma coisa em veterinária. Mais recentemente em cursos de engenharia biomédica. Por outro lado os conhecimentos de química são essenciais, assim como os de biologia. Existe até quem se apelide de geógrafo de animais sem vida. Finalmente muitas das técnicas beneficiariam de uma formação em artes plásticas.

Tornei-me presença habitual nos workshops do Museu Nacional de Ciência e História Natural. “Fotografia na Zoologia e Antropologia”, “Uma viagem à pele humana”, entre outros. Juntei-me a grupos de discussão que lia e discutia os grandes manuais de taxidermia e as conclusões de Mauduyt ou Bécoeur. Debatíamos acaloradamente os benefícios e os malefícios da utilização de arsénico em pó, cânfora, ou como remover completamente a gordura dos tecidos e músculos. Nos momentos de maior relaxamento argumentávamos livremente sobre a possibilidade de criar animais, a partir de partes de outros, que assombrassem quem os visse expostos. Como o ornitorrinco de Shaw, ou os grifos do Museu de História Natural de Londres.

Foi num desses dias dedicados à rogue taxidermy, que conheci Marta.

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O que tem Tavira que seja absolutamente único?

por Fulano de Tal, em 26.07.15

O que tem Tavira que seja absolutamente único?

Tem José Serôdio. José Serôdio está presente a cada passo, com a sua cara sorridente. Todos os espaços comercializáveis em outdoor estão tomados por José Serôdio. José Serôdio ombreia com o LIDL e com o Continente. José Serôdio patrocina as corridas que por cá se fazem. É aliás o único patrocinador (ver foto). Admito mesmo que inscreva a equipa José Serôdio, que ostenta para além dos números dos dorsais o número de telemóvel de José Serôdio. A equipa de José Serôdio é candidata a ganhar, ou não fosse José Serôdio o vencedor que a sua foto manifesta.

À entrada da cidade um cartaz afirma "José Serôdio dá-lhe as boas vindas". Do outro lado da estrada, e em sentido inverso, "Gostei de o ver por cá. Ass. José Serôdio".

 

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Os magnificos cartazes da CGD

por Fulano de Tal, em 21.07.15

“Venha falar connosco, de Empreendedor para Empreendedor” diz um cartaz da Caixa Geral de Depósitos, exposto em todas as agências, ilustrado com o retrato do que penso ser um bancário com uma carreira de 20 anos de escriturário. O único bancário com laivos de empreendedorismo que conheço é o Armando Vara, com os resultados que se conhecem.

Give me a break…

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Interdições e estipulações

por Fulano de Tal, em 19.07.15

A Capitania do Porto de Faro determina todos os aspetos que se prendem com o veraneio nas praias do Algarve. Nada é deixado ao acaso.

Estas determinações estão divididas em duas categorias: as estipulações e as interdições. Ambas jazem sob a forma de Edital afixado nas principais barras, canais de navegação e outros espaços interiores navegáveis. Apesar do caráter pouco público destes locais, existe toda uma rede de amplificação que espalha a notícia como um rastilho de pólvora. Ainda a cola do edital que interdita a “apanha de espécies bivalves” (sacanice para conquilha) está húmida, e já o Lisboeta na ilha de Tavira com a sua patética garrafa de litro e meio está a ser autuado.

Estas determinações impactam a vida dos banhistas, mas acima de todos impacta a vida dos que vivem da vida dos banhistas. Estou obviamente a pensar em particular, mas não excluindo outros profissionais do verão, nos vendedores de bolinhas.

A primeira ocorreu em Abril, por alturas do concurso público que atribuiu licenças, praia a praia, para a venda de bolinhas. Pastelarias históricas, que em muito contribuíram para o desenvolvimento da bolinha enquanto doçaria de verão, perderam as suas licenças. A Pastelaria Ferramacho, a título de exemplo, foi excluída do licenciamento na Manta Rota. Da Ferramacho chegou-nos durante anos, não apenas a fritura em lume brando das bolinhas, como o coxo que as vendia. Perdeu-se assim um excelente coxo. O argumento da Capitania, defensável à luz na lei do licenciamento e concessionamento balnear, é o do padronização das ofertas, essenciais à projeção no exterior da imagem de um Algarve confiável, mais do agrado do turista.

Mais para o final de Maio, surgiu a determinação que estipula uma tipologia de vendedor de bolinhas. Se o coxo não tivesse sido eliminado pela exclusão da sua entidade empregadora, tê-lo-ia sido pelo seu caminhar não convencional. Esta determinação, assinada pelo Capitão do Porto, Capitão-de-mar-e-guerra Paulo Isabel, ele próprio, estipula um cânone para o vendedor. Apenas homens, entre os seus 25 e 35 anos, atléticos e bronzeados, conversadores, que não ostentem nenhuma dificuldade motora ou de outra índole. Exclui mormente os alopécios, os coxos, os marrecos, os gagos e obviamente as mulheres, ainda que estas não padeçam de nenhuma das incapacidades acima. Perante a indignação das associações feministas do Barlavento ao Sotavento, que defendia igualdade de tratamento para homens e mulheres (estava por exemplo disposta a aceitar a exclusão de marrecas, gagas e coxas, e a substituir a alopecia por outra enfermidade mais prevalente entre o sexo feminino, como a pele casca de laranja), escuda-se a Capitania no pretexto de que a jornada de trabalho na areia potencia perdas de produtividade e ânimo à medida que se caminha para as horas mais cercas aos entardecer. A coberto do estudo da Associação Folclórica e Recreativa de São Brás de Alportel (AFRSBA), que verificou por amostragem que essas perdas de produtividade atingia sobremaneira as mulheres e em particular, de entres estas, as grávidas, estipula a Capitania que, pois, se excluam todas, grávidas e estéreis, desta atividade. E deste parecer lavra e faz público o edital.

Sem surpresa, em início de Junho, e novamente através de edital, veio a Capitania dar enquadramento legal aos slogans dos vendedores. Expressamente interdita é a brejeirice e absolutamente essencial é a rima, tida pelo Capitão-de-mar-e-guerra Isabel, como uma tradição tipicamente Algarvia. Para exemplificar avança a Capitania com dois exemplos: “Olha a bolinha Andrade, que prima pela Qualidade” é aceite, ao passo que “Olha a bolinha Palmelão, para depois do palmadão” é claramente excluída, sendo até sugerida a versão (esta aceite) de “…para depois do escaldão”.

Finalmente, em Junho, e a par da interdição dos Jesuítas, praia sim, praia não, vem a Capitania dar razão e voz à Associação de Pequenos Produtores do Algarve (APPA), estipulando um leque de ingredientes aceites na confeção: 1. A farinha deve conter um mínimo de 50% de farinha de Alfarroba, ou ser dela 100% constituída (esta exceção abriu espaço à bolinha de Alfarroba, hoje tão popular). 2. A raspa de limão é absolutamente interdita, sendo antes substituída pela raspa de laranja algarvia, a única aceite. 3. O leite a usar deverá provir de vacas algarvias certificadas, ou no caso de alguma esposa de colaboradores da Capitania se encontrar a aleitar, é também aceite esta proveniência. O edital infra é assinado conjuntamente pelo Capitão-de-mar-e-guerra Isabel (da Capitania), pela cônjuge, e pelo Inspetor Geral da ASAE, Pedro Gaspar.

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A minha cadeira de praia

por Fulano de Tal, em 19.07.15

Eis a minha cadeira de praia. Ela não é muito bela. Mas a estrutura reforçada do alumínio permite suportar maiores pesos. O alumínio não é um material muito nobre, mas o banho de zinco aplicado no processo de galvanização evitará a corrosão por água salgada. Os polímeros não têm a textura dos algodões, mas têm a têmpera do material que resulta de um processo de reação e combinação química.

Além disso são duráveis, para além de laváveis, não acumulando mofo.

Não é exatamente como a tinha imaginado, e não é o que tinha ambicionado para mim. Em vez das longas pernas em madeira, e vestido em fino algodão branco, quis o destino que me coubessem umas curtas em alumínio e a faixa de poliamida, ou lá o que é este polímero, em listas de cores garridas. Ainda assim possuo-a.

No areal erótico da praia do Barril, e enquanto passo a palma da mão pelas suas pernas suaves, embora geladas, dou-me conta que é bastante diferente do que eu tinha imaginado. Diferente mesmo do que tinha ambicionado para mim. Mas cumpre a sua função. E funcionalidade é algo que se começa a apreciar verdadeiramente a partir de uma certa idade. Quando já não somos acometidos por luxuriosos caprichos nos fazem perseguir um sonho, um ideal de beleza.

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Porque gosto de Fernando Pessoa

por Fulano de Tal, em 18.07.15

O meu escritor favorito é Fernando Pessoa. E não digo isto para armar aos cágados, como aquelas candidatas a misses a quem instruíram para dizer que gostam muito de ler, especialmente Plutarco e outros gregos da antiguidade. Estou até disposto a provar isso, revelando que o meu segundo escritor favorito é o António Tadeia que escreve sobre futebol julgo que n'O Jogo, e n'A Bola.

Como vêm não há aqui cagança nenhuma. Mas o Fernando Pessoa… ah… reparem nesta pérola

“A alma humana tem sentimentalidades estranhas. Está certo comigo que a Companhia de Tabacos, quando deixou de fabricar os charutos Peraltas, contribuiu de algum modo para aparecer a tosse cadavérica, que haveria de vitimar o protagonista destes dramas da razão. Podemos amar uma marca de charutos. Há quem se bata, e morra, por ideias abstratas, e sem cinta nenhuma; e os Peraltas tinham-na.”

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Os meus primeiros trabalhos

por Fulano de Tal, em 17.07.15

Quando comecei a fazer os primeiros trabalhos, nas férias, lembro-me de achar que tudo aquilo era estúpido, e que nada me aportaria para a vida que iria ter daí por diante. Como estava enganado.

Um dos primeiros trabalhos que fiz foi para a Makro, estavam eles a instalar a sua primeira unidade em Portugal, em Alfragide. O meu trabalho, todo o santo dia, era digitar nomes de produtos num terminal. Só que os nomes eram longos e o campo onde eu os tinha de escrever era curto. Era o mesmo campo que seria usado para imprimir as etiquetas, daí a economia em caracteres. Por isso especializei-me nesta espécie de estenografia. “Rolo pap pqno 20 uni”, “Fiambre ftd 200gr”, “Det Maq Lav Lça 350ml Skip”. Hoje, as competências adquiridas nessa altura são-me extremamente úteis, por exemplo, na construção de tweets. Já antes disso tinha sentido vantagem sobre os meus pares na escrita de SMS’s.

Nas férias, e ocasionalmente, ia apanhar fruta para umas quintas ali ao pé do sítio ondem viviam os meus pais. Lembro-me de andar com um poceiro às costas, carregado de maçãs e de pensar como era estúpido tudo aquilo. Contudo, e mais uma vez, estava redondamente enganado. Quando o meu mais novo finalmente adormece a meio do dia, e tenho de o carregar como a uma sacada de maçãs, reteso os músculos das pernas e penso nos poceiros que os ajudaram a desenvolver.

Façam chegar esta mensagem a todos os jovens que hoje se estão a questionar sobre a utilidade do seu trabalho de verão. Eu acabo de contar esta história ao pica do barco que faz a travessia entre Santa Luzia e a Praia da Terra Estreita. Pareceu-me deveras entusiasmado quando finalmente a viagem acabou e eu desembarquei. Não sei se pela história ou pela despedida.

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