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A comovente história do Emanuel

por Fulano de Tal, em 30.05.15

Estive quase uma hora com o Emanuel, a quem ouvi tocar na rua o “Povo que lavas no rio”. Olhos cerrados, sorriso de orelha a orelha. Não cantava particularmente bem, mas não lho disse. O que lhe falta em talento sobra-lhe em sentimento.

“Sabes o que vou fazer com o dinheiro que me deste? Vou comprar pão e queijo e vou sentar-me ali no parque onde tenho a minha mochila”.

Puta de história de vida. Emanuel Bettencourt, açoriano, tio de um tal Luis Bettencourt, que pela maneira como ele mo contou deve ser conhecido.

Tinha uma empresa de construções, tetos falsos. Fez os tetos do Dolce Vita de Coimbra. Trabalhou de Braga ao Algarve. Construiu uma casa nos Pousos em Leiria, bem perto de onde vive a minha mãe.

Ninguém lhe pagava e um dia chegou a carta dos filhos da puta da caixa geral de depósitos. Faltavam-lhe 5 anos para pagar o empréstimo mas iam ficar-lhe com a casa. No terreno tinha uma retroescavadora, um bobcat e uma sprinter.

Foi à judiciária dos Pousos, onde tinha amigos e disse-lhes que durante o dia ia beber (era monitor nos Alcoólicos Anónimos) e ia destruir a casa. Assim fez. Duas garrafas de Johnny Walker depois tinha a casa em ruínas.

“Não consegui deitar tudo abaixo porque aquilo era betão armado. Fui eu que a fiz”.

Pegou na sprinter e tinha a intenção de chegar a Lisboa. Mas ali quando a A1 se cruza com a A23 teve dúvidas. “Vou pela A23 ou A1? A23? A1? A23…”. Quando deu por ele tinha-se espetado contra o separador.

Não se lembra de nada. Esteve 2 semanas em coma. Puseram-lhe platina na perna e sararam-lhe as feridas. “Aqui e aqui” apontou para duas cicatrizes que tinha na testa, enquanto puxava do passaporte para me mostrar a fotografia dele antes destes eventos.

“Tás a ver? Esse é que é o Emanuel”.

Resolveu emigrar. Canadá. América Latina. França. Alemanha. Bélgica.

“O que eu quero é trabalhar. É o que eu gosto” diz-me enquanto me mostra as mãos calejadas. A música permite-me ganhar algum para comer. Ontem estive aqui o dia todo. Fiz 15 Euros.”.

“Toco músicas que nem os maiores maestros tocam”. Sorrio com a falta de modéstia, atendendo à sua frágil condição, mas ainda assim disse-lhe que ficaria mais um pouco para o ouvir tocar o Frank Sinatra.

“Em espanhol, mas da América do Sul que é mais doce”. Fiquei a ouvir o espanhol arranhado do Emanuel. Quis deixar-lhe mais algum e os meus cigarros. Não aceitou o dinheiro adicional. “Não preciso mais por hoje.”

Saímos os dois dali, cada um para o seu lado, eu a caminho da catedral de Nossa Senhora, ele a caminho do parque Platentuin, em Leopoldstraat. 5 minutos depois choveu torrencialmente.

Dois portugueses cheios de sorte.

 

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Faits D’Anvers. Centro comercial Stadsfeestzaal, na Meir, rua fechada ao trânsito no centro de Antuérpia.

Vim aqui porque o café é razoável e a wifi é gratuita. Eis os dois critérios que me conduzem quando estou fora de Portugal. Café e Wifi. Não me venham cá com arquiteturas medievais e esculturas únicas de Michelangelo.

Bebe-se lá uma boa bica? Então podem meter a Madona e o menino num sítio que eu cá sei.

Há net? Então podem sentar o traseiro no topo da torre gótica.

E é disso que falo aos camones que me pedem explicações sobre Portugal. Temos uma bica do caraças e wifi por todo o lado.

Mas há boas ondas e sol? Isso eu não sei. Mas podes ir ao Google.

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Anacronismo na internacionalização

por Fulano de Tal, em 16.05.15

Para quem gosta de anacronismos, aqui vai o mais recente. Abriram recentemente as candidaturas ao Portugal 2020, novo pacote de incentivos disponibilizados a empresas Portuguesas.

Uma das vertentes financiadas, e bem, é a Internacionalização. Ou seja uma empresa pode, se assim o entender, tenha ela um bom produto e muito descaramento, candidatar um projeto em que se propõe internacionalizar o seu negócio.

Nestes projetos existe um conceito que são as “despesas elegíveis”. Ou seja, eu posso querer internacionalizar para o Brasil, mas o Portugal 2020 não me financiará por exemplo uma visita ao Corcovado, na medida em que ela não contribui para o atingimento dos objetivos do projeto. Tudo certo. O anacronismo aqui é que as despesas com deslocação e estadia não são elegíveis.

Ou seja, sou incentivado a internacionalizar, mas tenho de o fazer a partir de Portugal. Não posso visitar potenciais clientes.

É no entanto uma despesa elegível comprar um mapa-mundi, olhar para ele sai de borla. Só que o mapa não é o território, como dizia o Al Pacino, em Ronin.

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BB King

por Fulano de Tal, em 15.05.15

Não posso dizer que isto seja uma homenagem ao BB King, mas hoje lembrei-me de uma anedota que me foi contada por um amigo Islandês.

Uma mulher, sabendo que o marido adorava blues e em particular o BB King, e aproximando-se o seu aniversário, resolveu tatuar um “B” em cada nádega. BB, em homenagem ao rei. Se assim o pensou, melhor o fez. À noite vestiu uma lingerie sexy e preparou com cuidado a noite que se aproximava. Colocou "Lucille" no sonoro, e ao ritmo lento da música foi retirando lentamente a roupa, perante o surpreendido esposo. Finalmente no último acorde virou-lhe eroticamente as costas e mostrou os tattoos. “Bob?”, perguntou ele…

 

 

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Mistério do pastel de nata

por Fulano de Tal, em 07.05.15

No início tinha alguma graça. Quando cheguei ao Hotel em Munique tinha à minha espera um pastel de nata e uma maçã. Até pensei que era o hotel a armar-se ao pingarelho: o gajo vem de Portugal, vamos colocar aqui um pastel de nata. Achei bem.

Os hotéis foram aliás das primeiras organizações a tratar os seus clientes com estes cuidados.

Acontece que dormi essa noite como um justo, acordei no dia seguinte e fui à minha vida e quando voltei, no final da tarde do dia seguinte, tinha à minha espera um pastel de nata e uma maçã. E não posso jurar mas pela disposição das manchas de queimado em cima, é o mesmo pastel de nata.

E aqui estou, há três dias, a travar esta batalha de nervos com a camareira: ela não remove o pastel, e eu não o como. Aposto que chega de manhã para trocar as toalhas e a primeira coisa que faz é verificar o pastel. Eu é o que faço quando chego à noite. Assim que abro a porta, lá está ele, ao lado da escrivaninha bávara. Entreolhamo-nos, o pastel e eu.

Ontem fiz uma pequena marca no pastel, impercetível e única. Até estou um pouco ansioso para que o dia passe rápido, para finalmente ter a certeza de que se trata do mesmo pastel e não um pastel em tudo idêntico, talvez fruto de um impecável processo de produção.

 

 

 

 

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