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Post odioso de 25 de Abril

por Fulano de Tal, em 25.04.15

Passei três anos da minha vida oprimido por uma ditadura fascista. Acontece que foram também os três primeiros anos da minha vida. Tive 0 anos, 1 ano, e 2 anos.

No 25 de Abril de 74 ainda não tinha completado os 3 anos. Viver subjugado a um poder fascista não era portanto para mim muito diferente de viver subjugado ao poder que exerço hoje sobre os meus filhos.

Não tenho histórias do Aljube na família, mas li as histórias dos outros. Nenhum ascendente passou à clandestinidade, mas tenho uma admiração enorme por gente que deu esse passo. As minhas primeiras memórias são de momentos posteriores ao 25 de Abril.

25 foi bom, mas 26 não foi nada de especial. A vida não era muito fácil. Racionamento de bens alimentares, tensão social entre retornados e não retornados, etc. Teria eu 5 ou 6 anos. Nestas idades, a liberdade de expressão, o direito de associação e a posse de um isqueiro não são os grandes temas. As tortas com creme da padaria e a presença ou ausência do Nestum com Mel dominavam a minha lista de reivindicações e exigências.

E depois passaram-se 40 anos e fascismo nunca mais.

E todos os anos se celebram uma série de coisas não tendo eu conhecido verdadeiramente a ausência dessas coisas. É como festejar o sol nascer todos os dias e pôr-se à noite. Acho bem que toda a gente se ponha em jeitos de felicidade, mas eu, sem a achar mal, não consigo entusiasmar-me tanto.

Também não sou grande fã da música de intervenção. Quer dizer, as letras são anormalmente boas, mas a melodia, as vozes, e a fronha de mal-encarados como o José Mário Branco e o Adriano Correia de Oliveira sempre me deixaram bastante a desejar. Safa-se o Zeca, mas não é suficiente para me fazer alinhar no movimento.

Já estão a ver que a minha ligação ao 25 de Abril não é por aí além. E tenho pena, porque tinha tudo para gostar especialmente da celebração. Liberdade e tal. Tudo coisas que acho bem. Mas ainda bem que podemos ir a votos. Assim podemos sempre optar por não aparecer. Só foi pena foi calhar ao Sábado este ano.

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O Sindicato dos Pilotos entregou hoje uma lista de 54 perguntas para as quais não tem resposta por parte não sei bem de quem.

Como o tempo de rádio é dispendioso o jornalista da TSF apenas pôde ler uma delas: “Se o governo vai privatizar a TAP por um valor pequeno, porque não entregar esse capital social aos pilotos?”. Posso não estar a citar com precisão, mas estou certo que era mais ou menos isto.

Ora, a mim nada me inspira mais que uma pergunta estúpida. E logo ali me propus acrescentar a minha própria lista de perguntas estúpidas a este rol, em total apoio ao sindicato. Só que ali era Aveiras, e tive de esperar um pouco até chegar a casa. Pelo caminho fui-me esquecendo de algumas. Para além disso um “sindicato” é por definição uma coletividade de pessoas e eu sou apenas um. A minha capacidade para gerar estupidez é bastante inferior. Não cheguei nem perto das 54. O que me faltou em quantidade (e que espero me ajudem agora a completar) espero ter compensado em qualidade.

Aqui vai a minha contribuição:

1. Onde pára o Abel Xavier?

2. Se uma criança de 1 ano roubar um ladrão e conseguir viver até aos 102 anos, pode ser presa após o perdão de 100 anos concedido a este tipo de crime, ou o mesmo prescreve?

3. Não faria mais sentido a expressão “com quantos paus se faz uma jangada” que a atual “com quantos paus se faz uma canoa”?

4. Se ao mesmo tempo receber a noticia pela TSF de que “As contas públicas registam melhoria”, e por email do Correio da Manhã, “Défice agrava-se”, devo considerar que ambas as notícias se baseiam no mesmo facto?

5. Será o Grupo Lena a empresa menos inerte do País?

6. Ainda a propósito da questão anterior, existem pulseiras eletrónicas em várias cores ou é uma cor única (e nesse caso, qual)?

7. …

 

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O marketing ferial é uma coisa tramada

por Fulano de Tal, em 07.04.15

De um dia para o outro tornei-me proprietário de uma boa dezena de canetas com o nome de empresas gravados, sendo que duas delas têm uma borrachinha na ponta capaz de deslizar sobre um iPad em substituição de um vigoroso dedo indicador. Estas duas empresas têm a minha predileção sobre todas as outras. Embora me tenham oferecido canetas, desprezo as empresas que não acrescentaram a borrachinha. Mais valia não terem investido nas canetas.

Possuo também, desde esta tarde, um bom saco de terylene. Na realidade não sei se é de terylene, mas queria lembrar-me do nome de um tecido que na minha cabeça fosse nobre, para ilustrar a boa qualidade do saco, e só me ocorre terylene porque com ele não vinham conhecimentos de alfaiataria, e a flanela eu reconheceria daquelas calças que em miúdo me faziam parecer ridículo (embora fossem quentinhas).

O saco também tem gravado o nome da empresa: EGOR. Não conheço mas reputo-a já como uma das melhores empresas na área em que atuam, que não sei qual é, mas pelos dizeres deve ter a ver com recursos humanos.

O marketing ferial é implacável. Eu cá substituo qualquer fornecedor a troco de um porta-chaves ou uma lanterna. Dentro do saco brochuras lindas em gramagens que eu pensava serem reservadas ao catálogo da Sotheby’s. Gruas vistosas circulando num campo de papoilas. Paletes de várias cores alegrando a vida quotidiana de jovens de minissaia. Uma combinação estranha do mundo da logística (tema da feira) e o mundo do sexo kitado com opiáceos (tema que suspeito ser o sugerido pelas jovens e pelas papoilas).

Apeteceu-me comprar aquilo tudo e alimentar-me 3 dias só à base dos rebuçados marcados da Kuehne und Nagel.

O nosso departamento de marketing, do qual sou o único recurso (em part-time), optou como sempre faz desde que me ocupo do departamento (ou seja, desde sempre), pela economia e sobriedade, conceitos pouco valorizados, a começar por mim. Éramos portanto a pior empresa de marketing da feira. Ainda bem que não somos uma empresa de marketing.

As nossas brochuras também eram facilmente notadas dentro dos sacos. Vinham completamente amarrotadas pelo peso das restantes. Perante tanta seleção no 360imprimir.pt acabei por me confundir com os termos “couché” e “mate” e a escolher um papel que fazia lembrar o higiénico, antes de alguém ter a ideia da “folha dupla”.

“Foi uma pechincha” lembro-me perfeitamente de ter pensado logo a seguir ao enter final, enquanto punha o meu melhor sorriso idiota.

Mas o que nos falta no marketing sobra-nos em competência técnica. E felizmente há sempre alguém na feira que não olhou ainda para o conteúdo dos sacos, pelo que tivemos uma prestação muito aceitável. Obrigado por terem perguntado.

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Empreendedores em contraciclo

por Fulano de Tal, em 06.04.15

Belíssima reportagem da TVI sobre "empreendedores em contraciclo".

Gente que "gera riqueza na proporção inversa em que o país o consegue fazer". Apetrechei-me dos óculos de ver ao perto, e da coberta quentinha, e fiquei ali à espera dos empreendedores, gente anónima que vence as probabilidades do país em que vivem. Cristina Ferreira é uma destas empreendedoras. Sim, a apresentadora do Goucha. E o empreendimento dela é um blog. A seguir o apostador profissional que já apareceu em tudo o que é gato-pingado de jornal das 8. Fala do Ferrari.

São estes os exemplos que a TVI encontrou para exaltar a capacidade de empreender dos Portugueses: podemos optar por nos tornarmos numa estrela de televisão, multimilionariamente paga, e só depois criar um blog, ou em alternativa, deixar os estudos para apostar em resultados desportivos, o que se não é ilegal, deve andar lá perto.

Por esta hora já meia dúzia de estúpidos se estão a registar na Bwin para perder as poupanças da família. E se a TVI fosse bardam***a?

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