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O que os bifes pensam de nós

por Fulano de Tal, em 27.01.15

Eu pareço um pouco ridículo no meu Hyundai i10 verde fosforescente, pequeno demais para um matulão como eu. Mas sabe-me bem a chauffage até ao trabalho e não rapar os 0 graus na volta.

Ligo o rádio na BBC4, onde nunca ouvi qualquer música, apenas gente tagarelando. Hoje na volta, curiosamente apenas tempo para ouvir duas notícias e logo ambas envolviam Portugal.

. A primeira, uma reportagem sobre os vistos gold. “Bem-vindo às Amoreiras” ouvia-se no início para logo uma voz começar o assalto à nossa honra “In this luxury shopping center…”. Comparado com o Ford’s de Lutterworth, é um facto inegável que o Amoreiras entra na categoria do luxo asiático, mas isto é apenas o mote de toda a reportagem. Os defensores dos vistos enquanto geradores de riqueza são “colados” à imagem de “large corruption schemes led by the highest ranking authorities”. Os que se pronunciam contra são associados a “large majority of citizens who question this”.

. A segunda toca Portugal de raspão. Tem a ver com a escassez de enfermeiros no sistema de saúde britânico. Portugal é apresentado como um local de recrutamento de enfermeiros baratos capazes de suprir essas necessidades. Mas ao mesmo tempo gente que toma o lugar que poderia ser desempenhado por nacionais. “Where are our nurses?” pergunta a locutora. Para quem já vinha embalado pela notícia dos vistos gold, como eu, surgiu-me logo a imagem de uma associação de malfeitoras formada por enfermeiras Portuguesas tomando conta do mercado negro do paracetamol e do ácido acetilsalicílico.

Agora estou aqui no pub do hotel. Quem cá estava antes de mim saiu quando eu cheguei. Pergunto-me se saberão que sou Português. Talvez tenham vindo a ouvir as mesmas notícias e receiem contactar com um ilustre representante de tão corrupto povo.

O que vale é que o Bilbo, o Frodo e o Gandalf estão a chegar e não ouvem a BBC.

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Hábitos alimentares

por Fulano de Tal, em 27.01.15

A empresa que me acolhe esta semana é muito catita. Os escritórios são bonitos, espaçosos, alusivos à indústria em que eles se especializaram. No andar de cima tem uma pequena copa, onde desde ontem eles tentam desesperadamente alimentar-me, trazendo-me todo o tipo de víveres que eu repudio com bastante vigor: “isto tem salsa”, “aquilo tem tomate”, “esta sandes tem umas ervas que eu não reconheço”.

Coitados. Especialmente coitada da S., que tem por missão fazer as compras e me pergunta todos os dias o que vou querer. Vai para casa com os nervos em franja.

Aposto que me chama nomes assim que viro costas. Hoje enquanto estava ali sentado, a comer a salada de frutas que finalmente tinha acordado com S., apareceu M. para me fazer uma demonstração de grotesco. Vinha com duas batatas na mão, com uma faca picou-as à minha frente, com casca e tudo, e vai de meter aquilo no micro-ondas. Suponho que tenham ficado cozinhadas porque sobre elas célere correu um molho castanho onde vislumbrei umas feijocas. Ali ficámos um pedaço, sem dizer palavra. Ela provavelmente com receio que eu lhe cobiçasse a feijoada. Eu com medo que ela ma oferecesse e tivesse de lhe confessar a minha repulsa.

Ficámos portanto em silêncio, até que eu não aguentei mais e vim embora escrever este texto.

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Viagem pelo Shire

por Fulano de Tal, em 27.01.15

Lutterworth – Imagino que estejam ansiosos por saber notícias do Shire e à falta de uns romances do J.R. R. Tolkien, que seriam em qualquer caso fantasiosos, eu serei a fonte mais precisa de notícias, precisamente a partir daqui Lutterworth, Leicestershire. Começo por fazer notar que me encontro no restaurante mais movimentado de Lutterworth, em plena hora de ponta para jantar. Encontro-mr pois sozinho na sala.

O restaurante está envolvido em todo este complexo turístico em que me encontro hospedado “The Greyhound Coaching Inn” e que é uma espécie de casa do Frodo Baggins, mas sem o verdejante prado imaginado pelo delirante Tolkien. Era aqui que paravam as caravanas do correio, se arreavam os cavalos e refrescavam os carteiros. É muito fácil dar com isto em Lutterworth, porque só existe uma rua e o The Greyhound Coaching Inn situa-se nela.

Temos por vizinhos:

- o Ford’s, uma loja do chinês mas de Ingleses, com tudo o que necessário para qualquer atividade, incluindo o adaptador de corrente que me permite neste momento estar a escrever, com a bateria nuns confortáveis 65%. A senhora da caixa trata-me por “Love”. “Sorry Love, you can only use your card above 6 pounds”.

- o Cavalier Inn, um pub (“with accomodation”) onde dois bêbados bloqueiam a porta.

- o Goodman’s, uma funerária que anuncia os seus colaboradores como “Funeral Directors”.

Segundo notícias que me são veiculadas pelo casal que gere este espaço, aproxima-se uma frente ainda mais fria do que aquela que aqui se encontra instalada. Virá de Nova Iorque onde os locais enfrentam a maior tempestade de neve de que há memória, e dirige-se para Lutterworth. Para mim são os gajos com a mania das grandezas. Como se alguma coisa que tenha estado em Nova Iorque tenha algum interesse em dirigir-se de seguida para o Shire.

Aliás este casal é vagamente aparentado à família Adams. Sempre que me volto lá está um deles, ou o Robert ou a sua mulher alemã, a sorrir para mim por detrás de uma estopa qualquer. Sempre presentes. Hoje acordei a meio da noite e pareceu-me ver a cara de um deles atrás do armário, mas afinal era apenas um quadro de um anónimo.

A Igreja de Lutterworth está à venda. Parece um edifício sólido e quantas são as oportunidades de ser dono de uma Igreja?

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A razão pela qual não conseguia encontrar umas razoáveis ceroulas no mercado nacional era afinal muito simples: o termo "ceroulas" foi abandonado em favor do mais moderno "collant" (que pode ser sufixado pela expressão "para homem") ou do mais internacional "Long John's". Dica importante para outros que como eu padeçam de frio nas pernas.

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Sensual caminhar

por Fulano de Tal, em 16.01.15

Peço que não se precipitem em conclusões ao ler o primeiro parágrafo deste texto, que nada tem de louvor a mim próprio, mas hoje ao passar pela fachada espelhada de um banco, apercebi-me que desenvolvi ao longo dos anos um sensual caminhar. Isso mesmo. Não leste mal. Um sensual caminhar, foi mesmo o que eu disse, e tenho a intenção de explicar isto adiante.

O facto é que eu não caminho como antigamente, colocando pesadamente um pé diante do outro, e impulsionando o torso para diante em simultâneo. Isso era antes. Agora avanço num dançar ritmado. Deslizo, como na música, elegantemente em direção aos meus destinos, sejam eles quais forem.

E não faço isto há muito tempo. É coisa recente. Ao tentar perceber as razões desta feliz transformação, dei-me conta que esta dança não é uma ritmada mímica de uma melodia que me vai na cabeça. É antes a resposta do meu corpo às artrites que me inflamam as articulações. É como se eu destilasse elegância a partir de um qualquer processo ortopédico. É bom e mau, em simultâneo.

Se eu esticar o pé para diante, o meu fémur bate teimosa e estrondosamente na tíbia, sem qualquer amortecimento por parte do menisco ressequido e mal nutrido. As dores no joelho tornam-se horríveis. O impacto de um passo pesado nos meus tornozelos resulta em igual consequência, mas desta vez são o tálus e o perónio os queixosos. O calcâneo está inutilizado pelo uso. Da cintura para baixo, todos os meus ossos adjacentes deixaram há muito de se apoiar e articular, e agora confrontam-se e batalham-se. As cartilagens e tendões e ligamentos já não protegem, nem absorvem quaisquer impactos.

A boa notícia disto tudo é que o corpo é dotado de inteligência, e percebeu que se combinar o passo da perna direita, com um pequeno arquear ao nível da nádega esquerda, para além de conter as dores, obtém um gracioso passo. Gingar os ombros impelindo o braço oposto ao da nádega que arqueia, dá o embalo necessário a que se avance, e compõe o quadro de sensualidade de quem se desloca sobre uma fina camada de ar. E foi isto que eu vi na superfície espelhada daquele banco. A elegância é portanto um simples efeito colateral da osteoartrite aguda que me rói a cartilagem e me inflama o tecido sinovial. Menos mal.

Preparado para as décadas de artro-marotice que isto prenuncia.

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Carregar as fezes de alguém é uma prova de amor

por Fulano de Tal, em 06.01.15

Enche o meu coração de Amor. Não, isto não é uma daquelas mensagens motivacionais. É a descrição de um momento em concreto que enche o meu coração de Amor. Amor verdadeiro, emocionado. Falo obviamente daquele momento em que os donos de adoráveis cachorros calçam a luva de plástico (ou em sua substituição, colocam um pequeno saco opaco virado do avesso na mão), e coletam o excremento longitudinal do seu animal de companhia, carregando-o carinhosamente consigo, para um destino qualquer de que não suspeito.

Até me ter dedicado, durante boa parte da manhã de ontem a observar estes estranhos duos unidos na escatologia, pensava que aquele era um ato de civismo. Que o que estava em causa era a proteção do transeunte seguinte. Que ingénuo fui. É muito mais do que isso. Muito. Muito mais.

Primeiro a caminhada, com o objetivo de relaxar o esfíncter do canídeo. Depois o momento definitivo. O desalento, se o animal se encontra desarranjado, ou o alívio, ao ver um fulgurante troço sólido. Mas no essencial, a preparação para o que der e vier.

Julgo que não haverá maior prova de afeição do que carregar as fezes de alguém. Carregar é uma demonstração superior inclusivamente à que se experiencia durante a limpeza do ânus que acaba de obrar. Sei do que falo, porque tenho um filho de 4 anos.

Claro que, mesmo neste patamar de excelência da afetividade, existe quem se destaca. E obviamente criei uma escala. Uma escala de provas supremas de ligação, de apego e de ternura.

Quem usa as mãos nuas para fazer a coleta, por exemplo, salta para o topo desta escala. Ou, num estádio imediatamente seguinte, quem usa sacos transparentes, ao invés dos opacos. Mas estas gradações apenas são percetíveis com um olhar treinado como o meu. Também graduei os proprietários pelo porte do cão. É de elementar justiça que se coloque um saco de plástico opaco, aplicado a exuberante excremento de pastor alemão alimentado de carnes vermelhas, ao mesmo nível de um saco transparente para as pequenas e reluzentes bolinhas de um caniche que sobrevive numa dieta de rações de cereais.

São muitas as variáveis que estabelecem estas equivalências. Aconselho-vos a não perder muito tempo a entender a complexa mecânica desta minha escala.

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Família circense

por Fulano de Tal, em 05.01.15

Leandra Carina é o nome da mais nova da família circense de pai, mãe, dois filhos já homens e Leandra. Sinceramente.

Diz a mãe que aquilo é uma "iarte". Uns palhaços irados, rabugentos e cínicos a falaram mal de outros palhaços que "não merecem o nome de palhaço" (n.d.r. Wtf?). É a nossa versão do "Cirque du So Lame".

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