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O magnífico urinol do cinema S. Jorge

por Fulano de Tal, em 31.10.14

Quem me conhece sabe que os urinóis são um dos meus tópicos favoritos. Elejo-os entre outros temas igualmente excitantes, como as estações de correios, ou as repartições de finanças, essencialmente pelas inovações tecnológicas, normalmente em favor da proteção ambiental, como as novas tendências dos urinóis que não fazem uso de água, entre outras.

Sou consciente de que o fenómeno da micção não exerce sobre o sexo feminino o mesmo fascínio que exerce sobre nós homens. Admito que seja porque connosco o espetáculo se desenrole mesmo diante de nós, perante um olhar atento para que aos movimentos não escape a necessária minúcia, e não debaixo do abrigo esconso do nosso corpo, executado distraidamente, não requerendo o êxito da operação qualquer competência particular.

O urinol de hoje é no entanto particular. Transporta-nos à primeira metade do século XX, onde consigo imaginar dezenas de homens perfilados nos pequenos compartimentos, enquanto mais uma centena esperava pacientemente a sua vez. Já não se fazem coisas destas, e tristemente poucas se preservaram das que existiam. São dezenas de posições, na melhor louça Portuguesa.

Por se tratar do urinol do São Jorge faz-me imaginar noites de teatro repletas da gente que agora escasseia. Detive-me ali talvez uns 4 minutos e meio, sempre na maior solidão, agravada pela grandiosidade deste local. Num bom dia, talvez numa estreia, ou numa gala beneficente, o débito deste urinol permitiria irrigar uma parte generosa da planície alentejana.

Tenho muitas saudades destes métodos agro-pecuários da lavoura de outrora, sem pesticidas, gota a gota e adubos sintéticos. Os tempos em que as alfaces eram viçosas mas apenas numa parte do ano, em que os teatros enchiam, e a malta não se escondia por detrás de portinholas fechadas a cadeado na hora de se aliviar. Faziam-no em sociedade, quem sabe entreolhando-se ou mesmo conversando sobre trivialidades.

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Ardis de empresas de catering menos escrupulosas

por Fulano de Tal, em 20.10.14

Fui vítima de fraude, e quero relatar tudo para que vocês não sejam também enganados. Conto-vos como tudo se passou. É muito importante que atentem a todos os detalhes para não caírem no mesmo ardil, perpetrado por empresas de catering menos escrupulosas.

Fui convidado para estar presente num almoço numa universidade. Uma coisa catita, com uns senhores e senhoras muito simpáticos e importantes, e portanto o evento revestia-se de algum formalismo. Apesar de tudo éramos poucos os comensais. A quantidade aqui é relevante na medida que é inversamente proporcional à intimidade. Menos pessoas, mais intimo. Mais escrutinada a minha prestação.

Para verem que levei isto a sério, usei pela primeira vez em 3 anos uma gravata. Estive meia hora a tentar recordar os volteios necessários ao nó duplo, o único capaz de suster a minha papada de forma minimamente elegante.

Como conheço as falências do meu palato, olhei rapidamente para os acepipes. Ao longo dos anos desenvolvi esta técnica de escrutínio dos hors d’oeuvres. O meu cérebro, num simples relance, rejeita imediatamente tudo o que contenha vegetais visíveis, e também os invisíveis, como as suspeitas mini chamuças, entre outros. Por outro lado sinaliza positivamente os mini croquetes e algumas variedades de mini rissóis, como seguros.

Desta vez as sinapses deram nota positiva aos mini croquetes. Contei-os, e seriam aproximadamente 12, para 7 pessoas. Mentalmente calculei a minha probabilidade de despachar 40% antes de eles se esgotarem e sem parecer o Gargântua, pai de Pantagruel, sabendo que outros se ocupariam aleatoriamente dos demais fritos. Agarrei-me ao primeiro.

Ao contrário do que mandam as boas práticas, que sigo fielmente há anos, não fiz uma análise cuidada ao croquete, porque nessa altura alguém esperava de mim uma resposta muito inteligente a uma pergunta qualquer sobre conteúdos pré e pós Bolonha. Antes de começar a falar dei uma generosa trincadela no croquete. E foi aqui que detetei o ardil de que tinha sido vítima. As minhas papilas gustativas, que normalmente acolhem com hospitalidade qualquer croquete, iniciaram um estertor angustiante. Nauseadas gritavam por socorro. De olhos lacrimejantes lá larguei uma bojarda sobre Bolonha, enquanto dei uma olhada à metade de croquete sobrante. O conteúdo era verde. Um verde vivo, de uma textura cremosa. Mascarado de carne, tinham-me servido um venenoso esparregado, que naquela situação não tive remédio senão engolir. Revoltante.

Espero que fiquem alerta para estas empresas de catering, uma indústria pouco regulamentada, onde como se pode verificar pela história acima, tudo vale para cortar custos, inclusivamente a dissimulação de um espinafre numa fina e crocante camada de pão ralado, normalmente reservada unicamente às saborosas entranhas de um suíno.

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31 benefícios da vaselina

por Fulano de Tal, em 17.10.14

Alguém me pode indicar onde posso ler quais os 30 benefícios que a Vaselina Vasenol, produto acabado de chegar a Portugal, tem ? Na página da Vasenol falam nos 30 benefícios, mas nunca os referem. Eu ando cá com a minha que são 31, e só queria confirmar.

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Penso que por vezes não damos o devido valor à publicação de maior tiragem em Portugal. Estou obviamente a falar do Correio da Manhã.

Achincalhamos o jornal e quem nele trabalha, comparamo-lo a pasquins de escândalos do Reino Unido, zombamos das notícias. Até o Cristiano Ronaldo se propôs esta semana desconsiderar a jornalista que o interpelava simplesmente porque pertencia a este grupo editorial da Cofina.

Eu pela minha parte, aproveito todas as oportunidades que tenho para me debruçar sobre as notícias do CM, que me chegam até em formato newsletter, diretamente no correio.

Tenho por exemplo aprendido imenso sobre nanismo, um tema que não merece o destaque devido pela maioria da imprensa, tanto escrita como de outro tipo. Dois exemplos de notícias versando o tema do nanismo, que repentinamente parece ocupar o editor do Correio da Manhã acima de qualquer outro:

1. Noiva engravida de anão na noite de despedida de solteira. No texto subsequente percebe-se que a noiva apenas terá sido descoberta por ter concebido 9 meses depois (eu por acaso pensava que no caso dos anões eram precisos apenas 4 meses e meio) um lindo bebé que dizia: "Look! the plane, the plane" como aquele anão da ilha da fantasia. Ah... acresce a notícia a bem do rigor jornalístico que as amigas da noiva não sabiam do coito minimal.

2. Anão confundido com miúdo. Neste caso, o problema não sendo tão grave como o relatado na notícia anterior, levanta ainda assim questões de índole prática. O anão teria entrado num restaurante para cear com a namorada, tendo a empregada solicitamente entregue de imediato um estojo de lápis para colorir e um desenho ao franzino cliente, pensando tratar-se de um estafermo. Notem bem que, após detetar o mal-entendido a empregada terá "pedido desculpa", e aqui estou a citar fielmente o texto para que não se perca nada. Tudo isto se terá passado em Inglaterra, e se não fosse relevante não seria tão veementemente indicado na notícia.

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Controlo de raiva

por Fulano de Tal, em 05.10.14

Conhecem algum bom centro, daqueles onde se fazem uns cursos de “Controlo de Raiva”, que me possam aconselhar?

Ando envolvido num número cada vez maior de incidentes quási-violentos, envolvendo outros automobilistas no meio do trânsito. Antigamente, quando isto era episódico, atribuía estas ocorrências à falta de habilidade, ou civismo, dos outros automobilistas. Mas hoje, ainda estava a mostrar o dedo do meio ao sacana do barbudo que se meteu à minha frente na subida para a antiga rotunda do Batista Russo, quando me apercebi que era agora sistémico e dou por mim a pensar: “Espera lá, se calhar sou eu que ando nervoso…”.

Ainda lhe atirei um piropo, envolvendo a mãe dele, mas já não me soube ao mesmo.

Na minha cabeça, já se havia dado o clique. Nada escapa à minha fúria motorizada. Insulto idosos, jovens, mulheres e crianças. Abro generosamente as janelas para que nenhum detalhe dos impropérios escape aos filhos da mãe. Quero que oiçam todas as palavras, que soletro com máximo cuidado, e vejam todos os gestos que teatralmente lhes reservei para ao momento.

Até eu me surpreendo com alguns dos palavrões que profiro, e que juro, até àquele momento desconhecia por completo. E depois há aquele momento embaraçoso… o silêncio quando termina. Olho pelo retrovisor para os meus filhos no banco de trás. Eles tentam disfarçar e parecer distraídos. Como que a dizer-me “faças o que fizeres, serás sempre o nosso pai”.

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