Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Recebemos o que damos

por Fulano de Tal, em 18.07.14

“Hi, can you take me to the 15th with M Street please?” A taxista, no mínimo sexagenária e obesa, olha para mim por cima dos óculos.

“Northeast or Northwest?”

Fiquei paralisado pela pergunta e pela carranca. Pensei que sendo perpendiculares apenas se cruzariam uma única vez, o que à luz da minha parca inteligência, fazia deste sistema onomástico o mais perfeito do Mundo.

A minha hesitação não a dispôs melhor. Impacientava-se. "Northeast or Northwest ???"

“Near the convention center”.

Murmurou qualquer coisa e meteu-se a caminho. A viagem era 12 dólares longa, pelo que aquela velha carcaça ameaçava torná-la um pesadelo de silêncios e constrangimentos.

Com a autoestima em níveis mínimos, perguntei-lhe: “So, you are from DC?”

“I live here for 46 years”

“Really? You came as a child then?” A velha raposa que há em mim sabia do efeito que esta aparentemente inocente questão provoca em velhas rabugentas. Estava a tirar-lhe do lombo no mínimo 15 anos. Melhor que isto era a cabrona ir ao Ivo Pitanguy.

“Ah ah ah… I have a great grandson already hun…”

Efeito imediato. “Sou bomba”, pensei com os meus botões. E não ia ficar por ali. Iria sacar sorrisos à lambisgóia desde o Lincoln Memorial até ao Westin DC City Center. Ou não me chamasse fulano de tal.

“You know what? I have to confess that I misjudged you.”

“And how did you do that, hun?”

“Well, when I entered the cab I thought to myself: this lady is not very nice and will give me a hard time. Now I see I was wrong, because you were able to laugh after all”.

“Ah ah ah ah…”. Cremalheira arreganhada. O resto da viagem foi das mais agradáveis viagens da minha miserável existência de utente de táxi.

Moral da história: recebemos o que damos.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor