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O gasolineiro tatuado de Santigo do Cacém

por Fulano de Tal, em 26.07.14

O gasolineiro tatuado de Santiago do Cacém tirou-me a pinta assim que saí do carro, de óculos escuros, e boné camuflado dos US Marines, comprado numa loja de pechisbeque de Georgetown.

"Diesel ?"

"Sim"

Por debaixo da farda da BP era possível divisar as tatuagens de cores garridas, no peito, nos braços. Imaginei que algumas delas, pelo ar tosco, feitas numa penitenciária qualquer.

"Vai para o Algarve?"

"Vou, mas ainda passo ali em Santo André, a buscar uma pessoa"

"Pá, só um conselho: não vá por Sines. É polícia por todo o lado."

Olhei-o por cima dos óculos, mas não mexi um músculo. A ideia de "polícia por todo o lado" por alguma razão não me parece tão aterradora a mim, como lhe parecia a ele. Imagino que ele também me tenha olhado de soslaio. O meu ar de marginal não era condizente com aquela passividade perante a ideia de uma rusga da BT.

"O problema não é estarem em todo o lado. É que andam com cães... por causa do festival de músicas do mundo".

Resolvi dar-lhe um momento de felicidade. Levantei o sobrolho

"Cães?" A minha cara transformou-se num silencioso "Oh diabo!".

"É. Se levar alguma coisa..." Riu-se.

"Pá, então se calhar volto para trás" Ri-me. Carro atestado. Estendo-lhe a mão, naquele jeito em que os polegares encaixam e no mesmo movimento aproximamos os ombros. Como manos. Por uns segundos, irmanados pela coca que eu não transporto no carro, fato que ele desconhece.

"Obrigadão!"

"Boas férias"

Dois niggas no meio de nenhures.

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Pergunta a um nutricionista

por Fulano de Tal, em 24.07.14

Pedido a todos os nutricionistas a quem esta mensagem chegue.

Tenho um amigo que comeu 3 mousses de chocolate ao jantar. Ainda que hipoteticamente este amigo tenha optado por um cefalópode grelhado para prato principal (suponhamos, choco), e considerada a atenuante de a mousse ter um ligeiro travo a limão, a pergunta é: qual o número de calorias que este meu amigo poderá ingerir amanhã ao almoço, pressupondo que se encontra num rigoroso regime de perda de peso ?

PS: Este meu amigo é o mesmo que uma vez foi a um bar de strip. Julgo que esta informação é irrelevante, mas não quero que pensem que sou eu.

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Cultura geral Inglesa

por Fulano de Tal, em 24.07.14

“Quanto custariam 14 caixas de alguma coisa, sabendo que 4 caixas custaram 2,42 Euro?”

Foi sem resposta para esta insistente pergunta que acordei esta noite por volta das 4 da manhã, afogado em suor e com os lábios a rebentarem de dor. A febre não me dá tréguas e deliro como um interno psiquiátrico.

“Quanto custariam 14 caixas de alguma coisa, sabendo que 4 caixas custaram 2,42 Euro?”.

Não faço a menor ideia. Nem consigo pensar em como abordar o problema, quanto mais soluciona-lo. - Quatro estão para 2,42 como 14 para x. E agora? - Se 4 são 2,43, então 2 são 1,21, 1 é … 21 é primo! Não divisível por 2. Irra.

Lembro-me de ter lido esta pergunta. Era comum no Reino Unido, sempre que se entrevistava o responsável pela pasta da Educação encaixar uma pergunta destas no fim da entrevista.

“Já agora, que estamos a terminar, quantos são 9 vezes 7?” Apanhados de surpresa os ministros baqueavam e passavam por estúpidos. Até me lembro da resposta que foi dada àquela primeira pergunta em particular “I haven’t the foggiest”, disse o Ministro.

Às 4 da manhã não tenho qualquer pressa em obter uma resposta, mas o meu cérebro diz-me para reagir rápido ou deitar-me como um obscuro idiota. Tic, Tac… quanto custariam 14 caixas… tic, tac…. o tempo está a esgotar-se… tic tac. Não te exponhas, tic tac… ninguém sabe que a pergunta te foi feita e que não soubeste dar-lhe resposta… tic, tac.

Era assim que se avaliavam os ministros da educação. Perante todo o país, e com perguntas de cordel.

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Portugal típico

por Fulano de Tal, em 21.07.14

Apanhado a passear na rua, e questionado pela TVI, um francês de ar emproado diz que gosta muito de Cascais.

"Corresponde à imagem que tinha de Portugal" diz ele.

Na minha aldeia, Zé Decilitro e o Periquito, entreolham-se e largam um sorriso mostrando a fileira de dentes entremeados entre o amarelo e o podre. Depois dão um gole lento e saboreado na bagaceira, limpam a boca com a manga da camisa, aberta até ao peito, arrotam em coro, riem novamente, e vão cada um à sua vida.

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Recebemos o que damos

por Fulano de Tal, em 18.07.14

“Hi, can you take me to the 15th with M Street please?” A taxista, no mínimo sexagenária e obesa, olha para mim por cima dos óculos.

“Northeast or Northwest?”

Fiquei paralisado pela pergunta e pela carranca. Pensei que sendo perpendiculares apenas se cruzariam uma única vez, o que à luz da minha parca inteligência, fazia deste sistema onomástico o mais perfeito do Mundo.

A minha hesitação não a dispôs melhor. Impacientava-se. "Northeast or Northwest ???"

“Near the convention center”.

Murmurou qualquer coisa e meteu-se a caminho. A viagem era 12 dólares longa, pelo que aquela velha carcaça ameaçava torná-la um pesadelo de silêncios e constrangimentos.

Com a autoestima em níveis mínimos, perguntei-lhe: “So, you are from DC?”

“I live here for 46 years”

“Really? You came as a child then?” A velha raposa que há em mim sabia do efeito que esta aparentemente inocente questão provoca em velhas rabugentas. Estava a tirar-lhe do lombo no mínimo 15 anos. Melhor que isto era a cabrona ir ao Ivo Pitanguy.

“Ah ah ah… I have a great grandson already hun…”

Efeito imediato. “Sou bomba”, pensei com os meus botões. E não ia ficar por ali. Iria sacar sorrisos à lambisgóia desde o Lincoln Memorial até ao Westin DC City Center. Ou não me chamasse fulano de tal.

“You know what? I have to confess that I misjudged you.”

“And how did you do that, hun?”

“Well, when I entered the cab I thought to myself: this lady is not very nice and will give me a hard time. Now I see I was wrong, because you were able to laugh after all”.

“Ah ah ah ah…”. Cremalheira arreganhada. O resto da viagem foi das mais agradáveis viagens da minha miserável existência de utente de táxi.

Moral da história: recebemos o que damos.

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United breaks guitars

por Fulano de Tal, em 15.07.14

Hoje estive numa sessão com um cavalheiro chamado Dave Carrol. É músico, escreveu e gravou uma música depois de ter uma péssima experiência de Serviço a Clientes, com a United Airlines. A canção, e mais duas que se lhe seguiram, foi gravada após meses de conversa com a United que se recusou sempre a reparar o erro.

Meses no labirinto do serviço a clientes, a falar com gente que lhe dizia “Não” mas que nem sequer tinha a autoridade para lhe dizer “Sim”, incluindo call centers na India e tudo o mais que vos pareça familiar das vossas próprias experiências.

O orçamento do vídeo foi de 150 Dólares, gastos essencialmente em sombreros e bigodes falsos. Tornou-se o vídeo mais visto no Youtube, e o Google chamou-lhe “O vídeo mais influente da Internet”. Harvard faz anualmente um case study com este vídeo. A pergunta “Quem gravou o vídeo United Breaks Guitars” foi pergunta para 100.000 Dólares no Jeopardy.

O Dave estrelou os principais programas de TV americanos e tornou-se conferencista sobre Customer Service e Storytelling.

Um aspeto curioso: entre a 2ª e a 3ª música serem libertadas, Dave foi contatado pela United que até ali tinha ficado quieta, sem comentar, à espera que passasse aquilo que pensavam ser uma “moda”. Queriam reparar o erro oferecendo 1.200 Dólares, para reparar a guitarra (aquilo que inicialmente Dave tinha pedido). Disseram que não faziam aquilo pelo vídeo, era apenas a forma como qualquer cliente seria tratado. Dave recusou mas ofereceu-se para escrever a 3ª música em conjunto com United. Falaria de uma mudança de política de serviço a clientes que a United implementaria para precaver estas situações. A United recusou.

A empresa perdeu 10% do seu valor em bolsa, enquanto que a Taylor (empresa que fabrica a guitarra que a United partiu) cresceu 25% em encomendas. Continua a carreira de músico. Diz que sempre que tentou vender a sua música falhou miseravelmente. A partir do momento em que começou a vender a sua história, as vendas da sua música dispararam.

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O cu e 5 tostões

por Fulano de Tal, em 13.07.14

"O rabo e cinco tostões". Expressão tão Portuguesa e que expressa com exactidão aquilo que eu daria para ter bebido o meu último café em Portugal, numa chávena de vidro.

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No caso de despressurização

por Fulano de Tal, em 11.07.14

Vou para Washington no Domingo. Estava aqui a planear a ida e, como sempre, existe uma coisa que me aflige nos voos como o raio que me parta. Não, eu não tenho medo de voar. Sentar-me naquela lata de 60 toneladas e voar, aliás fascina-me de cada vez como se fosse a primeira. Como diabos é que isto é possível? Os primeiros minutos fico sempre em silêncio e deslumbramento: "Porra...".

Mas há um momento que mesmo a dois dias de distância já começa a angustiar-me. É naquela altura das explicações do que fazer quando o avião cair (risos nervosos). Quando a menina fala das máscaras que vão cair em caso de despressurização. Talvez nunca se tenham apercebido, mas há um momento, são breves segundos, mas ele está lá sempre, em que a menina diz: "No caso de viajar com crianças, coloque sempre a sua máscara primeiro".

Que se lixem as crianças, subentendo eu.

Antes mesmo dela dizer aquilo já eu estou todo crispado. Bem sei a razão disto, mas ainda assim, aquilo cai-me mal como o raio. Logo eu, que era capaz de cortar a cabeça ao gandulo do 23F só para sair primeiro que ele caso o avião caia.

Dura apenas um segundo mas olho à volta, à procura de crianças, e imagino-as a sangrar do nariz, com os tímpanos a rebentar e a sufocarem da falta de oxigénio, enquanto os progenitores, todos lampeiros, colocam a máscara, se olham ao espelho para aferir da fotogenia, e riem alarvemente da sua condição, olhando um para o outro, alheios ao sofrimento dos petizes.

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Mãe natureza

por Fulano de Tal, em 08.07.14

Eu sou a prova viva de que a Natureza olha pelos comportamentos animais e se deteta que perdemos comportamentos, hábitos, que de alguma forma justificavam a função de determinados órgãos, então ela retira-nos esses órgãos, como se não precisássemos deles. Estou obviamente a falar do meu cabelo.

Nunca na vida fiz um penteado. Obviamente que o cortava, mas nunca me entreguei nas mãos minuciosas e delicadas de um coiffeur. Nunca possuí um pente ou uma escova (não aquelas lá de casa, mas uma que fosse só minha). Nunca dei verdadeiro uso ao meu cabelo, então a Natureza subtraiu-mo na presunção de que eu não precisava dele. E deve estar bem satisfeita com a decisão que tomou.

Afinal de contas para a Natureza a única coisa que interessa é a sobrevivência (e aqui estou!) e a procriação, a continuidade da espécie (afirmativo!). O que me ocorre é que a Natureza procura sempre, incessantemente, simplificar-nos. Como se estivesse atenta a todas as peças que poderão ser consideradas supérfluas à espera de as retirar impiedosamente.

É por isso que não perdi muito tempo a debruçar-me sobre a hipótese que me surgiu hoje pela manhã: se pudéssemos fazer um animal com várias componentes provenientes de espécies extintas, usando apenas as melhores partes de cada uma, conseguiríamos nós criar uma nova espécie, inextinguível ? A resposta seria obviamente que não. Porque lhe faltaria a inteligência para manter uma preocupação constante em ocupar todos os órgãos com afazeres distintos, que lhes conferissem função, evitando assim a sua amputação pela Natureza.

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Ciência

por Fulano de Tal, em 08.07.14

Uma das notícias do Jornal da Tarde de hoje, consistia na revelação de um estudo de um académico de Coimbra, cuja maior conclusão era de que o Verão este ano seria propício a incêndios.

Exaltado pela ciência, consciente de que a produção cientifica nacional não é exuberante, e aborrecido no water closet, acabo de produzir mais três estudos, todos eles alusivos ao Verão, cujas conclusões deixo aqui:

1. A prática de banhos de mar, especialmente em semana de marés vivas, este Verão, pode conduzir a trágicas perdas de vidas.

2. A ingestão de bebidas alcoólicas, este Verão, quando seguida de condução de veículos motorizados, pode dar origem a acidentes de viação de consequências dramáticas.

3. A ausência de controlo parental, em algumas festas deste Verão, pode conduzir a alguns romances estivais, especialmente na faixa etária dos 15 aos 18.

 

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