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Em política, só existe vida à esquerda

por Fulano de Tal, em 10.06.14

Em termos políticos, só existe vida nos partidos da esquerda. Quando digo vida, refiro-me a eventos realmente interessantes, que fujam à norma. São as tricas do PS, a coordenação bicéfala do Bloco, os partidos de dissidentes, os dissidentes sem partido, os movimentos (até os nomes são giros, como 3D).

À direita, nada de interessante. O Cavaco desmaiou... so what ?!! boring. Enquanto o Cavaco desmaiava, Seguro fez pelo menos 4 telefonemas, todos eles interessantes, para distritais do PS. Daniel Oliveira quase fundou um partido. Catarina Martins fulminou 10 militantes do CDS apenas com o olhar.

E isto tem uma génese. Uma génese da qual os atuais protagonistas não fizeram parte, tal como na experiência dos macacos, da escada e do cacho de bananas. Mas que os condiciona, e que condiciona as suas ações. À esquerda, tudo é uma conspiração. Ninguém é de confiança. Mas depois o valor mais prezado é o da camaradagem. Espetam-se facas nas costas, pela calada a noite. Mas a qualidade mais apreciada é a coragem.

Para entender isto é preciso ir a 1930. Mais coisa menos coisa. Imaginar uma esquerda clandestina, com os militantes sempre na expectativa de serem presos, porque um qualquer delator os entregue. Daí o medo, a suspeição. Depois imaginar que, nesta situação, das relações de confiança dependia muitas vezes a vida. Daí a camaradagem, as amizades que duram vidas. E se alimentam de copos, de tertúlia, de livros, de criatividade. Depois caía a noite, assentava o etanol e com ele a nostalgia de uma vida mais normal, e malhava-se no Sicrano, e desconfiava-se do Beltrano, e purgava-se o Fulano. Tudo isto num ciclo de extremos.

É obviamente simplista, mas é também por isto que à esquerda todos reclamam superioridade de carácter, embora as suas ações nem sempre condigam com essa condição.

Eu admito até que a partir de um certo nível de esquerdismo (se existisse uma espécie de aparelho que o medisse numa escala qualquer), se torne impossível a um sujeito ser consciente dos seus defeitos, da sua condição humana. Ser de esquerda é ser supra-humano, nesse sentido. Como aqueles homens, gordos e feios, que ao ver-se ao espelho apenas vêm abdominais firmes, peitorais potentes, e uma carinha laroca.

Lembrei-me disto ao ler esta passagem do livro sobre o Pavel, mítico militante comunista. O autor é Edmundo Pedro, menos mítico, e como viveu mais tempo, transgrediu progressivamente para o PS. Nesta passagem o autor fala de Álvaro Cunhal, e chama-lhe fanático. Depois lá vem o carácter: “Não está no meu carácter denegrir a imagem de quem quer que seja”. Isto depois de chamar pouco mais que estúpido ao Francisco Miguel (outro mítico militante). Claro que “estúpido” não é um problema de carácter, pelo que não tem qualquer problema. Quanto ao Cunhal, tratará de o denegrir adiante, mas com “argumentos sólidos”. O que nesse caso já não será denegrir, mas somente repor a mais elementar verdade. A esquerda está bem resumida neste pequenino parágrafo.

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