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Criativos a mudar mentalidades

por Fulano de Tal, em 15.05.14

Estava aqui a imaginar que a minoria mais desprotegida e maltratada do planeta, de repente podia contratar o criativo mais reputado para lhes criar uma campanha que ajudasse a mudar as mentalidades, a resolver preconceitos.

O criativo recolheria ao seu estúdio, com a sua equipa de publicitários e designers. Começaria por fazer estudos elaborados e semicientíficos sobre o comportamento daqueles que a tão desejada campanha supostamente atingiria. Porque uma campanha deve ser assim, diria ele, suportada em informação, sobre a qual possamos depois nós, aplicar a nossa arte.

Estas mesmas frases fariam parte do briefing à sua equipa. Todos recolheriam entusiasmados aos seus iMac's. O designer sonhando com logotipos, o publicitário gritando slogans em belas fontes true type, o criativo cozinhando a estratégia que combinaria tudo isto em prol do objetivo.

Duas entusiasmantes semanas depois, após sessões de brainstorming, focus groups, e sessões em outdoor com o cliente, 3 milhões de Euros depois, chega finalmente a hora de apresentar a estratégia.

O grupo que representa a minoria oprimida está ansioso, sentado na grande sala de plasmas do estúdio do criativo. Um pano negro tapa o ecran do plasma principal, como que escondendo a obra prima. Apesar da sala inicialmente vazia, nenhum dos representantes da minoria se atreve a espreitar para lá do pano negro. Receiam que isso possa arruinar a apresentação, embora pensem que, sendo este um estúdio de publicitários, talvez o objetivo do pano seja esse mesmo, o de provocar a curiosidade. Que talvez existam camaras a filmar a reação deles, que tudo isto possa ser já parte da campanha, que se pretende venha a ser viral. Entra a equipa de publicitários e começa por discorrer sobre os objetivos, as etapas percorridas, todo o conhecimento acumulado.

Na sala apenas assentimento e antecipação. Todas as peças parecem encaixar e conduzir a um finale em grande pompa. As mãos do publicitário precipitam-se então para o pano negro. Os representantes da minoria entreolham-se não conseguindo um deles conter um nervoso risinho. A tela desvenda uma mulher de barba.

O nome dela é Conchita Salsicha (ainda não tinha visto esta associação à tradução literal do sobrenome) e será a base de toda a campanha. O que é que vocês sentem agora ? Eu sinto o anticlímax na sala.

Não estou absolutamente convencido que a Conchita Wurst seja uma manifestação a favor do direito de uma qualquer minoria que se sente desprotegida, ou maltratada. Talvez seja só uma personagem. Nós também enviámos os Homens da Luta o ano passado. Dois atores com um número musical. Aliás, sempre tive muitas dúvidas sobre estas manifestações, das quais se diz: "é para chocar", para logo a seguir dizer que "ajuda a mudar mentalidades". Não vejo como.

Imagino a maior empresa de marketing do mundo a criar uma campanha para mudar mentalidades, e não consigo pensar que aquilo de que se lembrariam seria uma parada de homens vestidos apenas por finas tiras de couro em cima de uns tratores de carnaval. Ou que se lembrariam de "criar" uma Conchita Salsicha. Também não percebo a manifestações de indignação. Tudo isto é apenas mau marketing.

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