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Homens no banho turco

por Fulano de Tal, em 23.01.14

O banho turco é um lugar solitário por natureza. Não é suposto entabular conversa com desconhecidos enquanto destilamos cloreto de sódio e ureia em solução, e muito especialmente no meu caso, dejetos de nitrogénio, pelas glândulas sudoríparas da pele. (a.k.a. "suamos que nem porcos").

Eu normalmente grunho um bom dia ou boa tarde, e está a conversa arrumada. Estes grunhidos fazem-se à entrada, para quem está. Nunca à saída, para quem fica. A saída quer-se rápida. Sair de um banho turco não se assemelha de todo a uma saída, mas sim a uma fuga. Existe um código não escrito que estabelece estas regras, e todos sabemos isto.

Ainda assim, de longe em longe, aparece um falador. Os faladores não começam com conversa mole. Começam logo pelos grandes temas, para captar a nossa atenção:

"Ah, ainda bem que está aqui alguém. Eu sou diabético, nunca se sabe o que pode acontecer. Tenho aqui um pacotinho de açúcar, e se me acontecer alguma coisa sempre há alguém para mo dar".

Respondo que sim, mas na minha cabeça, vejo-o a contorcer-se fatalmente em espasmos no chão húmido da condensação, antes que eu o ajude. Queria ajuda, viesse vestido.

Em 10 minutos soube tudo da vida do falador, exceto o nome, porque não perguntei. PSD de Faro. Ria-se tanto na primeira corrida de cada época, a da Festa do Avante, quando lhe gritavam "Força, Camarada". Teve um problema cardíaco em 2009. Foi a sua última maratona. A cauterização da veia, procedimento médico que percebo agora demorar 3 dias até se perceber do seu êxito, correu mal. Teve de repetir. Fazia a meia maratona em 1:30 aos 42 anos. Em 1:50 aos 50 anos. E aos 60 passava das duas horas. Mas ele não percebe porquê. Sente que a sua passada não mudou. Tem um filho engenheiro. Está cá apenas a visitá-lo. Aconselhava-se com o massagista do Sporting. Não era o Manuel Marques, era o outro. Se eu conheço ? Não. Crê que existe uma "escola de massagistas" no Sporting. Noutros locais, sem escola, ele queixa-se do joelho e afagam-lhe o joelho. Com a "escola Sporting", ele queixa-se do joelho e é totalmente afagado. "Porque um dor no joelho, pode ter origem em qualquer outra parte do corpo". Apresso-me para fora do banho turco, em fuga, e fico a pensar que ele nada soube de mim, facto que não parece importuná-lo, mas que a mim me alivia. Não sou grande falador. Já cá fora consigo ouvi-lo a importunar outros "banhistas".

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O que é que tu queres ?

por Fulano de Tal, em 13.01.14

Na próxima livraria em que meta os pés, comprarei o meu primeiro livro do Gonçalo M. Tavares. Já por várias vezes os folheei, e por uma razão ou outra, acabo por não os levar comigo. Agora será de vez.

O Gonçalo M. Tavares escreve na revista da TAP. E são sempre textos simples, bonitas estórias, que me dão um prazer imenso ler, e que guardo para contar a terceiros, porque vêm carregadas de significado.

O deste mês - assumindo que a revista é mensal o que não recordo -, é sobre uma lei que proíbe, no Texas, vai para mais de 20 anos, um desporto cujo nome não é revelado mas que consiste em enviar anões contra um alvo, usando um canhão. Isso mesmo. O desporto existia e foi proibido. Proibir algo tão degradante para o anão como isto, parece uma coisa irrefutável certo ? Errado. Uma associação de anões reabriu o debate, não apenas com o pretexto económico (sem este desporto muitos anões foram para o desemprego), mas também com o pretexto desportivo. Alegam os anões que este desporto está para as pessoas pequenas como o basquetebol está para as pessoas altas. São as caraterísticas físicas excecionais de uns e outros que lhes permitem alcançar a excelência na prática destes dois desportos.

Lembra o Gonçalo M. Tavares com esta história que melhor do que supor o que é melhor para o companheiro do lado, mesmo que pareça muito óbvio, é perguntar: "o que é que tu queres ?"

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