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Estação de Correios

por Fulano de Tal, em 08.10.13

Faz tempo que não ia a uma estação de correios. Recomendo vivamente.

Por vezes pensamos que o resto do país é igual a nós e ao nosso círculo de amigos, tem as mesmas ambições que nós temos, se pauta pelos mesmos valores. Pensamos que todos usam smartphones. Que sabem preencher formulários. Por isso temos dificuldade em perceber esta discussão das pensões de viuvez, do RSI, e da razão pela qual Portugal não se desenvolve. As estações de correios fazem-nos cair na real. É como brincar aos pobres, mas sem ir à Comporta.

Quatros postos de atendimento:

1. Para Atendimento Geral

2. Para Atendimento Geral

3. Para Atendimento Geral

4. Para Atendimento Geral

Todos devidamente identificados. Fila única e ordeira. 3 idosos, um adolescente, um senhor com os paramentos do café da esquina. Apesar dos 4 postos, 2 meninas, já entradotas. Falam aos clientes como se estivessem a falar com idiotas. Tanto assim, que eu para me integrar, comporto-me como um idiota.

O primeiro idoso, acompanhado da esposa, quer um telemóvel. A menina do guichet grita-lhe as condições gerais. Ouve mal. Mais tarde aperceber-me-ei que ela continuará a gritar a todos os clientes, incapaz de mudar o registo de "idoso com problemas auditivos" para "adolescente com problemas hormonais" ou mesmo, chegada a minha vez, "sujeito bem parecido com uma carta para enviar para o estrangeiro".

O idoso não conhece o termo portabilidade, tal como eu desconhecia que nos correios se executavam estes arranjos. A gritaria desenrola-se com a funcionária a detalhar as qualidades do telefone. Adjetivos que parecem interessar especialmente ao idoso são: "Simples" e "Leve". Em nenhum momento a palavra Internet apareceu.

Na caixa 2 uma idosa grita: "Onde é que eu assino ?". Nas mãos tem um papel com algumas coisas impressas e um espaço em branco precedido da expressão "Assinatura:". O octogenário atrás de si impacienta-se. Assim como o adolescente borbulhento, e eu. O homem do café permanece impávido. É o mais tranquilo do nosso grupo, e aparenta não estar para conversas.

Ultrapassada a formalidade da assinatura, a funcionária conta as notas da pensão: 10, 20,... 100, 200,... 500, e vinte e sete, e quarenta e três cêntimos. Ainda não lhe passou as moedas de cêntimos para as mãos e logo pergunta "Quer levar uma lotaria, Senhora Albina? São só 5 Euros". Também desconhecia que aqui se vendiam lotarias, e desconfio da pergunta feita a uma idosa que acabou de levantar 527,43 Euros, que deverá chegar até ao dia 10 do próximo mês. Não quer a lotaria. Quando chegar a minha vez, não me perguntará pela lotaria. Pergunto-me se eu não encaixo no perfil.

O primeiro idoso acaba de ligar o telemóvel com o seu cartão, e recebe 17 mensagens. Risos no balcão de atendimento, e olhares divertidos para a fila. Como se o tempo tivesse parado. A receção de SMS's é a prova de vida do aparelho, que segue assim com o seu novo dono.

É a vez do jovem adolescente. A funcionária continua aos gritos, mas trata o rapaz por tu.

"Mas tu és o destinatário ou o remetente ?"

... o rapaz fica confuso. "A encomenda é para mim".

"Então és o destinatário".

Encolhe os ombros em sinal de se-tu-o-dizes. O rapaz quer saber se a encomenda dele vai chegar. Isso mesmo... se vai chegar. Como pode a funcionária saber ? gera-se uma situação de potencial conflito, o rapaz é ciente dos seus direitos, que não devem ser negados nem ao mais estúpido dos adolescentes. A funcionária procura educadamente explicar que nada sabe da encomenda, mas o tom em que continua a gritar é enganador. O rapaz que já havia demonstrado nada dever à inteligência, demonstra agora nada dever à inteligência emocional. A situação desenrola-se perante o resto do grupo. O octogenário aparenta estar a urinar-se, o empregado de balcão a marimbar-se, e eu, ali.

Mais uma pensão para o octogenário. Também não quer lotaria.

O adolescente mesmo que quisesse não levaria qualquer cautela.

O meu envelope, almofadado, custa 5 Euros e picos, mas não têm multibanco.

Faz tempo que não ia a uma estação de correios. Das pessoas que lá encontrei apenas eu queria um serviço "postal". É-me estranho que por lá se vendam lotarias, livros, vias verdes e telemóveis. Mais estranho ainda as táticas de bazar marroquino, os scripts de vendilhão. Surpreende-me que as pessoas não saibam onde assinar, que tenham problemas com formulários simples, que tenham preocupações estúpidas, que não saibam o significado de destinatário e remetente, que se alheiem da miséria alheia.

Não recomendo a ninguém ir a uma estação de correios.

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