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Posição de força

por Fulano de Tal, em 01.02.13

Nesta semana aconteceu um episódio curioso. A CP lançou um caderno de encargos para a contratação de serviços de publicidade. 13 empresas levantaram o caderno de encargos até se aperceberem que ao volume de serviços contratados correspondia uma contrapartida financeira de 4,9 Euros / hora. Isso. 4,9 Euros. Por hora.

A associação do sector escreveu uma carta à administração da CP alertando-a para o facto de essas serem contas impossíveis. As 13 empresas abandonaram o concurso. A CP não gastou a massa, e se querem a minha opinião, os comboios andarão à mesma velocidade e com o mesmo número de passageiros durante 2013. Não é isso que me apoquenta.

O que me tira o sono há anos é esta… coisa… de as empresas, e os empresários, e os gestores e agora os directores de segunda linha, qualquer gato pingado, e toda a gente, literalmente toda a gente que tem de gastar uns tostões em Portugal, achar que, como estamos em crise, podemos abusar uns dos outros. E tira-me o sono pensar que há sempre alguém disposto a ser abusado.

É por isso que esta iniciativa da associação do sector, e a atitude em bloco subsequente das suas associadas, é histórica. Que tenha muita vergonha a empresa que a CP desenterrar debaixo de uma pedra e que aceite aquelas condições.

Dizia a directora de marketing da CP, a este propósito “A CP é uma empresa pública. Gere recursos que objetivamente não lhe pertencem. Que pertencem aos portugueses. A todos os portugueses. E por isso, sim. Somos cuidadosos na contratação. Tentamos sempre fazer o melhor ao melhor preço. E quando alguém insinua avareza na contratação de serviços está a elogiar a nossa filosofia de gestão.”

Ora, eu não conheço nenhum empresário que após fundar uma empresa se tenha fixado no posto de director de marketing. Assumo pois que todos ou a esmagadora maioria dos directores de marketing, mesmo em empresas que não são públicas gerem “recursos que objectivamente não lhes pertencem”.

Objectivamente, esta aproximação mesquinha ao que de mais mesquinho existe em “todos os Portugueses” não colhe portanto. Se esse argumento é repelente, o que dizer então daquela última e assassina frase… “quando alguém insinua avareza na contratação de serviço está a elogiar a nossa filosofia de gestão”. Filosofia de gestão?! Filosofia de gestão seria a CP assumir que com a massa que tem disponível, não consegue contratar uma equipa de 3,9 criativos. Que teria de abdicar de alguns dos seus projectos. E fazer os que restavam com a qualidade que os seus accionistas, “todos os Portugueses”, exigem.

Espero sinceramente que esta posição das empresas de publicidade faça escola. Eu farei a minha parte.

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